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A Festa é uma mensagem. Na outra margem

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Ana Baião

Descrito como o maior evento político-cultural do país, a Festa do Avante que encerra este domingo no Seixal, mantém a sua coerência ideológica

Luís M. Faria

Texto

Jornalista

Ana Baião

Ana Baião

Fotografia

“Lutar vale a pena”

“Pela luta é que vamos”

“Por esse país fora ALCANÇAM-SE VITÓRIAS”

Estas frases surgem em placards no pequeno pavilhão da JCP (Juventude Comunista Portuguesa), na Festa do Avante. A linguagem do comunismo sempre deu grande importância às ideias de luta e de vitória. Afinal, segundo a teoria marxista, a História encaminhava-se para um fim inexorável, com a resolução definitiva dos conflitos de classe. Era em função disso que todos os sacrifícios pessoais e coletivos valiam a pena. Noutro pavilhão da Festa, encontrámos velhos opúsculos das edições Avante com títulos como “A consolidação da vitória, lei da revolução”, “A força invencível do movimento comunista”, “As formas de luta pelo poder”. Para já não falar do clássico “Rumo à Vitória”. Em meados do século XX, era possível acreditar que um dia o comunismo triunfaria no mundo.

Ainda se descobrem na Festa homenagens a ícones de sempre, sobretudo em pavilhões como os de Cuba e do Chile, na zona internacional, onde mártires como Allende e o Che são objeto de ardilosas variações gráficas. Mas hoje os comunistas portugueses dedicam o grosso da sua atenção visível a objetivos mais concretos. Para os estudantes, por exemplo, são as batalhas em torno das avaliações (“Por uma avaliação justa e contínua. Não aos exames”, diz uma frase numa parede, junto ao desenho de duas mãos a rasgar uma folha) e dos subsídios (“Mais financiamento”, “Mais ação social escolar”).

A Festa do Avante é um bom lugar para adquirir uma perspetiva do discurso comunista hoje em dia. Aqui e acolá ainda se encontram referências à burguesia, ao grande capital e ao imperialismo, mas o partido parece ter internalizado as críticas sobre a ineficiência da proverbial cassete, e já não é como dantes. Se há um elemento dominante atualmente, é a Constituição da República Portuguesa. Por todo o recinto da Festa deparamos com transcrições de artigos dela, enunciando uma cornucópia familiar de direitos, desde o emprego e a habitação até à fruição e criação cultural.

Numa altura em que o mote oficial é “repor, defender e conquistar direitos”, a Constituição está claramente em alta. Uns bons vinte minutos antes do Seixal, logo na rotunda Centro Sul, à saída da ponte 25 de abril, via-se um cartaz com dois bonecos de computador a ilustrar o texto do artigo 1.º da CRP:

“Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”

“Soberania” e “dignidade” são duas palavras muito utilizadas pelo PCP. Graças à crise, ambas recuperaram uma atualidade que já não tinham há algum tempo. A primeira, por exemplo, serve agora sobretudo para rejeitar a “ditadura das instituições europeias” que nos impõem medidas de austeridade (no tempo da URSS, era mais a NATO que estava em causa). Do mesmo modo, palavras como “dignidade” e “justiça” são hoje lidas automaticamente como referências ao fim dos cortes a funcionários e pensionistas. Se tivermos dúvidas, os debates formais ou casuais na Festa esclarecem-nos completamente.

Ana Baião

Um espaço próprio, arranjado e aumentado

A Festa do Avante, que cumpre este ano quatro décadas, começou em Lisboa, passou para Loures e veio parar ao Seixal, mais precisamente à quinta da Atalaia, um vasto espaço de 28 hectares com áreas arborizadas em redor e que vai descendo suavemente até ao rio. Como ali, e pela primeira vez, o espaço é propriedade do PCP, o risco de expulsão terminou. O partido tem vindo a arranjar a quinta ao longo dos anos, e agora juntou-lhe os seis hectares da quinta do Cabo da Marinha, que ficam pegados.

Para quem recorda a Festa dos tempos em que aparecia lá Álvaro Cunhal, com a sua pochete e o seu sorriso enigmático e o seu discurso durante o qual parava tudo, a mística desapareceu. Em contrapartida, o espaço é bastante mais amplo e ordenado. Os novos terrenos permitiram alargar muitos dos espaços que já existiam, incluindo o das crianças, reforçando as características da FA como festa popular – a maior do país, parece.

À parte os vários palcos e outros espaços culturais (cinema, livros, artes plásticas, etc.), boa parte dos pavilhões são dedicados às regiões portuguesas, com as respetivas especialidades. Concretamente, são lugares para comer e beber. É verdade que a mensagem ideológica também está presente nesses pavilhões, mas como é puramente visual e se limita às paredes exteriores, um visitante alheio ao Partido pode perfeitamente almoçar sem ficar sujeito a ela. Se fosse sonora ou tivéssemos que dar com ela nas mesas ou quando vamos buscar a comida, algumas discussões podiam ser diferentes.

Ana Baião

O fado é do povo

A Festa do Avante acolhe umas largas dezenas de milhares de visitantes, ou talvez mais. Muitos não-comunistas vão lá pela seleção musical, que este ano inclui uma reunião dos Xutos & Pontapés com Paulo de Carvalho, outra de Jorge Palma com Sérgio Godinho e um espetáculo de Ana Moura, entre dezenas de artistas. Outro aspeto curioso para quem não frequenta a Festa há décadas é ver o destaque que o fado recebe. Longe vai a época em que líderes do partido, na linha do compositor Fernando Lopes-Graça, deploravam a pobreza musical, moral e psicológica desse género artístico.

Agora até há um café que lhe é dedicado, com atuações nos três dias. “O fado é do povo!”, lê-se na parede. “ Contra a deturpação e a mentira, hoje e sempre fado”. Reproduz-se um artigo do jornal Avante, datado de 1937, que começa por dizer que “de vez em quando, surge na imprensa burguesa um artigo contra o fado” e lhe chama “uma manifestação de arte popular e um meio de propaganda bastante sensível às massas proletárias”, apelando aos antifascistas que “desenvolvam e elevem os elementos artísticos que o fado contém”, tornando-o “um instrumento de esclarecimento das massas trabalhadoras”.

Talvez outras fadistas agendadas na Festa – digamos, Katia Guerreiro e Aldina Duarte - queiram discutir em público essas propostas. Mas é possível que alguns dos seus ouvintes não estejam excessivamente interessados nisso. Como poderão não o estar na Alternativa Patriótica de Esquerda, na Solidariedade Internacionalista ou em qualquer dos outros temas gerais da Festa. Com ou sem fado, a sensibilidade política depende sempre das pessoas.

Ana Baião

A burguesia estagnou a ciência?

Do mesmo modo, algum cientista laico que visite o Espaço Ciência poderá questionar se foram mesmo “o recrudescimento do neoliberalismo e a necessidade de a burguesia criar condições para a reprodução das relações de produção do capital”, ao terem relativizado “o valor da Ciência face às pseudociências”, que impediram os cientistas de fazerem descobertas fundamentais no último meio século, “talvez com exceção da predição do Bosão de Higgs em 1964”.

A ciência, como tudo o resto, é uma questão ideológica. Mas não faz mal, pois logo a seguir à doutrina e ao exame das diferentes ciências permite-se aos miúdos fazerem algumas experiências que ilustram princípios básicos. Ou seja, tal como em toda a Festa, encontram-se ali coisas destinadas a públicos variados. Quem quiser saber mais pode receber o conteúdo inteiro da exposição no seu email. É um euro. E são oitenta megabytes. Não se pode considerar caro.

  • A festa em que se vê a força do PC

    Há 40 anos foi um happening. Nunca o país tinha visto tantos espetáculos juntos e ao vivo. O “Avante!” ganhou projeção e o PCP fez da Festa uma prova de força e de capacidade de organização. Foi aqui que em Portugal começou o conceito de rentrée política. Que ninguém se iluda: é no “Avante!” que os comunistas marcam a sua agenda para o ano político que se inicia. E o deste ano, que começou esta sexta-feira, tem congresso e eleição de líder à vista