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Fernando Lima: Cavaco “teve medo dos socráticos”

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Rui Ochôa

Fernando Lima defende-se do “caso escutas” e acusa Cavaco de ter “receado mais ataques dos socráticos”

Fernando Lima acusa Cavaco Silva de ter tido medo dos ataques socráticos e de, por isso, o ter remetido para um lugar recuado na sua assessoria política na sequência do chamado “caso das escutas”.

Num livro com o título “Na Sombra da Presidência”, o ex-braço-direito de Cavaco, que o acompanhou 20 anos entre São Bento e Belém, defende-se, expondo a sua tese sobre os acontecimentos e conta que, num primeiro momento, esperou poder retomar a normalidade do seu trabalho. Porém, relata, “cedo comecei a perceber que o receio que havia em Belém de mais ataques socráticos ia marcar o meu percurso interno, de tal forma que só reapareci num evento da PR em dezembro de 2009, por ocasião da inauguração da árvore de Natal”.

“O meu lugar na assessoria para a comunicação social era, entretanto, ocupado por uma jovem que fizera carreira na JSD. Simpática, mas inofensiva e pouco experiente, era da confiança da família Cavaco Silva”, escreve Fernando Lima, enfatizando a convicção de que o então PR quis calar o caso que em agosto de 2009 abalou os meios políticos e mediáticos, quando o “Público” fez manchete com suspeitas da Presidência de estar a ser “vigiada” pelo Governo de Sócrates.

Em setembro, o “DN” escreveu que quem “encomendara” a notícia tinha sido Fernando Lima. Que acabou por ser afastado. Agora, com Cavaco fora de Belém, Lima entende ter terminado o período de reserva a que se submeteu “por dever”. Reconhecendo que o que se passou afetou a sua relação com Cavaco Silva — “ainda não compreendo que tenha tido comigo comportamentos inexplicáveis. Confesso que não esperava” — o autor fala de “operações encobertas” que atribui ao universo socrático. E que diz terem ultrapassado a sua “própria imaginação”.

Tudo começou com os “deputados socialistas que acusaram assessores de Belém de colaboração com o PSD” na elaboração do programa eleitoral. Nomeadamente Fernanda Toscano (que teria sido convidada para integrar as listas de deputados) e Pedro Saraiva (que acabou por trocar Belém por um lugar na lista de Coimbra). Fernando Lima escreve que “Não tendo conhecimento de qualquer registo público, em texto ou imagem, que assinalasse a participação de quem quer que fosse na tarefa específica de elaboração do programa do PSD”, reagiu à jornalista do “Público” que o interpelou, com uma interrogação: “Para fazer uma acusação tão direta, como é que sabem?”.

“Devo dizer que a desconfiança que tinha de que os socialistas eram detentores de informação para comprometer a Presidência obrigou-me a tentar apurar, internamente, o que se teria passado”, continua o autor. Que confessa ter achado importante estar “prevenido, perante o tom da acusação socialista, que exigia, inclusivamente, explicações imediatas do Presidente”. Dos contactos efetuados, Lima concluiu que “dois assessores tinham tomado parte numa reunião do PSD e que as reuniões tinham decorrido, em dias, lugares e com participantes diferentes, sem a presença da comunicação social. “Perante esses dados, não me custava admitir que estivessem sob observação. (...) Não vi a acusação dos deputados socialistas como uma mera picardia, mas sim como algo que só podia pressupor um conhecimento acrescido da atividade dos assessores da PR”, diz.

Fernando Lima acrescenta que tendo a “tarefa” jornalística sido “atribuída a três jornalistas, (...) percebia-se que a operação só fora possível graças à existência de uma mesma fonte coordenadora”. “Cada jornalista abordou o seu interlocutor, naquela tarde de 18 de agosto, praticamente à mesma hora e com a mesma pergunta. E batia-se logo à porta certa!...”, relata, concluindo que “um desses jornalistas” lhe “disse posteriormente que a fonte se situava no Largo do Rato”.

Noutro excerto, o ex-assessor de Cavaco conta como continuaram a “vigiá-lo”, mesmo depois de ter sido afastado de funções. “No dia seguinte à notícia do meu afastamento, fiquei em casa. (...) Estava necessitado de tranquilidade”. Mas recebeu “uma chamada de um amigo, oficial-general”. Queria dar-lhe “um abraço” e combinaram encontrar-se no Jardim do Campo Pequeno. “A nossa conversa de mais de uma hora foi de pé — conta Fernando Lima — com tal discrição que, para quem por nós passava, éramos dois desconhecidos”. Foi quando repararam “que um mendigo se encaminhava” na direção de ambos. Prepararam uma moeda, “mas o mendigo queria apenas prevenir-nos de que tínhamos sido fotografados longamente por alguém, escondido atrás de uma sebe. O meu amigo ficou incrédulo. (...) Intriga-nos ainda hoje quem possa ter feito a encomenda, para saber que àquela hora estávamos naquele local”.

Lima compara a ocorrência com a de um “episódio vivido por Markus Wolf, o superespião que comandou o serviço de espionagem da antiga Alemanha de Leste. E conclui: “Nunca tinha vivido uma situação tão concreta como aquela, que mostrava possuir um conhecimento preciso dos meus passos. Será que fora seguido em outras situações?”. Na manhã seguinte voltou a ser fotografado furtivamente à porta do Palácio de Belém. “Percebi — diz — que era uma maneira de me intimidar”.

De Cavaco, Fernando Lima terá recebido sinais claros de que era preciso estancar o caso. “Vi-me constrangido a comunicar superiormente alguns dos meus encontros e ouvia, invariavelmente, “tome lá cuidado”. O livro está nas bancas no próximo dia 8.

Texto publicado na edição do Expresso de 3 de setembro de 2016

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    “Não fui o único em Belém que assistiu, com grande frustração, à desconstrução da figura de Cavaco Silva, sem que aparentemente nada fosse feito no círculo para travar a degradação da sua imagem”, revela Fernando Lima no livro “Na sombra da Presidência – relato de 10 anos em Belém”, que chega às livrarias esta quinta-feira, onde o ex-assessor faz a descrição de um chefe de Estado “cada vez mais fechado no seu reduto”, num palácio onde existia “a paranoia com o segredo”