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Bloco de Esquerda. De casa ocupada a sede de poder

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O acesso ao edifício faz-se por uma porta lateral à fachada que dá para a Rua da Palma. Depois de subir um curto lanço de escadas, ficamos de frente para uma ampla sala de estar e de refeições, antes dividida em duas por uma parede que já não existe. Era na sala da esquerda que, na década de 80, se organizavam os concertos do Bar das Palmeiras com bandas como Peste&Sida, Censurados ou Sitiados

Luis Barra

A sede do BE começou como uma casa ocupada em 1975 pela Liga Comunista Internacionalista. O edifício foi depois arrendado legalmente pelo PSR durante duas décadas, até que o BE o comprou e remodelou

Luís Barra

Luís Barra

Fotojornalista

As salas não deviam albergar mais de 100 pessoas. Mas naquela noite estariam lá mais do dobro. Muitas aos saltos, a dançar ou a cantar, de copo numa mão e cigarro na outra, envoltas numa névoa e em trânsito entre o concerto e o bar da sala ao lado. Num recanto, amontoada num ‘palco’ improvisado com dois metros quadrados, estava a banda. “Não quero ser azul, nem verde, nem cinzento, não quero ser general, nem soldado, nem sargento”, gritavam os Peste&Sida. A letra vinha a propósito: era mais um concerto organizado pelo Partido Socialista Revolucionário (PSR) para contestar o serviço militar obrigatório.

Estávamos em 1987, no Bar das Palmeiras, na Rua da Palma, em Lisboa, numa das muitas iniciativas da campanha “Tropa Não”. O velho palacete servia de sede a um partido jovem, de extrema-esquerda. E era também um ponto de referência cultural da Lisboa dos anos 80. Por ali passavam bandas como os Censurados, Xutos ou Sitiados, numa série de espetáculos e eventos que terminaria de forma abrupta em outubro de 1989, no dia em que José Carvalho — um dos grandes dinamizadores do PSR, conhecido como “Zé da Messa” — foi assassinado à porta do edifício por um grupo de neonazis.

“A morte do ‘Zé da Messa’ colocou este local na história da política portuguesa, no sentido em que esse foi o primeiro de uma série de ataques racistas e fascistas que aconteceram naquela altura. E esse acontecimento interrompeu também um pouco a dinâmica que tinha sido criada neste edifício”, recorda o deputado e dirigente do Bloco de Esquerda (BE) Jorge Costa, durante a visita guiada que fez ao Expresso.

Depois do assassínio de “Zé da Messa”, Costa lembra que “só por altura da luta estudantil contra a PGA”, já entre 1991 e 1992, é que o espaço voltou a recuperar alguma da vibração que antes tinha. Aos poucos foi retomando o pulsar e acabou por ganhar outras vidas: a fusão que deu origem ao BE, as primeiras noites eleitorais do novo partido e também a degradação do edifício. Até à profunda recuperação que em 2010 lhe deu a versão atual: modernizado, como novo, e, se não politicamente correto, pelo menos politicamente adaptado. Até há salas multifuncionais no primeiro andar que, consoante a arrumação da escassa mobília, tanto servem para a direção do Bloco se reunir como para fazer conferências de imprensa ou negociar acordos políticos que sustentam governos.

 Durante o restauro do palacete foi descoberta uma placa de madeira, escondida debaixo de um degrau, assinada em 1876 por um dos obreiros da escadaria original: “Fez esta escada João Martinho da Silva em Septembro de 1876. Que ella dure tanto como o dinheiro que della receberei”

Durante o restauro do palacete foi descoberta uma placa de madeira, escondida debaixo de um degrau, assinada em 1876 por um dos obreiros da escadaria original: “Fez esta escada João Martinho da Silva em Septembro de 1876. Que ella dure tanto como o dinheiro que della receberei”

Luis Barra

Na atual sala de estar da sede do BE — no rés do chão deste palacete de finais do século XIX —, os tempos dos concertos de punk-rock são apenas uma memória distante. Onde antes existiam duas salas, uma para os concertos e outra a servir de bar, há hoje um espaço comum, amplo, sem a parede que antes as dividia. Onde em finais de 80 ecoavam os gritos dos Peste&Sida há agora, de um lado, sofás sóbrios e mesas de apoio e, do outro, uma cozinha com equipamentos industriais e uma mesa corrida para refeições. Ao meio, uma estante. “Ainda fazemos aqui muitas coisas. Debates, encontros, festas... mas com algumas limitações em relação à utilização que se fazia antes”, sorri Jorge Costa.

Ocupação legalizada

O início da história política deste edifício remonta ao pós-25 de Abril, quando a então Liga Comunista Internacionalista (LCI) — que em 1979 viria a dar origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR) — decidiu assumir um papel ativo na vaga de ocupações então em curso pelo país: o palacete de três andares nas imediações do Martim Moniz estava há anos abandonado e passou a ser ‘a casa’ da LCI.
Mas pouco tempo depois a ocupação foi legalizada.

“Passado o primeiro fôlego do período revolucionário, muitas das casas que tinham sido ocupadas foram devolvidas aos proprietários e os ocupantes despejados. A diferença neste prédio é que, pouco depois da ocupação, a LCI iniciou um trabalho de contactos com os herdeiros, que estavam dispersos pelo país, para que aceitassem conjuntamente uma verba para um arrendamento legal.” Por isso, quando a vaga de despejos ocorre, a LCI tinha já em sua posse um contrato de arrendamento que viria a transitar para o PSR. E depois para o BE. Com o passar dos anos, e apesar dos esforços de manutenção, a degradação do palacete foi-se acentuando. Ao ponto de, depois de terem organizado em junho de 1999 o acompanhamento da primeira noite eleitoral do BE no edifício (numas eleições europeias), os dirigentes do partido decidiram acompanhar as noites eleitorais seguintes na Caixa Económica Operária.

No segundo andar, ao fundo do corredor que separa as salas do Esquerda.net de duas salas de trabalho, há um acesso ao sótão do edifício, que está (ainda) vazio

No segundo andar, ao fundo do corredor que separa as salas do Esquerda.net de duas salas de trabalho, há um acesso ao sótão do edifício, que está (ainda) vazio

Luis Barra

“Com a degradação do espaço, isto começou a ficar perigoso, havia zonas com bocados a cair”, recorda Jorge Costa. Embora fosse convicção generalizada entre os dirigentes do BE de que o edifício deveria ser recuperado, mantido como património do partido e sede nacional do Bloco, esse processo de intenções só teve efeitos práticos alguns anos depois.

“Não estávamos interessados em deixar o edifício ruir. Porque é um palacete, é património, mas também porque existe uma grande afinidade política, emocional e histórica do partido em relação a este local”, resume o deputado bloquista. Contactados novamente os cerca de 20 herdeiros do edifício, o acordo para a compra seria fechado em finais de 2008, por valores na ordem dos 600 mil euros. Para o efeito foi contraído um empréstimo bancário que o partido diz já estar amortizado. Seguiu-se o processo de obras e a inauguração da nova sede nacional do BE, em março de 2010. Embora tivesse sido ponderada a possibilidade de manter a fachada do edifício e reconstruir ‘do zero’ os interiores — “o que teria permitido refazer a altura dos pisos e ganhar mais um andar” —, os dirigentes do Bloco abdicaram dessa solução, que seria “mais barata”, e optaram por preservar o edifício e mantê-lo o mais fiel possível às origens.

O gesso dos tetos foi replicado, a sala árabe junto ao átrio de entrada foi mantida, as escadarias reabilitadas, degrau a degrau. Na parte de trás de um deles descobriu-se uma pequena ‘relíquia’, hoje emoldurada nas escadas em caracol que dão acesso ao primeiro andar. “Fez esta escada João Martinho da Silva em Septembro de 1876. Que ella dure tanto como o dinheiro que della receberei”, lê-se na madeira que estava pregada na parte de baixo de um dos degraus antigos.

A nova cara da sede

a cave do edifício, onde antes estava a rotativa que imprimia os boletins da LCI e do PSR e os livros da editora Antígona, está hoje instalado o estúdio de TV onde o BE produz todos os seus tempos de antena. O chão da cave foi rebaixado durante as obras para tornar o espaço mais funcional e instalar todo o material necessário. Uns metros ao lado há também um estúdio de rádio

a cave do edifício, onde antes estava a rotativa que imprimia os boletins da LCI e do PSR e os livros da editora Antígona, está hoje instalado o estúdio de TV onde o BE produz todos os seus tempos de antena. O chão da cave foi rebaixado durante as obras para tornar o espaço mais funcional e instalar todo o material necessário. Uns metros ao lado há também um estúdio de rádio

Luis Barra

Se o edifício manteve a traça original, a remodelação trouxe também um toque de modernidade que contrasta com a “estrutura típica de um palácio burguês do século XIX”. Nos acabamentos, mas não só. Ao contrário de outras sedes partidárias ou dos gabinetes e corredores que os deputados bloquistas frequentam no Parlamento, aqui não há mobília centenária, longos tapetes vermelhos ou motivos decorativos dourados. O mobiliário é maioritariamente do tipo IKEA, a decoração frugal e, salvo algumas salas — como as do site Esquerda.net, no segundo andar, ou as salas reservadas a funções mais administrativas —, não há gabinetes ou lugares marcados para os dirigentes do BE. “Há pouco estava a trabalhar ali”, aponta Jorge Costa, “mas depois chegaram uns miúdos para uma reunião, peguei no portátil e fui para outra sala.” “A Catarina [Martins] quando vem para cá também anda tipo nómada”, diz.

Na cave do edifício, onde nos anos 70 e 80 estava montada a rotativa que imprimia os boletins da LCI e do PSR e os livros da editora Antígona, está hoje instalado o estúdio de televisão do BE. Uns metros ao lado há um estúdio de rádio. É entre estes dois espaços que o partido já faz todos os seus tempos de antena. “Ainda não explorámos ao máximo a capacidade que temos aqui, mas já pagámos o estúdio de TV só com o que poupámos em contratação de empresas para fazer tempos de antena”, estima o dirigente do BE. A procura de independência estende-se à área criativa e de produção de materiais para campanhas, comícios ou manifestações. “Somos um partido sem outsourcing. A única coisa que contratamos são os outdoors, porque já é indústria pesada. O resto é tudo connosco, feito por pessoal interno.” Daí a decisão de comprar uma garagem situada nas traseiras do edifício — a que se acede através de um pequeno pátio com zona para churrascos — e que serve atualmente de ateliê, onde se produzem e armazenam os materiais de propaganda usados nessas iniciativas.

 A fachada do edifício, na Rua da Palma, perto do Martim Moniz, tinha antes duas palmeiras que deram o nome ao bar do PSR. Hoje resta uma

A fachada do edifício, na Rua da Palma, perto do Martim Moniz, tinha antes duas palmeiras que deram o nome ao bar do PSR. Hoje resta uma

Luis Barra

Outros materiais de propaganda mais históricos, que remontam aos primórdios do BE e aos partidos que lhe antecederam, estão expostos em algumas salas de trabalho, como uma situada no segundo andar, em frente à redação do Esquerda.net e que é “pouco usada, porque no verão é muito quente e no inverno é gelada”. Ali estão expostos cartazes do PSR e da LCI, associados a movimentos desde a defesa do aborto livre à contestação contra os presos políticos na Argentina, por altura do Mundial de 1978.

Mas as memórias desses tempos estendem-se do interior para o exterior. Da janela dessa sala vê-se a Rua da Palma e metade da razão do nome do antigo bar do PSR: das duas palmeiras que adornavam a fachada principal do edifício, apenas uma resiste, e com dificuldade. “É deprimente ter morrido a outra palmeira. Há três ou quatro anos que estamos a lutar contra os bichos. Conseguimos salvar uma, mas a outra morreu... As duas palmeiras eram um símbolo...” Que não viveu para ver a chegada ao poder.