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PS tranquilo com “arrependimento” do BE

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FOTO NUNO BOTELHO

Frase da líder bloquista não incomoda Governo. Rentrée do BE vai servir para deixar avisos e reiterar compromissos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

“Todos os dias me arrependo” — a frase de Catarina Martins, questionada numa entrevista ao “Público” sobre o acordo das esquerdas (a famosa “geringonça”) agitou a calmaria de agosto, mas não fez tremer nem o Governo, nem o PS, nem tão-pouco as esquerdas. “Faz parte das coreografias partidárias”, diz um alto dirigente do PS ouvido pelo Expresso. O contexto — em contagem decrescente para a negociação de um Orçamento do Estado em que a margem de manobra não será muita — pode ajudar a explicar este desabafo, acrescenta o mesmo responsável socialista. “Ela sabe que no OE não terá muito por onde puxar e está a preparar a sua gente para isso.”

Ninguém teme que o “arrependimento” passe das palavras aos atos. Até porque foi a própria Catarina Martins a garantir, depois da publicação da entrevista, que a sua frase não era mais do que um sintoma de “seriedade política” — “quem é sério naquilo que faz, naturalmente assume as dificuldades com que vive”.

Em todo o caso, visto do PS, não haver motivo para alarme não significa que o desabafo tenha sido politicamente inócuo. “Pode ser uma declaração for the record: ‘se isto correr mal, depois não digam que eu não avisei’”, interpreta um membro do Secretariado Nacional.

Este domingo, na rentrée do Bloco, Catarina Martins deverá fazer o balanço de quase um ano de “geringonça”, puxando pelas políticas que o partido considera ter influenciado — desde o aumento dos rendimentos das famílias mais pobres até a manutenção da natureza pública da Caixa.

Mas o discurso da dirigente bloquista, que vai encerrar o Fórum Socialismo 2016, em Santa Maria da Feira, não passará ao lado das dificuldades de entendimento com o PS. A ponderação final não será muito diferente do que a coordenadora bloquista disse na terça-feira aos jornalistas: “Todos os dias trabalhamos, todos os dias vamos construindo soluções e o BE aqui está todos os dias para um compromisso que fez de reposição dos rendimentos do trabalho no nosso país, em salários e pensões”, explicou a líder do BE, concluindo: “Se é difícil? É. Muito. Se desistimos? Nunca.”

Avisos ao Governo

A garantia não chega sem avisos. A pensar no orçamento, mas não só. O caso da CGD, apesar do desfecho que o BE viu como positivo — está garantido o apoio bloquista ao retificativo para acomodar a injeção de capital no banco público —, deixou marcas por causa da forma como foi gerido o processo de constituição da administração. Sobretudo a forma como o secretário de Estado Mourinho Félix anunciou a mudança da lei para permitir incluir na direção do banco os sete administradores não-executivos chumbados pelo BCE. Quando Catarina fala em arrependimentos está a pensar também nisto: “Não gostamos muito de ouvir o Governo anunciar alterações legislativas para nomear administradores da Caixa sem o BE saber previamente de nada. Não pode voltar a acontecer”, diz um dirigente do BE.

A rentrée bloquista deverá servir também para reafirmar as prioridades do partido para 2017, a começar pela melhoria das pensões mais baixas e das medidas de apoio social e a continuação do combate às rendas no sector elétrico. As conversas entre o BE e o Governo para o OE-2017 já começaram e deverão acomodar questões tratadas nos seis grupos de trabalho que foram formados em março. A questão é saber, na negociação final, quais as medidas que avançam e quais as que continuam à espera.