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O “coletor de impostos” de Costa

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VIAGENS O debate em torno da fronteira entre poder político e económico explodiu depois da notícia sobre as viagens pagas pela Galp a Rocha Andrade, avançada pela “Sábado”

FOTO JOSÉ CARLOS CARVALHO

Fernando Rocha Andrade é amigo do PM há 20 anos. Os helicópteros Kamov foram a sua primeira grande polémica

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Quando levava poucos dias como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (SEAF), Fernando Rocha Andrade comentou o facto à sua maneira: pôs como imagem de capa do seu perfil no Facebook uma vinheta de uma BD de Astérix em que uma comitiva romana é liderada por um centurião que avisa: “Abram alas para o coletor de impostos, enviado especial de Júlio César.” Quem conhece este jurista de 45 anos não se surpreendeu com o sentido de humor nem com a autoironia e reconheceu a ligação entre o cobrador de impostos e César — Rocha Andrade é há bastantes anos amigo e aliado de António Costa e foi por essa ligação que interrompeu a carreira de professor de Direito em Coimbra para voltar à política com o atual secretário-geral do PS. Primeiro como candidato a deputado por Aveiro e depois como membro do Governo. Especializado em Ciências Jurídico-Económicas, defendeu a tese de doutoramento nessa área em dezembro passado, quando já tinha tomado posse como SEAF.

A ligação direta de Rocha Andrade a António Costa, que agora garantiu ao secretário de Estado o apoio político para se manter em funções, tem duas décadas. Em 1995, quando o atual PM ocupou o primeiro cargo governamental, como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, pediu a Sérgio Sousa Pinto, então líder da JS, que lhe sugerisse nomes de eventuais assessores — Fernando, recém-licenciado em Coimbra e membro da direção da “jota”, foi uma das sugestões, e esse foi o início de uma bela amizade (nessa direção da JS, o atual primeiro-ministro encontrou alguns dos seus grandes apoios pelos anos que se seguiriam — além de Sousa Pinto e Rocha Andrade, faziam parte dessa equipa, entre outros, Marcos Perestrello e Ana Catarina Mendes).

Os amigos distinguem em Rocha Andrade a “lealdade”, a “grande capacidade de trabalho”, a “competência técnica” nas suas áreas de Direito e a “seriedade”. “É um tipo impoluto, e por essa razão é que nunca pensou que este convite pudesse ser um problema”, jura um colega de Governo ouvido pelo Expresso. Mas quem o conhece bem também lhe aponta o facto de ser “bruto como as casas” e “politicamente ingénuo”. Tudo pesado, desde que o conheceu, António Costa teve sempre “o Rocha” por perto, tendo chegado a subsecretário de Estado da Administração Interna entre 2005 e 2008, quando o ministro era o atual chefe do Governo.

“Não acautelou o interesse público”

Foi nesse período que Rocha Andrade esteve envolvido na sua primeira grande polémica, por causa dos helicópteros Kamov comprados pelo Governo para combate aos fogos florestais. O negócio foi problemático desde o início, e, na auditoria promovida em 2014 pelo Tribunal de Contas à Empresa de Meios Aéreos, o tribunal não só é muito crítico como aponta o dedo diretamente a Rocha Andrade: “Não acautelou o interesse público de exigência do cumprimento integral dos contratos de fornecimento, tendo, ao invés e numa altura de incumprimento contratual, que não podia desconhecer, aligeirado os requisitos de entrega das aeronaves e flexibilizado as condições de fornecimento e de pagamento.”

Apesar da censura do Tribunal de Contas, nunca Rocha Andrade enfrentara uma semana politicamente tão desastrosa, que começou com a alteração aos critérios do IMI e acabou com o caso das viagens para ver a Seleção Nacional à boleia da GALP. “Ele tem arcaboiço, mas isto é o tipo de coisas que o arrasa”, jura um compagnon de route. Resistirá?