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Passos vinca distâncias para o PR

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Passos esteve no domingo na festa de Chão da Lagoa

HOMEM DE GOUVEIA / LUSA

Pela segunda vez, Marcelo Rebelo de Sousa convidou e o líder do PSD faltou. Agora, por “motivo de doença”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Não passou em claro no Palácio de Belém o facto de Pedro Passos Coelho ter sido o único líder partidário que faltou à chamada do Presidente da República para as audiências desta semana com os partidos. Foi a segunda vez consecutiva que Passos se fez representar em Belém por um vice-presidente. A 11 de julho, o líder do PSD não esteve em Belém na receção aos jogadores da seleção nacional de futebol — nesse dia estava a regressar de Paris, onde assistiu discretamente, sem tratamento VIP, à final do Europeu, e enviou em seu lugar o primeiro vice-presidente do partido, Jorge Moreira da Silva. Esta segunda-feira, Passos alegou que havia adoecido, na sequência da sua presença, na véspera, na festa anual do PSD Madeira — e a delegação que esteve em Belém foi chefiada por Sofia Galvão, a mais discreta dos seis vice-presidentes sociais-democratas.

“Mandou a vice-presidente mais desgraduada do PSD”, comenta um elemento do círculo próximo de Marcelo Rebelo de Sousa, considerando que Passos deixou um claro sinal político de distanciamento em relação ao chefe de Estado. Por outro lado, apesar de Sofia Galvão ser a “vice” do PSD com menos peso político, é próxima de Marcelo, o que em Belém é visto como uma atenuante — foi assistente do atual PR na Faculdade de Direito e coautora em 2000, com Marcelo, do livro “Introdução ao Estudo do Direito”. Mas a questão da ausência de Passos é que conta. “Um líder partidário que por vontade própria não quis um lugar no Conselho de Estado falta a esta audiência?”, interroga-se a mesma fonte, notando que foi o próprio Marcelo quem deu relevo às audiências desta semana, enquadrando-as num contexto de eventual crise política — e num momento em que Passos tem feito intervenções muito carregadas sobre os riscos que ameaçam o país.

Ainda no sábado, o presidente do PSD tinha admitido a iminência de eleições, ao lançar a suspeita de que “este Governo comporta-se como se houvesse uma perspetiva eleitoral a cada seis meses”. Porém, se na semana anterior Passos Coelho tinha avisado os seus deputados de que “em setembro vem aí o diabo”, esta semana, à saída de Belém, Sofia Galvão adotou um tom visto em Belém como “surpreendentemente moderado”: foi muito crítica em relação às políticas seguidas pela maioria de esquerda, apontando o mau desempenho económico do país, mas “já não disse que isto está quase a rebentar”, segundo o resumo da mesma fonte.

Nas suas declarações aos jornalistas, a dirigente social-democrata reconheceu que “o Governo tem uma maioria estável no Parlamento” e que “quando há maiorias nos Parlamentos não há razões para se pensar em crises políticas”. Mas reafirmou que compete a essa maioria aprovar o OE do ano que vem e que “o PSD não é parte da solução em termos do próximo Orçamento do Estado”. Em Belém, este tom mais moderado foi registado, ficando a dúvida sobre se a diferença em relação a Passos resulta de estilos pessoais ou de divisões na liderança do partido sobre a mensagem política a passar.

Veto sem foguetes da direita

Outro episódio que esta semana acentuou o fosso entre Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Passos Coelho — dois políticos que manifestamente nunca nutriram grande estima mútua — foi o veto do chefe de Estado ao diploma que vedava aos capitais privados as empresas de transportes públicos do Porto. Trata-se de legislação aprovada no Parlamento pela união das esquerdas.

Apesar do veto presidencial não ter sido justificado com razões políticas, mas com argumentos técnicos, a forte carga ideológica da legislação em causa provocou de imediato uma resposta musculada dos partidos de esquerda, sobretudo BE e PCP. Mas não houve a mesma reação do outro lado do espetro partidário.

Na Presidência da República era esperada uma reação mais efusiva por parte dos partidos da direita, sobretudo tendo em conta que se trata de legislação relacionada com as famosas reversões com que a atual maioria está a desfazer decisões importantes do anterior Governo. “O PSD passa a vida a falar das reversões, com um veto destes deviam soltar foguetes, mas só fizeram um comentário curto”, nota uma fonte de Belém. Curto e tardio, pois foi feito apenas no dia seguinte à divulgação do veto. Como quem diz que não é Marcelo quem marca a agenda deste PSD.