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Contra ventos e marés, Marcelo chegou às Desertas

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HOMEM DE GOUVEIA/ Lusa

Pela primeira vez um PR visitou as Ilhas Desertas, apesar das condições climatéricas adversas. O mar picado não o travou, mas os jornalistas ficaram para trás. Foi uma aventura depois de outra, pela manhã, em que uma idosa com a língua solta fez um comentário que calou Marcelo

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

ao largo das Desertas

Jornalista da secção Política

A fragata Francisco de Almeida parou a uns mil metros da Deserta Grande, que vista assim tão perto faz mesmo jus ao nome. Uma parede de rocha de quase 500 metros de altura praticamente a pique, onze quilómetros de comprimento, grutas escavadas pelo mar, pequenas praias e fajãs e três vigilantes do Parque Natural da Madeira esperavam pelo Presidente da República. Mas o estado do tempo quase estragou os planos à comitiva presidencial. Vento mais forte e mar mais picado do que diziam as previsões provocaram um compasso de espera. Por momentos pairou a dúvida: ficaria Marcelo Rebelo de Sousa tão perto da Desertas sem lá conseguir pôr o presidencial sapato?

Claro que não. Depois de algum tempo de manobras, com uma lancha da Polícia Marítima e três botes da Marinha a debaterem-se com o mar picado, chegou a notícia: por razões de segurança, apenas o chefe do Estado e uma comitiva muito reduzida seriam levados à ilha. A comunicação social e os restantes convidados ficariam na fragata, apesar dos impermeáveis e dos coletes salva-vidas já vestidos.

Embarcaram na lancha da Polícia Marítima apenas Marcelo, a ministra da Administração Interna, o secretário de Estado da Defesa, o presidente do Governo Regional da Madeira, o chefe do Estado-Maior da Armada e um segurança, porque nunca se sabe.

Ao ver Marcelo partir pelo mar alteroso, agarrado à lancha depois de se ter despedido com um divertido "gostei de conhecer-vos", deixando para trás o batalhão de jornalistas que o segue sempre nestas visitas, colocou-se a velha questão filosófica: uma árvore que cai na floresta sem que ninguém oiça fez mesmo barulho ao cair? A visita de Marcelo à Deserta Grande, sem o hipermediatismo que rodeia cada passo do Presidente... aconteceu mesmo? Sim, e uma equipa da RTP-Madeira que não estava a bordo da Francisco de Almeida foi testemunha disso mesmo, como tratou de esclarecer o próprio Marcelo, mal regressou à fragata.

Foi o PR quem fez para os jornalistas a notícia da sua aventura: a lancha "foi a bater mais para lá, contra as ondas, para cá foi a surfar", já com vento a favor, esclareceu. "Fizemos um itinerário, vimos várias espécies, como a alma negra, uma pequena ave com menos de um mês, outra com mês e meio, depois vimos o sítio de reprodução dos lobos marinhos, e umas grutas", foi narrando, dando conta de "uma coincidência feliz: foi a primeira vez que um PR veio às Desertas e a primeira vez que um presidente do Governo Regional veio às Desertas".

Peculiar falha, esta, num país tão pequeno haver uma parcela do território sem conhecer Presidente. "O PR não pode deixar de ir a todas as frações do território português, e às Desertas era estranho que nunca tivesse vindo", até por ser um parque natural "premiado como dos melhores da Europa e do Mundo na proteção da natureza", reconheceu Rebelo de Sousa.

GREGÓRIO CUNHA/ LUSA

Distribuir a ração à esquerda e à direita

Ao contrário da incursão às Desertas, no ponto anterior do dia de Marcelo, no concelho da Calheta, não faltaram testemunhas: comunicação social em peso e bastante gente na rua contente por ter o Presidente ali à mão de semear.

Primeiro, o chefe do Estado visitou um centro de aquacultura em offshore que produz douradas, sargos e pargos. Os peixes, ainda pequenos, em tanques à espera de ganharem tamanho para serem largados num gaiola em alto mar, são alimentados a cada 50 minutos. Mas hoje, como era dia de visita do Presidente, alguns tiveram direito a ração extra, fornecida pela primeira figura do Estado com o mesmo cuidado com que gere os assuntos da política. O próprio explicou o seu método:

"Veja como eu giro isto cuidadosamente", disse, quando alguém o acusou de ser "um mãos largas" a derramar comida no tanque. "Um bocadinho mais para a esquerda, um bocadinho mais para a direita e agora ao centro", detalhou. O importante, justificou o PR, é "não os habituar mal"...

... e Marcelo embatucou

Depois da aquacultura, o PR mergulhou no povo e não dececionou ninguém: desdobrou-se em afetos pelos dois lados da rua, deu beijos a quem quis e conversa a quem a retribuiu. Uma idosa a queixar-se do valor das reformas deu uma volta tal à conversa com o Presidente que a certo ponto já contava que teve dez filhos bem distribuídos, cinco rapazes e cinco raparigas, graças ao seu falecido, Deus o tenha, que "maquinava bem". Marcelo, que não perde uma oportunidade para louvar o desempenho das mulheres, protestou que o mérito não era só da maquinação do homem, mas a idosa não se convenceu, retorquindo com sotaque madeirense cerrado: "A gente dá-se o forno e eles é que metem a pá".

Rebelo de Sousa, que raramente fica sem resposta, embatucou. Aproveitou a lição de padaria para se retirar em silêncio, com toda a dignidade possível, para beijocar a vizinha do lado.