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O Presidente “apaixonado” e “um bocadinho louco” não resistiu a um Kinder Surpresa

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GREGÓRIO CUNHA/LUSA

Marcelo chegou no domingo à Madeira e visitou alguns desalojados dos incêndios de há três semanas. O Presidente distribuiu abraços, beijos, incentivos e conselhos, e recebeu em troca rosquilhas de manteiga, vinho rosé e um ovo de chocolate com uma girafa verde lá dentro. Uma girafa verde?

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Joana tem a sala pronta para receber o Presidente da República, que está de volta à Madeira. Estendeu mantas vermelhas sobre os sofás de padrões geométricos gastos, e sobre as mantas distribuiu cuidadosamente almofadas preto e brancas, três em padrão zebra e uma a imitar pele de vaca. Sobre a mesa baixa pôs um naperon de Natal, onde dispôs quatro copos desirmanados, uma garrafa de vinho rosé e uma travessa de vidro com broas de mel e rosquilhas de manteiga. Está na sua casa nova com o marido, os três filhos e uma sobrinha – a casa só é nova para eles, que há três semanas perderam a sua nos grandes incêndios do Funchal.

Joana e a família aceitaram abrir a porta do seu acanhado T3, no sítio da Cancela, concelho de Santa Cruz, para Marcelo Rebelo de Sousa e a comunicação social que o acompanha nesta visita à Madeira testemunharem as condições em que foi realojada. É uma das dezasseis famílias que agora vivem nos apartamentos que o Ministério da Justiça tem no bairro que fica colado ao Estabelecimento Prisional do Funchal – eram casas afetas ao pessoal da prisão que, com os anos, ficaram sem uso. Rubina Leal, secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais, há um ano que insistia com o Ministério da Justiça para que cedesse essas casas “para qualquer emergência” – e quando a emergência surgiu, nos incêndios deste mês, a ministra Francisca Van Dunen, que por coincidência estava na Madeira, telefonou de pronto a disponibilizar os dezasseis apartamentos. Só na Cancela estão 84 das 210 pessoas que já foram realojadas em consequência dos fogos de 9 e 10 de agosto.

Mas não é de nada disto que Marcelo quer saber - os números grandes pode ler nos relatórios, o que o Presidente quer neste seu regresso à Madeira é ouvir os testemunhos de quem está a pôr a vida de pé outra vez, e incentivar os mais esmorecidos a porem-se de pé outra vez.

Os abraços apertados e os beijos repenicados de Marcelo parecem ter poderes terapêuticos e, pelo sim pelo não, o Presidente distribui-os com largueza, que mal não fazem. E dá conversa, muita conversa, com um jeito próprio de por qualquer um à-vontade. Antes de chegar a casa de Joana (que preferiu identificar-se apenas pelo nome próprio), parou a falar com outra família realojada. Como estes garantiam que estavam “bem instalados”, Marcelo decidiu passar das palavras aos atos: “E pode ver-se? Vocês é que têm de convidar, não se entra em casa alheia sem ser convidado”... Claro que sim, senhor Presidente, que a um Presidente não se diz que não, ainda por cima com as televisões a filmar, e o senhor presidente do Governo Regional e ver, mais um sortido de autoridades, e até uma ministra, faça favor de entrar, e conforme se fazia convidado, Marcelo ia entrando, com a mesma capacidade de embaraçar os outros como de os deixar à vontade.

Quando chegou à casa seguinte, essa sim, preparada para o receber, já Marcelo sabia que os realojados "têm eletrodomésticos oferecidos por uma marca" (a marca tem nome - é Samsung - e se há momentos em que o nome merece ser referido, este é um deles), incluindo frigorífico e microondas. O PR fez-se da casa, tirou parecenças entre a mais nova da família e o pai, prognosticou que este viveria até aos 90 ou 95 anos ("aos 40 não tem nenhum cabelo branco") e tentou animar "a esposa", que se confessava "um bocadinho confusa".

"Confusa? Está bem, é diferente, é outro sítio, outra gente, outra vizinhança, mas olha para o futuro e vai arrancar para o futuro, vai ou não vai? Então não vai haver dias melhores? A parte pior já passou, não foi? Lembra-se daquelas noite? Já passou. Vamos embora", e abre caminho casa adentro.

Apreciou os brinquedos no quarto do Lucas, que se apresentou de braço partido, invejou o beliche do "quatro das manas", que "dá para aventuras enormes", desarrumou a fotografia do casamento de Joana que estava em cima da cómoda no "quarto da mamã e do papá". É a única fotografia que há na casa. "A gente ficámos todos com as fotografias para trás", conta Joana, com talento para eufemismos, sem nunca mencionar que "atrás" há casa que ardeu com a história da família lá dentro. "Essa foto foi uma amiga que nos fez a surpresa - tirou do Facebook e veio cá nos oferecer", começa a mulher a contar, mas o Presidente desvia a conversa para assuntos mais lúdicos: "Olhe que estava muito decotada, já viu bem? Normalmente as noivas não estão tão... Isto há quanto tempo é que foi? Sete anos? Mas acho-a mais nova agora, melhorou com o tempo e com o casamento. Muito bem..."

E já Marcelo está na sala, sentado sobre uma das almofadas de zebra, a distribuir broas e rosquilhas pelas crianças da casa e vinho rosé pelos adultos. Uma das crianças é sagitário, como Marcelo, e isso é razão de festa. "Dá cá mais cinco! Sagitário... Somos apaixonados, aventureiros, divertidos, gostamos dos outros. Assim um bocadinho loucos...", e abafa o discurso com outra rosquilha, deixando toda a gente a rir-se, como se fosse essa a sua missão, afincadamente cumprida pelas ruas do bairro.

Aos mais velhos, perguntou sobre "projetos para o futuro", porque "tem que se ter projetos para o futuro"; em conversa com as crianças, maravilhou-se pela sua capacidade de adaptação e "partir para outra"; a um aniversariante deu conselhos sobre como parecer mais novo ("Quantos faz? 56? Ah, já fiz disso há muito tempo. Eu a pensar que era mais velho do que eu, afinal é muito mais novo. Sabe qual é o problema? É a barba, que o torna mais velho. Eu cortei o meu bigode e a minha barba porque faziam-me..."); a um homem que lhe disse que o estava sempre a ver na televisão, prometeu "aparecer menos"; a uma menina de barriguinha proeminente, acenou com um casamento de sonho, mas pôs uma condição ("Quem sabe se um dia não casas com o meu neto. Eu tenho um neto rapaz, pode ser que sim... Mas não te deixes engordar, porque depois ficas com uma pança enorme").
Marcelo foi igual a si próprio, às vezes sem filtro. Sagitário. "Apaixonado, divertido, um bocadinho louco".

Na zona histórica de São Pedro, no centro do Funchal, percorreu as duas ruas onde o fogo fez temer pelo casario e ameaçou uma igreja do século XVII. Já noite, o dono de um snack bar convidou-o para parar no estabelecimento. Marcelo não quis café, apesar de ter previstas reuniões, pela noite dentro, com o Governo Regional e os autarcas dos municípios atingidos pelos fogos – mas não resistiu a um ovo Kinder Surpresa.

"Há aqui estes ovinhos... pode-se comer?" Claro que sim, respondeu o anfitrião, que um Kinder Surpresa nunca se nega a um Presidente da República. Marcelo desembrulhou-o, comeu-o à frente de toda a gente e montou o brinquedo. Era um bicho verde, com quatro patinhas e um pescoço comprido. Alguém sugeriu que seria uma girafa. "Uma girafa verde?", estranhou o chefe do Estado, que mirava a coisa tão curioso como a ministra da Administração Interna, ao seu lado. "Será uma girafa da Madeira?", aventou. "Ah, é um dinossauro!", concluiu.

Deixou o brinquedo em cima do balcão e voltou para a rua, onde um grupo estridente de turistas vindos de Viseu lhe fazia uma espera para uma fotografia. Noite dentro, terá reunido com autarcas e governantes regionais. Esta segunda-feira, volta a visitar zonas ardidas, no concelho da Calheta, e participa num jantar de recolha de fundos para os bombeiros. Pelo meio, visita um centro de aquacultura e dá um saltinho às ilhas Desertas. Na terça-feira, vai às Selvagens. Lá também há ovos, mas não são de chocolate. E trazem cagarras dentro, não dinossauros.