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Sem um nº 2, Costa é o faz-tudo do Governo

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A ausência de um peso-pesado na coordenação política do Executivo é notada no PS e em Belém. O PM é quem mais vezes vai a jogo, ofuscando todos os ministros

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

“O Governo não tem ministros políticos, nem no combate de todos os dias nem para evitar que o primeiro-ministro tenha de estar a falar todos os dias sobre tudo” — a análise é de um socialista de peso que vem seguindo com apreensão os sucessivos casos de descoordenação, gaffes políticas e tiros nos pés que o Executivo tem protagonizado. Esta semana, foi o chumbo do BCE a boa parte do que o Ministério das Finanças propôs para a nova administração da Caixa Geral de Depósitos; na semana passada, com a reação tardia à vaga de incêndios que atingiu o país; na semana antes, com as polémicas do novo regime do IMI e das viagens de três secretários de Estado a França para assistirem a jogos da seleção nacional a convite da Galp, o gigante que tem inúmeros interesses em relação ao Estado, nomeadamente um conflito fiscal acima de cem milhões de euros.

O caso da nova administração da Caixa “está a ultrapassar tudo”, desabafa um responsável do PS — três administradores-executivos foram mandados fazer um curso de gestão bancária, o presidente-executivo foi impedido de acumular funções como chairman, oito administradores não-executivos foram chumbados porque a proposta violava a lei — e em resposta o secretário de Estado das Finanças prometeu mudar a lei, levantando a oposição do BE e do PCP, os dois parceiros do Governo. “Como é que o Costa não os põe na ordem?”, questiona-se a mesma fonte, que pediu anonimato.

O Ministério das Finanças tem sido um dos principais focos do descontentamento dos socialistas, mas a crítica, neste caso, atinge sobretudo o primeiro-ministro, por ter formado uma equipa com muita gente sem rodagem política e com uma estrutura onde falta um ou dois pesos-pesados capazes de assumir funções de coordenação e de ir à luta, evitando o desgaste do chefe do Governo. “António Costa é uma pessoa muito centralizadora na decisão e na ação”, constata um socialista que o conhece desde a juventude.

O espaço mediático ocupado pelo PM dá bem conta disso: a quantidade de notícias em que é ele o protagonista esmaga todo o restante Governo (ver infografia e texto nesta página). Costa ocupa o espaço que seria sempre dele, por inerência de funções, mas também é ele quem vem muitas vezes a palco quando outros membros do Governo são notícia por más razões ou não conseguem passar a mensagem — sejam as polémicas na Educação sejam as “bofetadas” de João Soares, seja a vaga de incêndios enquanto a ministra da Administração Interna ia à praia e a festas no Algarve ou a natureza “tímida” do ministro da Economia. “Falta-lhe um Jorge Coelho, um António Vitorino, um Pedro Silva Pereira”, reconhece um conselheiro que fala com Costa frequentemente. “Qualquer destas pessoas explicaria que a ministra que tutela os bombeiros não pode ir de férias em agosto”, acrescenta a mesma fonte.

Ainda domingo, no Pontal, Pedro Passos Coelho pegou nos últimos dados sobre a estagnação da economia para denunciar que quando as coisas falham “não há um membro do Governo que apareça a explicar ou a dar a cara. (...) O ministro da economia podia aparecer a explicar o que se passa com a economia, ou o ministro das Finanças, que fez um comunicado”.

Marcelo já falou sobre o nº 2

As críticas ao desenho do Governo ouvem-se mesmo na Presidência da República. O assunto, apurou o Expresso, tem sido abordado por Marcelo Rebelo de Sousa. “Os principais erros do primeiro-ministro são erros de estrutura de Governo e de falta de coordenação. António Costa tem os dossiês vitais que têm que ver com a Europa, a banca e o Orçamento, e depois pontualmente trata do resto. E não consegue ir a todas”, comenta-se em Belém. O próprio Presidente já terá sinalizado em conversa com o primeiro-ministro a preocupação com as insuficiências da estrutura do Governo e com a inexistência de um peso-pesado ao lado de Costa.

O chefe do Governo tem um ministro-adjunto, o seu amigo de há muitos anos Eduardo Cabrita, mas o seu papel é discreto e “não tem peso político para ser um coordenador do Governo”, admite uma fonte da maioria. O nº 2 de facto, Augusto Santos Silva, tem o cargo, tem esse peso, tem traquejo político e até já admitiu que gosta de “malhar na direita” — mas as funções em que Costa o colocou, à frente da diplomacia, obrigam-no a olhar muito para fora do país e, cá dentro, a assumir um desempenho mais... diplomático.

Apesar disso, enquanto Costa esteve de férias, houve quem elogiasse a firmeza com que Santos Silva acudiu ao fogo provocado pelas viagens dos secretários de Estado que foram ao Euro — e a prontidão com que, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, assumiu que irá avocar “pessoalmente” qualquer decisão que tenha de ser tomada sobre a Galp no seu ministério — ao invés, Mário Centeno e Manuel Caldeira Cabral ainda nada disseram sobre impedir futuras decisões envolvendo a Galp por parte dos seus secretários de Estado que foram ao futebol com a petrolífera.