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As ilhas onde a ‘geringonça’ não funciona

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EDUARDO COSTA

A dois meses das eleições regionais, o retrato político do império que Carlos César domina há 20 anos

Estêvão Gago da Câmara, correspondente em Ponta Delgada

Quarenta anos depois a autonomia açoriana vai a votos pela 11ª vez. O PS leva vantagem, ganhou já por seis vezes desde 1996 até agora, sobre o PSD que foi governo de 1976 até 1996. Mota Amaral venceu cinco legislativas e Carlos César outras tantas. Nenhum deles saiu por derrota eleitoral, mas por vontade própria.

Vasco Cordeiro é o socialista que atualmente preside ao governo regional que ganhou, em 2012, com maioria absoluta. Já não lhe será possível igualar o tempo dos seus antecessores no poder. César fez aprovar uma legislação que dita que ninguém voltará a permanecer no poder por mais de três mandatos. Há quem defenda que o fez a pensar em si próprio, para abreviar o tempo de espera para um eventual regresso. A continuidade e permanência nos palácios estão reservadas, por afinidade: poucos meses antes de sair do Governo renovou o contrato da mulher, Luísa César, como coordenadora dos palácios da presidência. Já em 2009, fizera sua a vontade e o gosto da mulher de criar um museu da autonomia; a obra (que custará mais de quatro milhões de euros) decorre a bom ritmo, precisamente na cave e rés do chão de um dos palácios, gerida por uma Estrutura de Missão cuja presidente é, nem mais, Luísa César.

Os dois “capitães” de César

Entretanto, Carlos César tem desempenhado com zelo e astúcia um papel de moderno “donatário” seiscentista a quem nem faltam os “ capitães” residentes na partilha do governo das ilhas pelos seus mais diletos e fiéis. É bem visível a sua influência junto de António Costa e do Governo das esquerdas (é ele que garante que o Terreiro do Paço cumpre as suas “obrigações de solidariedade” para com o arquipélago), ainda que poucos se lembrem (ou façam por esquecer) que, no tempo de António José Seguro, César defendeu uma solução nacional que passava por um compromisso do PS com o PSD e o CDS.

Ao contrário de Mota Amaral, que sempre recusou uma sucessão de “delfinato”, César não só escolheu o sucessor como o levou, pela mão, a sentar-se na cadeira do poder. Nem mesmo admitiu a realização de um congresso, dispensou a auscultação das bases, realizando tão-só uma “convenção” de aclamação e confirmação da sua vontade. Entre a preferência pessoal e o peso da geografia eleitoral, entre Sérgio Ávila e Vasco Cordeiro, César jogou pelo seguro e apostou na ilha com a maioria dos eleitores dos Açores. Foi assim que nasceu o modelo de “coabitação” e partilha de poder entre a “Terceira” e “São Miguel” e o que cada uma representa politicamente para os Açores.

Passos Coelho com Duarte Freitas, líder do PSD/Açores

Passos Coelho com Duarte Freitas, líder do PSD/Açores

EDUARDO COSTA

O “território” político de Ávila é de longe o maior dos Açores, tem tudo sob a sua dependência: cinco direções regionais e 22 serviços desde as finanças e o património à gestão global dos fundos comunitários, ao artesanato, defesa do consumidor e desenvolvimento e coesão regional. A vice-presidência do Governo, Emprego e Competitividade Empresarial faz jus ao nome do Palácio dos Capitães-Generais, onde está sediada, em Angra do Heroísmo: Ávila é de facto quem manda. Cordeiro reserva-se ao papel de representação. Mas tem sido tudo menos pacífica a relação entre os dois “capitães” de César. Ainda agora, em agosto, em tempo pré-eleitoral, comenta-se a ausência de Vasco Cordeiro nas Sanjoaninas 2016, as maiores festas profanas da região, em Angra.

Com o domínio total da economia e, sobretudo, das finanças regionais, Sérgio Ávila acumulou antipatias dentro e fora do governo. Em julho, conseguiu reunir o consenso negativo dos responsáveis máximos da lavoura, dos empresários do comércio e da indústria e da UGT que, de forma inédita, assinaram um acordo de parceria para o desenvolvimento, onde é declarado o “esgotamento do modelo económico” que tem vigorado nos Açores. No documento conjunto é declarado que o “flagelo social do desemprego é, em grande parte, uma consequência da falta, insuficiência ou falência das atuais políticas públicas de desenvolvimento económico e social”. No essencial, reclamam “um novo paradigma” que ponha fim à “governamentalização” da vida económica e alcance a “libertação da sociedade civil”.

O BE na oposição

Naturalmente diferente nas suas razões, o Bloco de Esquerda também defende “um novo paradigma” para o desenvolvimento dos Açores. Na convenção bloquista do mês passado, na presença de Catarina Martins, a líder regional, Zuraida Soares, teve uma intervenção extremamente crítica do governo regional, mais implacável do que qualquer outro partido da oposição teve nos últimos tempos. Zuraida Soares denunciou o ambiente de compadrio e de falta de transparência em que vive a administração regional e a dureza da intervenção valeu-lhe a reação dos socialistas que, em plenário do parlamento, denunciaram a existência de “dois Blocos de Esquerda...”. A resposta da líder do BE ficou registada: “Não há dois Blocos de Esquerda, afinal há é dois Partidos Socialistas; há um que não tem maioria absoluta na República e por isso está obrigado ao diálogo, à negociação e à humildade democrática e há outro na região autónoma dos Açores que se esconde atrás da sua impunidade transmitida pela maioria absoluta que tem, esses é que são os dois Partidos Socialistas”.

Assunção Cristas com Ana Afonso, a cabeça de lista 
pelo CDS às regionais de outubro

Assunção Cristas com Ana Afonso, a cabeça de lista 
pelo CDS às regionais de outubro

EDUARDO COSTA

A ‘geringonça’, é um facto, não se alarga aos Açores. Vasco Cordeiro, de resto, desde o início que fez questão de manter a distância e as diferenças face à solução que foi encontrada a nível nacional. O que até pode funcionar como uma ajuda a que as eleições de 16 de outubro lhe deem a oportunidade de se afirmar, de se libertar da tutela de César e renovar a maioria que lhe permita uma continuidade mais autónoma.

Há quatro anos, o PS de Vasco Cordeiro venceu as eleições legislativas regionais com maioria absoluta. Mas mais de metade dos 225.109 eleitores inscritos nos cadernos não foram votar. Dos 107.783 que foram às urnas, 52.793 votaram PS, 35.550 no PS e 117.326 eleitores abstiveram-se. Ainda assim, segundo a generalidade dos dirigentes socialistas, a autonomia está bem de saúde e recomenda-se. “É como na América...”, dizem.