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Passos: se houver novo resgate será “por consequência de ato deliberado”

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PAULO NOVAIS/Lusa

Num discurso carregado de recados para dentro do PSD, Passos Coelho encerrou as jornadas parlamentares dizendo que “só cá está quem quer”. “A nossa missão não é agradar”, disse, vincando a diferença entre ser coerente ou teimoso. Sobre o Governo e a economia, traçou um quadro negro: “Sabemos a que é que esta abordagem conduziu no passado”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

"Só cá está quem quer" foram as última palavras de Pedro Passos Coelho no discurso com que encerrou, esta terça-feira, as jornadas parlamentares do PSD. Uma intervenção que se dividiu entre um quadro negro sobre a evolução da economia (Passos não pronunciou a palavra resgate, mas falou sobre isso), o diagnóstico de um Governo "bloqueado" e "paralizado", como medo de desagradar aos eleitores, e muitos recados para dentro do partido.

Ao longo de todo o discurso, em que retomou as linhas de força das suas intervenções dos últimos meses, Passos fez questão de valorizar a coerência da mensagem do PSD, por oposição à tentação de dizer coisas só para agradar ao eleitorado. "Espero que possamos manter a nossa coerência, não andemos ao sabor das marés e opiniões". Esse, diz Passos, "pode ser o facto mais distintivo para quem tiver de escolher no futuro". Embora admitindo que nalguns pontos o PSD poderá corrigir o tiro ("Nunca veio mal ao mundo em corrigir aquilo que não resultou"), Passos frisou que com guinadas no discurso "não se dá confiança a ninguém", embora possa "ser mais simpático".

Criticado por alguns setores do partido por se manter num registo muito parecido com o que tinha quando estava no Governo, Passos fez o elogio da coerência, tratando de a distinguir da teimosia, uma caraterística que alguns dos seus adversários internos lhe apontam. "Ser coerente não é ser teimosos", mas "temos de ser coerentes nos valores e princípios".

"A nossa missão aqui não é agradar, a nossa missão aqui é reformar para por o país num nivel de bem-estar superior", disse o líder social-democrata mais à frente, num discurso em que foi oscilando entre as críticas à maioria e ao Governo e as mensagens para consumo interno.

Ao antever a sessão legislativa que arranca esta semana, Passos avisou os seus deputados de que não devem "embarcar" em polémicas que são a "espuma" da política. "Se nos fustigarem por não querermos valorizar essa dimensão do debate, ganhem alguma carapaça", incentivou o presidente do PSD. no fundo, exortando o partido a seguir o exemplo do líder.

"Estamos a andar para trás"

Passos Coelho voltou a fazer a comparação entre os resultados da política do atual governo e aquilo que estava a ser alcançado pelo anterior, para acusar a esquerda de ter uma retórico que não bate certo com a realidade. "A retórica é que a austeridade acabou", porém não há dinheiro para investimento público, a economia cresce metade do que crescia há um ano, o investimento privado "caiu significativamente" e "o milagre do consumo não sustenta o crescimento económico que estava previsto".

"Estamos a andar para trás em Portugal em 2016. Se em 2017 as opções se mantiverem será mais um sinal de retrocesso", alertou o ex-primeiro-ministro.

"Sabemos a que é que esta abordagem conduziu no passado", avisou Passos Coelho, num momento em que o fantasma de um novo resgate volta a assombrar. Centeno já veio garantir que evitá-lo é a sua prioridade, e Passos teve o cuidado de nunca pronunciar a palavra resgate. Mas era disso que falava ao invocar o final do Governo Sócrates, quando o PSD deu o apoio que PCP e BE recusaram mas, apesar disso, "o pior aconteceu" - o pior, leia-se, o resgate. E ficou o aviso: "Desta vez, se acontecer qualquer coisa desse tipo, só por consequência de um ato deliberado".

E reforçou essa ideia da responsabilidade da atual maioria de esquerda num eventual desfecho negativo: não será "ingenuidade, incompetência ou distração que permita que uma coisa dessas possa acontecer".

"Quem quer compromissos não anda à pedrada"

O discurso de Passos Coelho serviu ainda para deixar bem claro, se tal fosse preciso, que não margem para negociações com os parceiros do atual Governo. "Não se espere de nós conversa cínica sobre comprometimentos", prometeu o presidente do maior partido da oposição, acusando o PS ter ter "um comportamento revanchista" e de "atirar pedras todos os dias" ao PSD.

"Quem quer compromissos não anda à pedrada", afirmou Passos, garantindo que fará os compromissos que tiver de fazer "com os portugueses". E estes, diz, hão de dar razão ao PSD. "Quanto mais tempo passa, mais as pessoas se apercebem alguma coisa errada se está a passar", confia o líder do PSD. Só faltou dizer, como diria Santana Lopes, "keep cool".