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Não há “season” tão “silly” como esta

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Alberto João Jardim no Chão da Lagoa. Não havia verão sem polémica instantânea sempre que o líder madeirense discursava

Octávio Passos

Não há verão que se preze sem uma boa controvérsia política. O Parlamento pode estar encerrado, a oposição a banhos e os ministros no estrangeiro, mas há sempre uma polémica escondida que vê a luz do dia quando nada o fazia prever (e pouco mais há a noticiar). Eis um “refresh” do que de mais “silly” aconteceu nos últimos verões. Para nosso contentamento

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O Parlamento fecha, os deputados saem de circulação, os porta-vozes dos partidos espaçam as conferências de imprensa e até o primeiro-ministro troca o fato e a gravata por uns calções de banho. Mas se há quem não tire férias é a curiosidade jornalística. E a falta de notícias, em bom rigor, acaba por ser o melhor dos incentivos para ir à procura delas onde não se imaginava que existiam.

Daí que seja raro o verão sem uma polémica política. Pode ser mais fútil (os seguranças que fecham os acessos à praia de Albufeira onde o Presidente da República gosta de ir com a família) ou mais séria (os secretários de Estado que vão assistir aos jogos do Euro a convite da Galp), mas tão certo como os vendedores de bolas de Berlim numa praia algarvia em agosto, a controvérsia acaba por aparecer. À boleia da Galp ou “patrocinada” pela criatividade (não confundir com eficácia comunicacional) de quem se deixa ficar em funções mesmo quando o calor aperta. Não se lembra? Ora aqui fica um “refresh”:

Desemprego é fingimento

DR

Foi o grande tema do verão passado. Já com as legislativas de outubro no horizonte, o PS tentava recuperar na opinião pública os votos que as sondagens teimavam em não lhe dar por garantidos. E lançou uma campanha de outdoors com o desemprego por tema. Maria João, um dos rostos da campanha, não gostou.

E, fez ontem exatamente um ano, veio para os jornais pôr os pontos nos ii: “A história não é minha. Aquela afirmação é falsa”, disse a propósito da sua fotografia aparecer nos cartazes associada à frase “estou desempregada desde 2012”. Pior: a funcionária da junta de freguesia de Arroios (do PS) garantia que não tinha autorizado a que a sua foto aparecesse nos outdoors e admitia processar o partido por uso indevido de imagem. E havia pelo menos mais dois casos idênticos.

O PS começou por se defender: reconheceu que os rostos eram de figurantes contratados, mas jurava a pés juntos que as histórias eram relativas a casos reais. A controvérsia fica encerrada quando ainda não tinham decorrido 48h sobre a primeira notícia: Ascenso Simões, o diretor de campanha de António Costa, pede a demissão do cargo. “Quem é responsável por uma máquina deve assumir todas as falhas que ela demonstra, deve tirar ilações de tudo o que, publicamente, se reconhece como erro”, explicou.


Foi você que pediu um briefing?

Alberto Frias

A ideia surgiu em pleno verão de 2013. E, na verdade, morreu quase à nascença. O Governo de Passos Coelho queria melhorar a sua política de comunicação e lançou o secretário de Estado Adjunto, Pedro Lomba, para o terreno. Diariamente, o governante devia traduzir aos jornalistas o que se preparava nos bastidores do poder, explicar as medidas mais complexas, preparar terreno para o período pós-troika.

A coisa, na verdade, correu mal desde o início. Primeiro, foram as dúvidas sobre o que era “on” e o que era “off the record”, ou seja quais as palavras do secretário de Estado que poderiam ser citadas pelos jornalistas que eram convidados a comparecer aos encontros. Quase ninguém percebeu e o briefing tornou-se ele próprio o principal centro das notícias.

Depois, foram os adiamentos dos ditos encontros com os media. De diários, passaram a quinzenais e com direito a cancelamentos inesperados. Mas, o pior, foram mesmo as notícias que escapavam ciclicamente ao olhar do secretário de Estado. No dia da demissão de Vítor Gaspar, o briefing decorreu sem uma palavra sobre a matéria. Os jornalistas voltaram às redações sem nenhuma ideia da crise política que ali começava e que tinha ficado à margem da agenda de Pedro Lomba.

A gota de água surgiu a 2 de agosto de 2013. Com o escândalo das swaps a tocar o secretário de Estado do Tesouro, Pais Jorge, e a chamuscar a reputação da nova ministra das Finanças, Lomba teve a ideia luminosa de levar o governante a explicar-se diretamente aos jornalistas. Foi o último briefing da era Passos Coelho. Pais Jorge atrapalhou-se em direto, deu explicações confusas, enterrou-se politicamente.

De férias, o primeiro-ministro deu ordem para acabar de vez com a modernice que deveria salvar a comunicação do Governo e, na prática, tornou a emenda pior do que o soneto. Lomba cancelou o encontro com os jornalistas e adiou-o sine die. Ao Expresso confessou, mais tarde, que a ideia teve “um impacto anormal” e que nunca contara “com uma crise de cada vez que havia um briefing”. Prometeu, na altura, escrever sobre essa “experiência”. Até hoje.

As férias no Quénia enquanto o país ardia

Tiago Miranda

Fazia calor. Muito calor. Até hoje, 2005 registou o verão mais quente de sempre nos registos meteorológicos portugueses. José Sócrates era primeiro-ministro há meia dúzia de meses e tinha ido de férias para o Quénia, cumprindo uma promessa que fizera aos filhos antes mesmo das legislativas. António Costa, número dois do Governo, ficara a substituí-lo. E como era o ministro da Administração Interna e o país se consumia em chamas não saía dos ecrãs de televisão nem das páginas dos jornais.

A situação era dramática, punha-se a hipótese de decretar calamidade pública em alguns distritos. Mas era da ausência de Sócrates e das suas “férias milionárias” que todos falavam. Consta que o então PM até se predispôs a interromper as férias e que foi Costa – fazendo orelhas moucas à má língua – que lhe disse que se deixasse ficar. Quando Sócrates finalmente voltou do safari, os fogos no país já estavam em fase de rescaldo mas as críticas a Sócrates, a bem dizer, ainda só estavam a começar.

Numa atitude que hoje percebemos não ser defeito mas feitio, Sócrates queixou-se dos que o condenaram, chamou-lhes “injustos, demagogos e mesquinhos”. Costa, pelo contrário, caiu de vez nas suas boas graças, e o PM fez questão de lhe prestar uma “homenagem merecida”. Quão longe vão esses dias.

Allgarve by Pinho

João Carlos Santos

Em 2007, o dinâmico ministro da Economia de José Sócrates (que acabaria por se demitir, depois de ter mimado “corninhos” a partir da bancada do Governo para o deputado do BE Francisco Louçã) teve a ideia de dinamizar o turismo algarvio. Ainda mais? Claro. Havia que dar “vida para além da praia” e mostrar aos visitantes estrangeiros que havia programas culturais no Sul de Portugal que iam muito para além de dormir no areal ou de mergulhar no mar.

“Allgarve, experiências que marcam”. Foi este o lema de uma iniciativa que representou um investimento de 6 milhões de euros, metade dos quais deveriam ser encaminhados para a produção de concertos, espetáculos e desfiles de moda. Para a história, fica a imagem do ministro todo sorridente ao lado do super-atleta Michael Phelps numa piscina de um dos hotéis de luxo no Algarve. Pinho levou o Allgarve até ao topo das Olimpíadas, mas isso não bastou. Os operadores turísticos não viram nenhuma vantagem num programa que, diziam, “nasceu torto, nunca se endireitou e morreu sem glória”.

Coube ao Governo seguinte acabar com a nova estratégia de promoção do país. Depois de um estudo da Universidade do Algarve concluir que 86% dos turistas que visitaram a região nem se aperceberam que existia um programa cultural em curso, acabaram-se de uma vez as verbas. E sem elas o Allgarve perdeu uma consoante e voltou a ser o que sempre foi.

Vai estudar, Ó Relvas!

Rafael Marchante / Reuters

O caso começou nos primeiros dias do calendário de verão de 2013, mas durou a estação inteirinha. Miguel Relvas, o número dois do Governo de Passos Coelho, foi apanhado com uma licenciatura feita à pressa e sem brilho, na Universidade Lusófona. As equivalências que o tornaram em tempo recorde licenciado em Relações Internacionais foram concedidas a partir de artigos de jornal ou da mera participação em associações desportivas ou beneméritas. Os professores responsáveis pelas cadeiras que, supostamente, deveria ter feito, garantiam que nunca o viram nas aulas, nem tão pouco o tinham avaliado.

O país inteiro passou as férias a comentar o assunto, que se tornou rapidamente parte do anedotário nacional. Ao longo de meses, o ministro sobreviveu aos cartazes que o perseguiam em cada visita que fazia e às vaias que começaram a fazer parte das suas receções oficiais. Mas o caso galgou fronteiras. “Vai estudar, Ó Relvas!” chegou à Volta a França e até ao Brasil. Um grupo de portugueses decidiu organizar, em pleno Rio de Janeiro, uma homenagem ao ainda ministro. E nem aí Relvas se escapou de ouvir apelos à continuação dos seus estudos académicos. “Nem aqui te dão o diploma, pá”, gritavam os manifestantes que, à porta, estragaram a cerimónia.

Em abril, por "falta de condições anímicas", o ministro acabou por se demitir. Ainda tinha o diploma. Mas também isso por pouco mais tempo.

Uma tourada

Foi, durante anos, um clássico da “silly season”. Em agosto, Barrancos e touros de morte eram sinónimo de sarilho político. O caso tornou-se bicudo em 1998 quando um tribunal deu razão a uma providência cautelar que visava impedir a morte do touro na arena, durante as festas da vila alentejana. Competia à GNR fazer cumprir a lei que proibia a morte do touro, e, na polémica que depressa se instalou, competia ao Governo dar ordens nesse sentido à GNR. Ora, o Governo fez o contrário disso. Jorge Coelho era o ministro da Administração Interna, Armando Vara era o ser secretário de Estado e ambos acharam que tinham encontrado um ovo de Colombo: mandaram a Guarda em peso para Barrancos, não para travar a morte do touro, mas para identificar os matadores depois do ato consumado.

O povo, que sabe muito, rodeou os matadores, todos espanhóis, impedindo a GNR de chegar a eles – consta que os agentes também não se esforçaram muito. Os toureiros voltaram são e salvos a Espanha e o Governo explicou a lógica da coisa: se houvesse uma intervenção da GNR, desencadearia confrontos com a população e tudo seria mais grave.

Tratava-se de não causar um mal maior (uma carga policial) para evitar um mal menor (a morte do touro) – explicação dada por Coelho nesse ano, e no ano seguinte, que ainda por cima era ano de eleições. Por isso as propostas para alterar a lei – no sentido de abrir uma exceção para Barrancos – foram habilmente adiadas pelos socialistas, para não aborrecer nenhum potencial eleitor (só em 2002 a lei foi alterada, abrindo essa exceção).

Que se lixem!, pronto

Luís Barra

Em julho de 2012, uma frase de Pedro Passos Coelho num jantar com deputados do PSD deu o tiro de partida para a “silly season” desse ano: “Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”. A frase, obviamente, não valia pelo seu valor facial, como explicou depois o colunista Vasco Pulido Valente – “Quase ninguém percebeu (ou muita gente resolveu fingir que não percebia) o que Passos Coelho claramente comunicou às suas tropas.

A saber: que o Governo não mexeria um dedo para ajudar o partido na série de eleições que se aproximam (Açores, câmaras, Parlamento Europeu)”. Apesar disso, provocou intensa polémica, ateada pelo então líder parlamentar do PS. Na interpretação de Carlos Zorrinho, “quem se está a lixar para as eleições está-se a lixar para os eleitores”. Arménio Carlos surfou a onda e explicou que “a primeiro-ministro está a lixar-se para os portugueses”. A frase de Passos ficou, mas a polémica morreu de morte natural.

O megafone de Alberto João

Era certo como o destino: o discurso de Alberto João Jardim na festa de verão do PSD-Madeira, no Chão da Lagoa, virava polémica instantânea. “Eu mando todos os dias bocas para o continente e vou continuar a mandar e, depois de deixar de ser presidente do Governo então é que eu estou à vontade para dizer o que ainda me falta”, dizia Jardim nesses tempos – mas a profecia não se concretizou.

Longe vão os tempos em que o então presidente do Governo Regional da Madeira vociferava contra Paulo Portas, por se ter comportado como “um submarino”, ou contra “Bush, a trilateral e a maçonaria”, por estarem contra a Madeira, ou contra os “três lobbies que mandam em Lisboa” – a saber: “o lobby da comunicação social, o lobby gay e o lobby da droga”. O discurso de Jardim era normalmente antecedido da intervenção de Jaime Ramos, que dava o seu melhor (ou o seu pior) para aquecer as hostes.

Um exemplo: no ano em que Jardim explanou a sua teoria dos “três lobbies”, o secretário-geral do PSD-Madeira denunciou a existência, que “no continente”, de “grandes ligações e grandes interesses entre traficantes de droga e homens de esquerda”. Com o tempo a capacidade de criar escândalo foi-se esgotando e, no final, já quase ninguém ligava a Jardim ou aos seus “muchachos”.

As férias dos Cavaco

Em 1994, um ano antes de Paulo Portas dar o salto para a política, “O Independente”, o jornal dirigido pelo futuro dirigente do CDS, fez manchete com contornos de escândalo de verão envolvendo o primeiro-ministro: o aparato de segurança que rodeava as idas à praia de Cavaco Silva e família. “É um espetáculo policial. Quando Cavaco Silva chega à praia do Barranco, sete segurança armados abrem caminho.

A estrada é cortada e ninguém pode sair ou entrar. Na areia e na água, os veraneantes são “convidados” a debandar para Sua Excelência se bronzear e nadar. A reportagem-supresa sobre os novos hábitos de uma famílias que já foi humilde”, anunciava a primeira página do Indy. Foi um pequeno caso estival que ajudou a desgastar a imagem do chefe do Governo.

Ministro do Mar???

ALBERTO FRIAS

Tudo, ou quase tudo, o que rodeou o XVI Governo Constitucional (a.k.a. Governo Santana Lopes) emanava um certo espírito “silly season”. A começar pela tomada de posse, essa sim, num dia quente de julho de 2004. Como se não bastassem as circunstâncias escaldantes em que o primeiro-ministro tomou posse, numa insólita sucessão por Durão Barroso ter rumado a Bruxelas, a sala onde a cerimónia decorreu era um forno, havia gente a desmaiar e até o chefe do Governo parecia desnorteado, tendo-se baralhado com o discurso, saltando páginas.

Mas o grande momento desse dia foi a admiração de Paulo Portas ao saber, pela boca do secretário da Presidência da República, qual o cargo que iria desempenhar: “ministro de Estado, da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar”. “Assuntos do Mar? É verdade?”, espantou-se o líder do CDS, questionando Nuno Morais Sarmento, que fazia um esforço por manter-se esfíngico. Não foi tão atribulado como a tomada de posse de Teresa Caeiro, que chegou ao Palácio da Ajuda para ser secretária de Estado da Defesa e saiu de lá secretária de Estado da Cultura, mas foi mais icónico. Ficou como a imagem de um Governo que existiu como se o verão nunca acabasse...

(Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 08/08/16)