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Pela América, pelo mal menor

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FOTO JUSTIN SULLIVAN/GETTY IMAGES

Em Filadélfia, os democratas tinham três tarefas: convencer o eleitorado de Bernie Sanders a votar numa candidata que desprezam, convencer os 60% de americanos que dizem não confiar em Hillary que estão enganados e convencer todos os restantes que está em causa, com uma vitória de Trump, a própria natureza dos EUA. Só estas três tarefas podem desarmar o voto antiestablishment que Trump e Sanders conseguiram conquistar. Através de quatro políticos lusodescendentes — dois republicanos que não apoiaram Trump e dois democratas que apoiaram Hillary, todos delegados às convenções —, procurei perceber como se torna o ambiente americano mais morno. Uns e outros acreditam na arte de integrar a contestação. E que os seus partidos se unirão em torno do mal menor

Daniel Oliveira

Daniel Oliveira

Viajou para os EUA a convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD)

Num parque de um bairro burguês, relativamente perto do Independence Hall — onde foi declarada a independência dos Estados Unidos —, dois homens de meia-idade, de calções e polo, debaixo das árvores que não aliviam o calor húmido, passeiam os seus pequenos cães. Comentam a convenção democrata. Um deles diz que sempre teve um “fraquinho” por Hillary. “A malta do Bernie anda por aí”, nota o vizinho. “Sim, já os vi”, responde o outro com um ar trocista. “É como se o tempo tivesse andado 40 anos para trás. É muita paz e muito amor. Só gostava que à paz e ao amor juntassem um banho.”

A alguns quilómetros, os apoiantes de Bernie Sanders reúnem-se na Câmara Municipal para uma manifestação que acabará no Wells Fargo Center, onde costumam jogar as principais equipas de hóquei, basquetebol e lacrosse da cidade e onde decorre a convenção democrata. Quem se lembra de atravessar uma cidade, com 35 graus, a meio da tarde, percorrendo quase sete quilómetros a passo lento? Quem se manifesta com pouca regularidade. Mas a manifestação vai crescendo. É evidente — foi evidente durante toda a campanha — a enorme militância dos jovens apoiantes de Bernie. Nas ruas, nos comícios, a registar pessoas para votar, nas redes sociais, na recolha de dinheiro... 2,5 milhões de cidadãos garantiram mais de oito milhões de contribuições, numa média de 27 dólares, como todos eles gostam de repetir para mostrar a diferença em relação a quem depende do financiamento de milionários. A juventude de muitos dos apoiantes ajuda a explicar a frustração e a indignação. O caso dos e-mails divulgados pela WikiLeaks acicatou-lhes ainda mais a revolta.

Numa troca de mensagens entre o staff da convenção democrata, responsável pela organização das primárias, debatiam-se ideias de ataque à campanha de Sanders, usando, entre outras coisas, a sua pouca religiosidade. A revelação pública destes e-mails, além de confirmar a sensação de “jogo sujo” de que se queixam os apoiantes de Bernie, acabou por abrir uma nova frente de confronto entre democratas e republicanos: há forte suspeita do envolvimento dos russos na espionagem aos democratas. E Trump, com a subtileza que lhe é conhecida, veio pedir-lhes para continuarem. Não se percebe se falava com ironia ou a sério, mas a imprensa diz que o apelo terá deixado os serviços secretos em estado de choque.

Apoiantes de Bernie Sanders manifestam-se junto à vedação do Well Fargo Center durante a Convenção do Partido Democrático

Apoiantes de Bernie Sanders manifestam-se junto à vedação do Well Fargo Center durante a Convenção do Partido Democrático

FOTO ANDREW KELLY/REUTERS

Na rua veem-se os cartazes que se esperam numa manifestação de esquerda: pelo ambiente, contra o fracking, contra o tratado comercial transpacífico, contra Wall Street e pela paz. Tudo acompanhado por uma iconografia variada e divertida do velho Bernie Sanders. Um homem que pouco revela da sua vida privada, que só fala de política nos seus discursos longos, bem estruturados mas pouco poéticos, e que propõe a mais tradicional das agendas da esquerda: igualdade na distribuição de rendimentos, direitos laborais, serviço nacional de saúde e ensino universais e gratuitos, impostos sobre a riqueza, regulação da economia e, acima de tudo, da banca. A isto junta a defesa do ambiente e dos direitos das minorias (comum a quase todos os democratas), a mudança das regras de financiamento dos partidos e a oposição a acordos internacionais que minam toda esta agenda política — no que, neste momento, é pelo menos parcialmente acompanhado por todos os candidatos que queiram ganhar as eleições. Com esta agenda, Bernie conquistou mais de 70% dos votos dos jovens nas primárias democratas. O velho tornou-se novo. Uma coisa a reter pela esquerda.

Apoiantes de Bernie Sanders

Apoiantes de Bernie Sanders

FOTO ADREES LATIF/REUTERS

Mas não é só a agenda de Bernie que está presente naquela manifestação. Muitos cartazes são dedicados a Hillary Clinton. Alguns são muito semelhantes aos que vi na convenção republicana, em Cleveland. A mensagem fundamental da manifestação é esta: “Não, não, DNC [convenção democrata], não votaremos Hillary.” Um homem de meia-idade, com rastas, grita-lhes do passeio: “Preferem ter um fascista como Presidente?” Já no fim do caminho, num McDonald’s perto do Wells Fargo Center, a indignação é outra. Sentado num banco corrido, um senhor de origem asiática desabafa com uma senhora de cabelo louro pintado: “Se alguma vez pensei ver comunistas a manifestaram-se nesta rua...”

“Bernie or bust”

Apoiantes de Bernie Sanders manifestam-se durante a Convenção do Partido Democrático em Filadelfia

Apoiantes de Bernie Sanders manifestam-se durante a Convenção do Partido Democrático em Filadelfia

FOTO MARK KAUZLARICH/REUTERS

Na manhã seguinte, num bom hotel do centro da cidade, espera-me um caloroso português. Nasceu na aldeia da Madalena, na ilha do Pico. Veio para os EUA com 14 anos, ainda antes do 25 de Abril. Foi nos EUA que estudou, se fez professor e, ainda na faculdade, se envolveu na política local, já como democrata. Eleito para a Câmara dos Representantes de Massachusetts pelo círculo de New Bedford, onde há uma importante comunidade portuguesa, apoiou, como a maioria das pessoas da sua região, Hillary Clinton em 2008 e em 2016. Os portugueses são moderados e não aderiram a Bernie Sanders.

Cabral, que está em Filadélfia como delegado, acha que um fenómeno como Bernie Sanders seria impossível há dez anos.

Foi a situação económica, os empregos perdidos com acordos como o NAFTA e a grande frustração no país que tornou este movimento possível. Tal como Trump, “Sanders conseguiu tirar partido da raiva dos blue collar”. Mas Tony Cabral faz um balanço positivo da sua participação nas primárias. Trouxe muitos jovens que só ele poderá levar a votar nas eleições e “deu uma oportunidade para os democratas perceberem que é possível conseguir bons resultados sem estar tão ao centro”. A pressão já se sente na plataforma eleitoral negociada com Bernie Sanders: aumento do salário mínimo federal de 7,25 dólares para 15 dólares por hora, universidade gratuita para os mais pobres, novas regras no financiamento da política e uma comissão para negociar a redução do número de superdelegados nas convenções.

Tony Cabral é do mesmo estado de que Elizabeth Warren é senadora. Warren é a heroína do combate à banca, sobretudo no que toca às leis que dificultam a declaração de insolvência. Tornou-se uma das figuras mais respeitadas da ala “liberal” (esquerda) do partido e, no Senado, sempre foi próxima do então independente Bernie Sanders. O seu nome foi várias vezes referido para a vice-presidência como prémio de consolação para os incontornáveis derrotados — que obtiveram 46% dos delegados eleitos. Sanders lamentou publicamente que não tivesse sido ela a escolhida quando foi anunciado o nome do senador Tim Kaine, um centrista que não alarga a influência eleitoral de Hillary. Pesaram outros critérios: Kaine é do swing state da Virgínia, que Hillary tem de vencer, fala espanhol, é católico, e a sua eleição não retira ao partido um lugar no Senado, já que caberá a um governador democrata nomear o seu substituto. “Nestas eleições contam os votos dos estados, e escolher a senadora de Massachusetts não ia mudar nada, é um Estado com vitória garantida”, explica Cabral.

Hillary Clinton coma Senadora Elizabeth Warren durante a Convenção do Partido Demoicrático, em Cincinnati, Ohio

Hillary Clinton coma Senadora Elizabeth Warren durante a Convenção do Partido Demoicrático, em Cincinnati, Ohio

FOTO AARON JOSEFCZYK/ REUTERS

António Cabral diz que grande parte do apoio a Hillary, na sua região, se deve a Bill Clinton: “É muito popular, a economia estava muito bem quando ele foi Presidente.” Como ouvi numa rádio, eram “as férias de Natal depois do fim da Guerra Fria”. A antítese do tempo que vivemos. Hillary entra melhor do que Sanders e Trump no voto negro e hispânico, mas continua a ter imensa dificuldade em conquistar o voto dos homens brancos. O motor da sua campanha foram mesmo as mulheres. Mas Hillary apenas conquistou o voto das mulheres de meia-idade e mais velhas. As jovens parecem considerar que a futura eleição de uma mulher para Presidente é uma inevitabilidade. A idade pesou mais do que o género e votaram em Bernie.

Amanda, 30 anos, professora numa escola pública, democrata desde sempre, é uma delas. No fim da tal manifestação, já na porta de acesso dos delegados à convenção, no Parque Franklin Delano Roosevelt, explica-me que não foram os e-mails dos responsáveis pelas primárias que a fizeram pensar que a estrutura do partido faria tudo para dar a vitória a Hillary Clinton: “Bernie nunca teve qualquer hipótese, este sistema é todo absurdo.” Não sabe se vai votar Hillary, que apoiou as charters schools (semelhante às escolas com contratos de associação). Discorda dos que acham que Hillary não tem capacidades para ser Presidente. O problema é estar “presa a todos os interesses e corporações”. E sente que ela muda de posição ao sabor das suas conveniências. Mas acha que grande parte dos que ali se estão a manifestar, ela incluída, acabarão por votar contra Trump. E espera, com ansiedade, pelo discurso de Bernie Sanders aos delegados nessa noite, daí a poucas horas.

Quando sobe ao palco, Sanders recebe uma das maiores e mais longas ovações da convenção. Ao contrário do que é habitual, os seus delegados não se converteram à estética do vencedor. Não participam no espetáculo geral. Aquela não é a sua festa. Como sempre, Bernie Sanders faz um discurso totalmente político. É dos poucos que não fala dele, da sua família, de episódios pessoais. Essa foi a sua primeira revolução: mostrar que, quando as pessoas acreditam no candidato e na sua agenda, não é preciso forjar intimidade para conquistar os eleitores. Desengonçado, com roupa que lhe cai mal, despenteado, Sanders fez do seu anacronismo estético uma vantagem eleitoral. Uma vantagem valiosa no confronto com Hillary: as pessoas acham que ele é, ao contrário dela, genuíno.

Por razões diferentes, acontece o mesmo com Trump. Como sempre, Sanders foi ali para falar da sua agenda. Declara que Hillary “compreende” as suas causas, sem nunca afirmar que as defende. Depois de um equilíbrio instável, para continuar a liderar um movimento que não se quer “vender” à “oligarquia” (são as expressões que se veem em muitos cartazes), Sanders diz o que tinha de dizer: “Hillary Clinton dará uma extraordinária Presidente, e eu tenho orgulho em apoiá-la aqui esta noite.” Mas, acima de tudo, ergue o seu troféu: “Toda a gente sabe que eu e Hillary Clinton discordamos em vários assuntos. Foi sobre isso que foi esta campanha, isso é a democracia. Mas tenho a satisfação de vos dizer que houve uma convergência significativa entre as duas candidaturas e produzimos, de longe, o programa mais progressista da história do Partido Democrata.”

Hillary Clinton e Bernie Sanders, candidatos presidenciais juntos na campanha em Portsmouth

Hillary Clinton e Bernie Sanders, candidatos presidenciais juntos na campanha em Portsmouth

FOTO BRIAN SNYDER/REUTERS

Alguns dos seus delegados choram. Pela emoção de estarem a ouvir um velho de 74 anos que, para muitos jovens americanos, se tornou um ícone político e pela frustração de se verem obrigados a baixar os braços. Sanders deixa bem claro que o seu movimento apenas começou. Toda a gente sabe que os liberais do partido ganharam um peso político que não tinham desde Roosevelt e que o tencionam replicar em várias eleições. Um artigo da “New Yorker” do mês passado resume bem a conquista de Sanders: “Especialmente nos últimos meses, Clinton mudou de posição em muitas áreas. A sua evolução não pode ser apenas atribuída a Sanders. Em última análise, reflete a mudança de sentimentos no Partido Democrata e em toda a sociedade perante o aumento da desigualdade, as expectativas goradas e a crise financeira de 2008 e 2009. Mas Sanders merece crédito por ter reconhecido esta mudança histórica, reforçando-a, e por ter apontado para uma direção que seria imprevisível há um ano. Ele pode ter perdido a nomeação democrata, mas só uma total falta de senso pode considerar a sua campanha um falhanço.” Os organizadores da campanha “Bernie or Bust” (“Ou Bernie ou Que Se Lixe”) acham que conseguiu pouco. Mas, segundo as sondagens, 85% dos que votaram em Sanders dizem que vão votar em Hillary. Mais do que os votantes de Hillary que, em 2008, votaram em Obama. O problema é o voto que Sanders poderia disputar a Trump. O problema é o voto contra o establishment que Hillary representa na perfeição.

No mesmo hotel em que me encontrei com Tony Cabral converso com Marc Pacheco, que também faz parte da delegação de Massachusetts à convenção. É presidente interino do Senado do seu estado. Uma parte da sua família mais próxima veio de Castanheira de Pera, outra, mais distante, dos Açores. Ao contrário de Tony Cabral, não fala português. Explica-me porque é que o enorme incómodo dos delegados e apoiantes de Sanders não se traduz numa debandada: “Donald Trump é o grande unificador do Partido Democrata.” Afirma que já perdeu eleições e que compreende o sentimento de frustração. “Mas se Sanders, que anda há 30 anos a bater-se por estes temas, aceita estes resultados e pensa no futuro do país antes de pensar em si, isso é capaz de ser uma boa direção para os seus apoiantes. Se se preocupam realmente com a desigualdade e a proteção dos direitos civis, sabem que todos esses assuntos acabam por passar pelo Supremo. É melhor ultrapassarem o mal-estar e garantirem que quem é eleito nomeia os juízes que se preocupam com esses assuntos.”

Hillary Clinton conversa com o Senador de Massachusetts, Marc Pacheco

Hillary Clinton conversa com o Senador de Massachusetts, Marc Pacheco

FOTO LISA HORNAK/REUTERS

Marc diz que Bernie pensa a longo prazo. Sabe que ganhou uma nova importância no partido e no Senado. Terá muito mais influência na Casa Branca e pode começar a lutar pela eleição de congressistas e senadores. Como fez o Tea Party, no Partido Republicano? “Não, o que ele defende faz parte da tradição do Partido Democrata. Basta recordar Roosevelt.” Mostrando que as coisas não são assim tão diferentes, Marc Pacheco entra num debate que é conhecido da esquerda portuguesa: “Não chega ter capacidades oratórias para defender determinadas políticas, é preciso ter capacidades políticas para as implementar. Muitas vezes, Bernie Sanders acha que se não tem o perfeito o bom não chega. E por isso muitos colegas dele do Congresso e do Senado, onde esteve 30 anos, não o apoiaram. Não é um negociador. Hillary consegue negociar com republicanos, que só a odeiam quando ela concorre a eleições.”

Mas sejamos justos e reconheçamos que Bernie fez concessões. Concorrendo dentro do Partido Democrata, o que trouxe milhares de jovens para o partido, e negociando um apoio a Hillary, exatamente por reconhecer a tragédia que seria a eleição de Trump. Ralph Nader, candidato dos Verdes em 2000, ignorou a especificidade do sistema eleitoral americano e não fez nem uma coisa nem outra, o que custou a vitória de Bush e uma travessia no deserto para as forças mais à esquerda a que só Sanders pôs fim.

A shining city on a hill

Na convenção, há três frentes de combate: convencer quem apoia Sanders, quem não confia em Hillary e quem costuma votar em republicanos. Para os primeiros, fez-se um programa; para os segundos, refez-se a imagem da candidata; para os terceiros, explicou-se que esta era uma eleição de natureza diferente.

Todos os oradores mais relevantes — Tim Kaine, Barack Obama e a própria Hillary Clinton — dedicaram bastante tempo aos eleitores de Sanders. Kaine chegou mesmo a dizer: “I feel the Bern.” Obama apontou os apoiantes de Sanders como um exemplo para os democratas: “Se acham que há demasiada desigualdade na nossa economia e demasiado dinheiro na nossa política, temos todos de ser tão ruidosos, organizados e persistentes como os apoiantes de Bernie Sanders.” E Hillary falou de todos os assuntos em que Bernie conseguiu, pelo menos no programa, impor a sua agenda: limites a Wall Street, aumento de impostos para os mais ricos e grandes empresas (“follow the money”, disse a nova esquerdista), universidade gratuita para os mais pobres e mais apoios públicos para os estudantes de classe média, aumento do salário mínimo, expansão dos apoios na saúde e na segurança social, renegociação do acordo comercial com a Ásia (TPP) e mudança das regras no financiamento às campanhas. “Ouvi-vos, e a vossa causa é a nossa causa”, disse antes de fazer o derradeiro apelo: “Escrevemos esta plataforma juntos, vamos aplicá-la juntos.”

Hillary Clinton e Tim Kaine durante a campanha presidencial em Columbus, Ohio

Hillary Clinton e Tim Kaine durante a campanha presidencial em Columbus, Ohio

FOTO AARON P. BERNSTEIN/ REUTERS

Mas é mais fácil escrever um programa do que mudar a perceção que as pessoas têm de alguém. E para a qual ajudará esta capacidade que Hillary Clinton tem de se transfigurar politicamente. Os estudos de opinião dizem que mais de 60% dos norte-americanos não confiam em Hillary. Esteve duas décadas a ser observada e não há pecado que não se lhe conheça. Toda a convenção foi montada para criar um laço emocional entre ela e os americanos. Bill Clinton foi ao limite, contando aos delegados e ao país a história de amor entre os dois (teve de saltar alguns episódios mais conhecidos), numa intervenção que, apesar de eficaz, deixou incomodadas algumas feministas. A filha Chelsea continuou o mesmo retrato: a mulher lutadora e a mãe sempre presente. O tema que a apaixona, disseram quase todos os oradores, são as crianças. Tem um passado nessa área — antes de ter responsabilidades políticas era à luta pelos direitos das crianças que se dedicava — e consegue combinar a sua imagem de lutadora com um perfil mais afetivo e ao gosto dos conservadores de mãe empenhada.

Depois foi a terceira tarefa, que deu à convenção os seus melhores momentos: sublinhar a inadequação de Trump para o lugar a que se candidata, apelando ao voto útil. Primeiro, desmontando a imagem do milionário de sucesso (sempre popular nos EUA) e transformando-a na história de um herdeiro incompetente e aldrabão. Tim Kaine, Joe Biden, Barack Obama e, o mais eficaz de todos, Michael Bloomberg (muitíssimo mais rico do que Trump) concentraram-se num passado de falências e calotes a fornecedores, trabalhadores e estudantes. A verdade é esta: a elite económica dos Estados Unidos despreza Trump e a sua fanfarronice, teme a sua imprevisibilidade e sente-se muitíssimo mais segura com Hillary Clinton. “Não podemos confiar armas nucleares a um homem que não se aguenta com um tweet”, disse a candidata. Enquanto Trump era apenas um fenómeno de entretenimento, tratava-se de mau gosto. Agora, ele é mesmo perigoso. É óbvio, mas não resultou até agora.
Por fim, o apelo aos valores americanos e democráticos. Provavelmente não fará o eleitorado de Trump mudar de opinião, mas pode mobilizar os restantes a ir votar. E, quando toca a traduzir o espírito americano, ninguém bate a retórica de Barack Obama.

FOTO BRIAN SNYDER/REUTERS

Aqui vai um excerto grande de um discurso que deveria ficar na história: “Ronald Reagan chamou à América uma cidade luminosa construída sobre um monte. Donald chama-lhe a cena de um crime que só ele conseguirá resolver. [...] Acha que se assustar pessoas suficientes talvez consiga os votos para ganhar as eleições. E é por isso que Donald Trump as vai perder. Porque oferece pouco aos americanos. Nós não somos um povo frágil. Nós não somos um povo medroso. O nosso poder não vem de autoproclamados salvadores prometendo restaurar a ordem desde que façamos as coisas à sua maneira.

Não queremos ser dirigidos. O nosso poder vem daquelas imortais declarações postas no papel aqui em Filadélfia há tantos anos: ‘Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais’, que ‘nós, o Povo’, conseguimos formar ‘uma União mais perfeita’. É isto que nós somos. Com a capacidade de decidir o nosso próprio destino. E foi isso que levou os patriotas a escolher a revolução contra a tirania. Foi isso que deu às mulheres a coragem para se baterem pelo seu voto, aos manifestantes para atravessarem a ponte de Selma e aos trabalhadores para se organizarem e lutarem pela negociação coletiva e melhores salários. A América nunca foi sobre o que uma pessoa diz que pode fazer por nós, é sobre o que pode ser conseguido por nós.

Através do difícil, longo e por vezes frustrante trabalho de autogoverno.” E ficou a garantia: “Quem ameaça os nossos valores, sejam fascistas, comunistas, jiadistas ou demagogos, perde sempre no fim.” Transformar Trump num antiamericano é, provavelmente, a única arma que sobra contra Trump.

A grande tenda

Confesso que esperava encontrar esta sensação de urgência em Cleveland. Não foi o caso. Sim, todos reconhecem que este é um candidato completamente diferente. Mas grande parte dos que não o apoiaram parece fazer um esforço para manter o partido unido e tratar este pesadelo como se fosse uma coisa normal. Rosa Rebimbas está longe das alas mais radicais do partido. Não se interessa especialmente pelos temas dos costumes e a sua aproximação aos republicanos fez-se mais por ser uma liberal na economia. Rosa é filha de portugueses da Murtosa e de Salreu, perto de Estarreja. Nasceu nos Estados Unidos mas fala bem português e mantém uma forte relação com a comunidade portuguesa de Naugatuck (círculo pelo qual foi eleita para a Câmara dos Representantes de Connecticut) e Waterbury.

Não dá qualquer sinal de ter votado em Trump, mas não desfaz o jogo. Como foi à convenção republicana como delegada alternativa, não representa nenhum candidato. E é como gosta de estar, “de mente aberta”. O seu estado votou Trump, e ela desdramatiza: “Ele é sobretudo politicamente incorreto e está a transformar a forma de fazer campanhas. É um movimento que tem em conta a opinião das pessoas comuns. O Partido Republicano é uma grande tenda onde cabe gente muito diferente.” Casada com um latino, Rosa Rebimbas diz que não quer uma pessoa falsa como Presidente e gosta que Trump diga o que pensa. “Claro que há coisas que não gostei de ouvir e há outras formas de falar.” Sente-se confortável com um candidato como Trump? “Sinto-me confortável com as opiniões que partilho com ele — segurança e emprego, por exemplo. É possível que ele e Hillary não tenham sido os melhores candidatos para cada partido. Mas estou muito mais confortável tendo Trump como candidato do que se tivesse Hillary como candidata.” Num e no outro lado une-se o partido pelo mal menor.

Hillary Clinton mostra uma gravata parecida às usadas por Donald Trump

Hillary Clinton mostra uma gravata parecida às usadas por Donald Trump

FOTO RICK WILKING/REUTERS

Uns dias depois da conversa com Rosa Rebimbas, já perto da minha partida para Filadélfia, tinha um encontro marcado com Devin Nunes, um dos mais importantes lusodescendentes nos Estados Unidos. É congressista e, com apenas 42 anos, preside ao poderoso Comité de Informação da Câmara dos Representantes. O encontro era num restaurante em frente à entrada para a convenção republicana, no centro de Cleveland.

Quando estava a chegar, um pequeno grupo conseguiu aproximar-se da barreira e queimou uma bandeira norte-americana. Li, mais tarde, que eram membros do Partido Comunista Revolucionário, que foram detidos e soltos no dia seguinte. Eu é que fiquei numa situação difícil. Entre mim e o restaurante onde me ia encontrar com o congressista formou-se um cordão de polícias que não cedeu à exibição da carteira de jornalista. Acabou por ser o assessor de Devin Nunes a vir resgatar-me.

Nascido em Tulare, Califórnia, Devin é descendente de agricultores de origem açoriana. Ao contrário de Rosa Rebimbas, é um verdadeiro conservador. Aproximou-se dos republicanos em oposição à regulamentação ambiental “radical”, de que a Califórnia foi pioneira e que, segundo ele, sufocava os agricultores. Explica que, tendo em conta o lugar que ocupa — que lhe dá acesso a segredos de Estado a que o candidato nomeado também poderá aceder —, considerou que devia manter uma posição de neutralidade nas primárias e não apoiou ninguém. Agora está com o escolhido. Desdramatiza as preocupações europeias com Trump, que compara ao fenómeno de Schwarzenegger. Alguém que venceu eleições por ser famoso, provocou grande burburinho e acabou a governar o estado da Califórnia em permanente negociação com os democratas.

Estando com Devin Nunes, é de segurança e relações externas que quero falar. A suposta impreparação de Trump não parece preocupá-lo: “Até agora, ele era um candidato entre 17. Agora é o candidato do Partido Republicano. Formará a sua equipa com pessoas preparadas. As pessoas gostam de estar com quem ganhou.” Exemplo disso mesmo é o apoio empenhado a Trump de Michael Flynn, o antigo diretor da Defense Intelligence Agency (DIA), nomeado e afastado por Barack Obama. O seu discurso no Quicken Loans Arena correspondeu ao tom dos tempos de George Bush e foi arrasador para a estratégia da administração Obama no Médio Oriente. Em entrevista à Fox News, o general mostrou disponibilidade para participar numa administração de Trump. Devin Nunes faz questão de me sublinhar a aproximação de Flynn ao candidato nomeado e o facto de ser um militar muitíssimo informado e preparado para o combate ao Estado Islâmico. Como nos tempos de Bush, a luta contra o terrorismo será o centro da política externa norte-americana. Tudo vai regressar ao normal, é a mensagem de Devin.

FOTO STEVE MARCUS/REUTERS

Mas não está a ser fácil acreditar no regresso à normalidade. É possível relativizar o psicodrama democrata, como fazem Tony Cabral e Marc Pacheco? Apesar de haver milhões de eleitores de Bernie Sanders para convencer, os protestos dos seus apoiantes já eram residuais no fim da convenção. Mais difícil vai ser transformar o cansaço no sistema em votos naquela que mais perfeitamente o representa. É possível acreditar que um milionário de temperamento explosivo, pelo qual nenhum ex-Presidente deu a cara, é um mal menor ou pode ser integrado na normalidade republicana, como acreditam Rosa Rebimbas e Devin Nunes? A campanha o dirá, mas os primeiros sinais pós-convenções não são animadores. No fundo, tudo se resume à pergunta que ouvi de Richard, um reformado de 73 anos da Carolina do Norte que conheci no aeroporto de Filadélfia: “Como é que um país com mais de 300 milhões de pessoas conseguiu escolher duas de que ninguém gosta?”

  • Chegou o futuro infeliz

    A resistência de muitos republicanos a Trump não é ideológica. É por ser um outsider. Ele apanhou os republicanos perdidos numa deriva identitária e direcionou-os para um populismo pragmático: nacionalista, securitário, anti-imigração e protecionista. Um populismo que entra mais no eleitorado democrata e independente do que o fanatismo conservador e religioso que hoje domina o seu partido, representado pelo vice que escolheu para compensar a sua moderação em matéria de costumes. Trump não radicalizou os republicanos, escolheu um radicalismo diferente. Deu voz a um país frustrado com a política, paralisado em Washington e dividido pelo ódio. E Hillary é, por tudo o que representa, a adversária ideal. Antes de partir para Filadélfia estive em Cleveland, durante a convenção republicana. Assustei-me. Mas recordo que isto não começou agora. Vou longe, ao final dos anos 60