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Passos não muda registo e insiste no discurso negro

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João Relvas / Lusa

Críticas ao líder do PSD ignoradas: estilo é para manter, apontando os erros do Governo

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Pedro Passos Coelho assinala amanhã a rentrée política do PSD, no tradicional comício de agosto no Algarve. O palco há muito que não é o Pontal, é o Calçadão de Quarteira, mas o discurso, esse, não muda mesmo: Passos deverá voltar de férias com a mesma agenda e o mesmo registo que marcou os seus discursos antes de ir a banhos — muito focado na economia e na previsão do desastre que resultará das políticas do Governo de António Costa.

Os dados do INE, ontem, sobre o crescimento do segundo trimestre (apenas 0,8%, com exportações e investimento em queda, e a procura interna a não puxar pela economia como o Governo supunha), darão novo fôlego ao discurso pessimista de Passos Coelho — ou “realista”, na avaliação do próprio, que diz não ter razões para mudar a sua mensagem para o país. Antes das férias, o ex-primeiro-ministro disse aos seus deputados que gozassem bem as férias porque “em setembro vem aí o diabo” e nada o demove dessa previsão. “Não vejo nenhuma razão para transmitir às pessoas uma falsa sensação de otimismo”, tem dito Passos em círculo restrito. O INE veio reforçar essa convicção.

Porém, a atitude de Passos começa a merecer-lhe cada vez mais críticas, tanto dentro do PSD como de gente próxima do partido, preocupada com a queda, suave mas constante, dos sociais-democratas nas sondagens, ao contrário do reforço do apoio ao PS. Há sinais de nervosismo que começam em candidatos às autárquicas, preocupados por não haver uma onda nacional que possa ajudar os combates locais do partido, e contaminam o grupo parlamentar, onde vai sendo notório algum cansaço em relação a Passos. Comentários quase sempre feitos em privado, porque o tempo do tiro ao líder ainda não chegou, e que um alto dirigente do partido desvaloriza: “Não nos devemos deixar impressionar. São os mesmos que diziam que não ganhávamos, que estava tudo perdido, e afinal ganhámos.”

A voz mais sonora a criticar o estilo pessimista de Passos foi o antigo líder do PSD Luís Marques Mendes. Na SIC, há duas semanas, sugeriu que “a oposição devia aproveitar [o verão] para descansar um bocadinho e esfriar a cabeça”. “Muito em particular o PSD”, pormenorizou Mendes, notando que o maior partido da oposição “especializou-se em ser uma espécie de mensageiros da desgraça: vêm aí sanções!, vem aí o diabo!, não vamos cumprir o défice! Isto não é um bom caminho. Dá uma imagem de que só lhes interessam as coisas más, que só são portadores de más notícias. Ao contrário, deviam ter uma ideia de esperança e não uma ideia negativa”.

Passos desvaloriza estas críticas. “O país pode não gostar de ouvir, mas o problema não é meu, é do país”, tem dito o social-democrata, segundo apurou o Expresso.

Não será, por isso, no comício deste fim de semana que o guião de Passos se irá desviar do “diabo” que aí vem. O fantasma das sanções não se concretizou, mas o PSD não tem dúvidas de que o fraco crescimento da economia, o baixo nível do investimento (com consequências no emprego), aliado às novas metas europeias, mais exigentes, e à fragilidade da banca acabará por ter consequências. Sem esquecer o aumento da despesa (da reposição de salários às 35 horas) e a perda de receita (do IVA da restauração ao débil crescimento da economia). Ontem, Maria Luís Albuquerque lembrou que “quando a economia deixa de crescer se segue a austeridade”. “Infelizmente tínhamos razão”, concluiu a ex-ministra e vice-presidente do PSD. E quem “tem razão” não muda, não é?