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Patrões deixam lista de queixas do Governo

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Mais de um milhão de dívidas do Estado, atraso no pagamento dos fundos estruturais e alterações legislativas feitas à margem da Concertação. O rol é grande

As quatro confederações patronais — Indústria, Comércio, Agricultura e Turismo — foram unânimes a transmitir ao Presidente da República a “enorme preocupação” face à situação económica do país. Os patrões têm receio da “conjuntura externa”, mas lamentaram-se da “geometria variável” de medidas que sustentam a maioria parlamentar. Deixaram a Marcelo um rol de queixas. Muitas delas contra o Governo de António Costa.

“A situação é muito preocupante”, diz António Saraiva ao Expresso. A lista de preocupações é grande e foi resumida em oito páginas, deixadas no Palácio de Belém para que Marcelo Rebelo de Sousa possa entender bem a mensagem. Os patrões queixam-se da falta de investimento e até da fuga de projetos (como o da Portucel, no valor de 140 milhões de euros); queixam-se da falha das previsões de crescimento económico (a meta de 1,8% prevista no OE “não vai ser atingido”, diz Saraiva); da necessidade de encontrar um veículo exterior à banca que permita recapitalizar as empresas; queixam-se da conjuntura externa e das ameaças de Bruxelas; queixam-se da falta “de confiança e de procura” que tornam a “economia anémica”. Mas queixam-se de coisas muito concretas e que têm diretamente António Costa como destinatário.

À saída, em declarações aos jornalistas, o patrão da Indústria deixou um recado. António Saraiva exigiu que se pusesse um ponto final no “ataque que está permanentemente a ser feito por alguns partidos à esquerda do PS, nomeadamente o Bloco de Esquerda, que tem sobre a iniciativa privada uma leitura de diabolização, como se o país vivesse sem aqueles que criam riqueza e emprego”. Lá dentro, durante a audiência com o Presidente, os patrões tinham explicado melhor. Lamentavam as decisões tomadas pelo Governo de acordo “com outras forças políticas e deixando de fora os parceiros sociais e a concertação social”, desde o aumento do salário mínimo, à reposição de feriados, mas também os diplomas que, no Parlamento, aguardam aprovação e que alargam para 25 dias as férias no sector privado, ou reduzem para 35 horas o período de laboração em todos os sectores de atividade. E, diz a CIP, o projeto que, ainda na semana passada, a maioria de esquerda aprovou de “combate às formas modernas de trabalho forçado revela uma atitude persecutória e enferma de inconstitucionalidade”.

Os recados a Marcelo não ficaram por aqui. Os patrões queixaram-se dos 1086 milhões de euros de dívidas das entidades públicas às empresas, assim como no atraso no pagamento de 140 milhões de euros de fundos estruturais devidos e só saldados no início do mês. O ambiente com o Governo está toldado.

As dúvidas sobre o futuro adensam-se com a ameaça no horizonte de uma suspensão, mesmo que parcial, dos fundos europeus atribuídos a Portugal. Numa iniciativa inédita, as quatro confederações patronais e a UGT lançaram um documento conjunto considerando que o eventual corte do financiamento europeu será uma medida “profundamente injusta e contraproducente”. E apelaram ao PR e aos responsáveis da UE para que a Europa “se assuma de novo como um espaço em que a convergência, a coesão, a solidariedade e o progresso social sejam as prioridades”.