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Guterres à espera da segunda prova

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O ex-Alto Comissário para os Refugiados e ex-primeiro-ministro foi o mais votado nas quatro voltas

REUTERS

O Conselho de Segurança faz esta sexta-feira a segunda de várias votações secretas para apurar o candidato ao cargo de secretário-geral da ONU. António Guterres parte em vantagem mas nada é garantido. O processo de escolha deve terminar em outubro

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

É já esta sexta-feira que os membros do Conselho de Segurança votam pela segunda vez para “qualificar” os candidatos a secretário-geral das Nações Unidas. Guterres foi o que reuniu o maior número de votos favoráveis na última vez, a 21 de julho, agora saber-se-á se continua como favorito. Se sim, consolida a sua posição.

Este tipo de votação – “straw poll” – atribui uma de três “notas” aos candidatos: encorajamento, não encorajamento, sem opinião. Guterres obteve na primeira votação 12 votos de “encorajamento” e três sem opinião ou neutros e nenhum negativo. O segundo qualificado, o ex-Presidente esloveno Danilo Turk, obteve 11 favoráveis, mas teve dois votos negativos (e mais dois neutros).

Apesar do apelo geral feito a que desta vez seja escolhida uma mulher para o supremo cargo na ONU, a primeira que surge no ranking está em terceiro lugar, com nove “encorajamentos”, dois “não encorajamento” e quatro negativos. Foi a búlgara Irina Bokova, diretora geral da UNESCO. A outra mulher, a ex-primeira-ministra neo-zelandesa Helen Clark, surge na sexta posição (oito votos de encorajamento, cinco “nãos” e dois neutros).

E é mulher também o último classificado, Vesna Pusic, ex-ministra croata dos Negócios Estrangeiros: 11 votos negativos, contra apenas dois “encorajamentos” e dois neutros. Desistiu da candidatura já esta quinta-feira.

Ao todo, estão na corrida 12 candidatos, o maior número de sempre, seis homens e seis mulheres. Oito são oriundos da Europa oriental, um grupo regional ainda vigente na organização internacional que nunca teve um secretário-geral, segundo um princípio não escrito mas geralmente aceite.

Num debate na ONU, Guterres ladeado (à esquerda) pela ministra dos Negócios Estangeiros argentina, Susana Malcorra, e a croata Vesna Pusic (ex-MNE), ambas candidatas

Num debate na ONU, Guterres ladeado (à esquerda) pela ministra dos Negócios Estangeiros argentina, Susana Malcorra, e a croata Vesna Pusic (ex-MNE), ambas candidatas

REUTERS/Mike Segar

Mais um passo

Agora, todos estão na expectativa, e em primeiro lugar António Guterres, cujo resultado na primeira volta deu um novo impulso à sua campanha, que prossegue com contactos e visitas a vários países, incluindo a Rússia.

O processo de votação é secreto, pelo que é impossível saber qual será a indicação. O resultado da primeira volta mostra no entanto que existe em torno do ex-Alto Comissário para os Refugiados uma expectativa elevada. E o facto de ninguém ter votado contra pesa.

O processo destas primeiras votações, não sendo formais no puro sentido do termo, têm o objetivo de ir apurando os candidatos, propiciando àqueles que têm maior número de “não encorajamentos” que possam retirar a sua candidatura, se considerarem que não têm qualquer possibilidade de prosseguir na corrida.

É provável, pois, que com os resultados desta votação – que só deverão saber-se na sexta-feira ao fim do dia – já se comece a delinear o corpo de candidatos com maior peso.

No mesmo debate com candidatos, numa perspetiva mais ampla, onde se veem também a moldova Natalia Gherman e o sérvio Vuk Jeremik

No mesmo debate com candidatos, numa perspetiva mais ampla, onde se veem também a moldova Natalia Gherman e o sérvio Vuk Jeremik

REUTERS/Mike Segar

Os 15 membros do Conselho de Segurança continuarão a realizar estas votações até atingirem o consenso sobre um único candidato, que será proposto para votação pela Assembleia Geral. Mas sabe-se que os cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França) têm um papel preponderante, devido ao facto de terem direito a veto. Na prática, até agora, foram sempre eles a determinar quem é o secretário-geral.

Segundo o embaixador angolano Ismael Gaspar Martins, que é um dos 10 membros eleitos do Conselho, “só na terceira ou quarta straw poll o processo será mais claro”, de acordo com um despacho da Reuters.

A Reuters cita também um outro diplomata, na condição de anonimato, segundo o qual “é significativo que a Rússia tenha votado 'neutro' relativamente a Guterres”, considerando que se numa próxima votação ele continuar sem ter nenhum voto contra (não encorajamento) o ex-primeiro-ministro português poderá ter reais possibilidades de se tornar o próximo secretário-geral.

A agência questionou também o embaixador russo se o seu país poderia desencorajar o candidato português, mas Vitaly Churkin respondeu sorrindo: “Porquê? Ele é bom!” O embaixador considerou no entanto que era cedo para tirar conclusões e que possivelmente o processo não ficaria resolvido esta sexta-feira.

De facto, de acordo com fontes consultadas pelo Expresso, é durante a presidência russa do Conselho de Segurança, em outubro, que se espera que o processo seja concluído.