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“PS sem dinheiro para rendas, água ou luz”: a manchete do Expresso de abril de 2015

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Com um passivo de cerca de €11 milhões, o partido de António Costa está a renegociar a dívida

lucília monteiro

Republicação de um texto de 18 abril 2015, isto no dia em que os problemas financeiros do PS voltam a ser notícia: “Jornal de Notícias” escreveu que os socialistas pediram a dirigentes distritais para pagarem despesas da água e luz, PS emitiu comunicado a negar ter pedido donativos, dizendo que “vive da solidariedade e do trabalho generoso dos militantes”

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Sem liquidez nos cofres e com um passivo que ascende a 11 milhões de euros, o PS pediu um empréstimo à banca para poder enfrentar as despesas com a campanha para as legislativas, renegociou os juros do que já devia de forma a poupar umas dezenas de milhares de euros por mês e está a reavaliar o património que possui em todo o país. Contactado pelo Expresso, Luís Patrão, secretário nacional do PS para a Administração, reconhece que “o PS enfrenta uma situação orçamental exigente” e que, “nessas circunstâncias, medidas como a negociação de crédito e das respetivas condições ou a avaliação do património do partido (em relação ao qual, garanta-se, não há qualquer intenção de alienação) não são mais do que medidas de boa gestão, aplicáveis a qualquer instituição ou entidade”.

Medidas aguardadas com ansiedade por parte das secções, muitas das quais há meses que não recebem as verbas que lhes são devidas pela sede nacional e não conseguem, por isso, fazer face às suas despesas fixas. O PS de Leça da Palmeira, por exemplo, não paga a renda desde fevereiro nem a luz e a água desde janeiro. Na reunião desta segunda-feira na Federação Distrital do Porto, a cuja gravação áudio o Expresso teve acesso, a responsável da concelhia, Cláudia Miranda, reconheceu que a situação é grave: “Vou ter uma assembleia de militantes e vou ter de a fazer de dia, porque à noite não tenho luz. Devíamos ser avisados de que determinadas contas não estão a ser pagas. Somos nós que damos a cara, somos nós que temos os senhorios à porta, somos nós que lidamos com os cortes.”

Na mesma reunião, um responsável de Gaia admitiu que tem várias faturas de água por pagar e que só conseguiu evitar o corte porque “o camarada das Águas de Gaia é meu amigo e antes de ir lá fechar os contadores telefonou-me”; quanto às contas da luz, também teve de as pagar do seu bolso: “Queria saber se a partir de hoje posso estar descansado ou se tenho de andar sempre a saber se a luz está paga ou não”, questionou o mesmo responsável, dirigindo-se a José Luís Carneiro, o presidente da Federação. E Fernando Moreira, da Póvoa (foi assim que se identificou), alertou, indignado: “Vamos para a campanha eleitoral dizer que devemos repor os cortes dos reformados e eu também sou reformado. Mas estou a arcar com as despesas duas vezes: as minhas e as da secção. Não pode ser.”

Empréstimo para as legislativas

“O assunto da dívida do partido é um problema estrutural”, explicou Carneiro, acrescentando que “os problemas que estamos a ter no Porto estão a repetir-se em todas as federações: rendas a cair e não há dinheiro para pagar. Sabemos que há situações muito difíceis, mesmo graves”. Com efeito, o passivo do PS ascende nesta altura a 11 milhões de euros, ainda que os socialistas mantenham a esperança de recuperar mais de 8 milhões (3,6 respeitantes à subvenção para a campanha autárquica de 2013, questão que ainda está em tribunal, e 5 relativos a reembolsos de IVA).

Face a esta situação, a direção do partido está a fazer uma reavaliação dos ativos, e uma fonte do PS contactada pelo Expresso admite mesmo que as sedes concelhias possam vir a ser “hipotecadas para garantir um empréstimo”. Ao mesmo tempo, como o líder distrital reconheceu na reunião do Porto, “o partido está a renegociar a dívida com os bancos, e isso vai permitir, se não estou enganado, cerca de 100 mil euros de poupança nos juros que pagamos aos bancos. Por mês. É dinheiro”. Com eleições outra vez à porta, recorreu à banca para poder respirar: “Posso dizer-vos que foi negociado um empréstimo de 1,5 milhões de euros para o arranque das legislativas”, anunciou o líder do PS/Porto.

A situação financeira asfixiante do PS não é de agora. Desde que perdeu as eleições, em 2011, que tem vivido com as contas no vermelho, sem conseguir reduzir os custos na mesma proporção em que perdeu verbas da subvenção pública anual. Se, entre 2005 e 2011, recebia do Estado cerca de 9 milhões de euros anuais (o valor é calculado em função do número de votos obtidos para a Assembleia da República), a partir da derrota de Sócrates para Passos Coelho teve de se conformar com pouco mais de metade disso.

Sem outros recursos, o PS viu-se obrigado a usar, em vários momentos, o dinheiro das quotas para a atividade política: “Deveríamos ter na conta das quotas cerca de 600 e tal mil euros e tínhamos lá cerca de 35 mil euros para o país todo”, contou José Luís Carneiro na reunião de segunda-feira. Além disso, acrescentou, “as primárias ficaram muito mais caras do que se pensa. Foram muitos recursos que se consumiram”. Na procura de uma solução para os problemas financeiros da sua federação, contou ainda que já falou com Francisco Assis, “porque os deputados europeus também podem contribuir. O Assis disse-me que estavam a dar 500 euros para o partido e disse-me que ia ver se podia dar qualquer coisa, não muito, porque já dá a nível nacional”.

No final da reunião, Carneiro pediu aos presentes que tivessem “sentido de responsabilidade”, porque, como explicou, “o pior que podia acontecer é que na opinião pública aparecesse a ideia de que o partido não tem as suas contas em dia”.

Discurso direto

“Vou ter de fazer uma assembleia de militantes durante o dia porque à noite não tenho luz”
Cláudia Miranda, Secretária coordenadora do PS de Leça da Palmeira

“Por coincidência o camarada que está nas águas de Gaia é meu amigo e antes de ir lá fechar os contadores telefonou-me”
Um responsável do PS de Gaia, não identificado

“Os problemas que estamos a ter aqui no Porto estão a repetir-se em todas as federações. Rendas a cair e não há dinheiro para pagar”
José Luís Carneiro, Presidente da Federação Distrital do Porto