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Marcelo trocado por números

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Fizemos as contas aos 150 dias de mandato do Presidente da República. Comece por este número: 54.887 notícias

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

texto

Jornalista da secção Política

Ana Serra

Ana Serra

infografia (com ilustração de Xolitos)

Marcelo, Marcelo, Marcelo... Marcelo vetou, Marcelo promulgou, Marcelo falou, Marcelo foi ver a bola, Marcelo entregou a taça, Marcelo recebeu em audiência, Marcelo condecorou. Desde que tomou posse, e até ao dia 4 de agosto (últimos dados disponíveis), Marcelo Rebelo de Sousa foi objeto de quase 55 mil notícias nos media portugueses. Sim, é muito Marcelo. Nas televisões, foram 18.839, num total de 1504 (!) horas de emissão; nas rádios, 3613 notícias, 259 horas e 37 minutos em antena; nos jornais saíram 8656 notícias e na internet foram 23.769. A comparação com Cavaco é reveladora: no mesmo período do seu segundo mandato, houve “apenas” 37.807 notícias sobre o anterior Presidente — não havia o efeito novidade, dir-se-á, e com razão; mas a comparação com o primeiro mandato seria ainda mais distorcida, pois há dez anos não tínhamos tantos canais televisivos e sites de informação. Só no dia da posse, Marcelo mereceu 1632 notícia nos meios de comunicação social portugueses, de acordo com dados da Cision. Mesmo passada esta febre inicial, houve dias em que ultrapassou as 800 notícias — a 8 de junho, a seguir a vetar as barrigas de aluguer e a promulgar a lei das 35 horas, houve 882 notícias sobre o Presidente.

Quando se prepara para ir a banhos para o Algarve, o Expresso trocou por números os primeiros 150 dias do PR. Como é natural, andou muito no eixo Cascais-Belém-Lisboa, mas também galgou quilómetros pelos caminhos de Portugal: visitou 53 locais diferentes, e vários por mais do que uma vez (já esteve seis vezes no Porto). São contas por baixo, note-se: andámos a folhear jornais e cruzámos as notícias com os dados do site da Presidência, que são bastante completos mas não incluem toda a atividade do chefe do Estado. Marcelo também faz deslocações a título pessoal e recebe em Belém mais gente do que a que consta da agenda oficial. Mesmo por defeito, os números são gordos. Para cima de 13 mil quilómetros percorridos pelo país (e só contabilizámos deslocações para fora da Grande Lisboa), 121 audiências em Belém, 35 mil milhas voadas nas ainda poucas deslocações ao estrangeiro — e apenas uma com relevância de “visita de Estado”, a Moçambique.

Nem vale a pena contabilizar quantas vezes falou ao longo destes dias — entre discursos formais, aberturas de congressos disto, encerramentos de conferências daquilo, homenagens assim e cerimónias assado e declarações soltas à comunicação social, é mais simples fazer a conta às vezes em que Marcelo não falou: só em 27 dias não teve agenda pública, o que significa que só não foi notícia em 18% dos dias.

Os vetos deram que falar, mas foram poucos: tudo o que chegou do Governo teve luz verde de Belém e apenas dois diplomas da Assembleia foram chumbados. Apenas? Sim, mas... Os três antecessores de Marcelo (Soares, Sampaio e Cavaco), durante os dez anos de mandato, vetaram apenas dois diplomas da AR cada um — ou seja, neste caso o atual Presidente já apanhou os predecessores. Tudo é relativo.

Até as condecorações: desde que todos os elementos da seleção nacional de futebol foram medalhados, na qualidade de campeões europeus, foi como se Marcelo abrisse a caixa de Pandora — seguiram-se as comendas para os campeões europeus de hóquei em patins e os oito medalhados nos europeus de atletismo. Tudo contribuiu para a ideia de que o PR se transformou numa máquina de condecorar. E agora há os Jogos Olímpicos... Mas a verdade é que até tem sido parcimonioso com as condecorações, como se viu no 10 de Junho. E a regra de condecorar os desportistas com medalha de ouro, de facto, só começou com Cristiano Ronaldo & Cia, apesar de Marcelo jurar que todos os campeões “são de primeira”. A prova? A seleção de sub-17 em futebol, depois de vencer o Europeu, foi recebida em Belém mas só levou um passou-bem.

Nada que afete a popularidade do inquilino de Belém (ver pág. 16). Não será por acaso que tanta gente escreve ao Presidente: quase cinco mil cidadãos enviaram-lhe um e-mail nestes pouco mais de cinco meses, através do site da Presidência (no mesmo período, no final do seu mandato, Cavaco recebeu 1334).

Último número de um texto sobre números: 14. É a quantidade de dias que Marcelo estará de férias, entre 11 e 24 de agosto. Duas semanas fora das notícias. Será?