Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Relatório do inquérito ao Banif divide direita e esquerda

  • 333

Tiago Miranda

PSD e CDS criticam omissões do documento em relação às responsabilidades do atual Governo. Esquerda apresenta propostas de alteração, mas elogia documento

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

A linha de divisão é clara e separa direita e esquerda. O relatório com as conclusões da comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Banif, escrito pelo deputado socialista Eurico Brilhante Dias, mereceu esta tarde o apoio do PS, do BE e do PCP, e as críticas do PSD e do CDS.

O documento será votado na próxima quinta-feira, mas antes disso todos os grupos parlamentares irão apresentar propostas de alteração, que serão negociadas com o relator, que tem a última palavra sobre a sua inclusão ou não no texto final. Porém, independentemente dessa negociação, é previsível que as conclusões do inquérito sejam aprovadas apenas com os votos da esquerda. PSD e CDS ponderam entre a abstenção e o voto contra.

"Lavagem política", acusa o PSD

Depois de ter apresentado, na sexta-feira, em conferência de imprensa, as principais conclusões do seu relatório, Brilhante Dias em esta tarde uma longa exposição do documento, durante mais de duas horas, perante a CPI.

O principal partido da oposição reiterou as críticas que já havia feito na semana passada, acusando o deputado socialista de um "pecado capital" de "parcialidade política evidente". Carlos Abreu Amorim apontou o dedo à "inaceitável omissão de críticas ao atual governo" pela decisão de resolução e venda do Banif ao Santander. "Esforço impossível de lavagem política", disse.

"Neste relatório todas as entidades envolvidas são criticadas, exceto o atual governo", que surge "retratado como mera vítima das circunstâncias, sem margem para alterar um caminho supostamente inexorável", acusou o deputado do PSD. Mais: o documento, diz Abreu Amorim, não reconhece as "melhorias significativas" do Banif durante mandato Governo anterior e "branqueia a incapacidade, capitulação atual governo face à escalada das exigências europeias".

Outro ponto em que o PSD aponta um duplo critério ao relator é na questão da notícia da TVI que provocou uma corrida aos depósitos e precipitou a venda do Banif. "Por um lado, diz que a notícia é falsa e que o seu impacto é grave. Por outro conclui, extraordinariamente, que tanto faz porque o destino do Banif estava escrito", disse Abreu Amorim.

O deputado do PSD acusou ainda o texto de conclusões de "passar em claro" a "prestação enganosa do ministro Mário Centeno na CPI, designadamente as suas múltiplas contradições". Uma acusação que o PSD lançou em vários momentos ao longo do inquérito, tendo mesmo falado em crime de "falsas declarações" - palavras que, desta vez, Abreu Amorim não voltou a usar, falando apenas de "prestação enganosa".

Apesar deste downgrade na linguagem do PSD, João Galamba, do PS, acusou o maior partido da oposição de, ao longo do inquérito ter feito várias tentativas de "por porcaria na ventoinha" com uma série de ataques a Centeno. O porta-voz socialista, mais do que falar do relatório, que elogiou, refutou ponto por ponto as críticas de Abreu Amorim, e concluiu que "nenhuma das acusações do PSD tem qualquer fundamento".

CDS moderado, esquerda elogiosa

Num tom mais moderado do que Abreu Amorim, e aparentemente mais aberto a um entendimento sobre alterações ao relatório final, também João Almeida, do CDS, elencou omissões do documento e apontou o dedo à "diferença de tratamento dos diferentes períodos". "A parte final do processo peca por omissão", sublinhou o dirigente do CDS, numa referência a todo o processo conduzido pelo governo PS para a venda do banco. Almeida considerou ainda que a"crítica em relação às instituições europeias devia ser mais profunda".

Nesta parte todos estiveram de acordo: as responsabilidades e as contradições das entidades europeias no desfecho do folhetim Banif. Mariana Mortágua, do BE, sublinhou-o ao passar em revista a distribuição de responsabilidades neste caso.

"Em primeiro lugar, a responsabilidade é da administração [do Banif] (...),há uma responsabilidade que é preciso atribuir ao Banco de Portugal, a supervisão teve falhas que o relatório critica(...), há uma responsabilidade que deve ser atribuída às instituições europeias, e o relatório aponta de forma clara uma contradição inicial entre entidades europeias que nunca foi resolvida (...) e há responsabilidades obviamente do anterior governo, que não resolveu o problema, e não há volta a dar. Quanto ao atual executivo, a deputada do BE admite que teve de atuar" em duas semanas e num cenário muito condicionado", mas "deve ficar muito claro que a opção tomada é má para o país".

Miguel Tiago, do PCP, elogiou as conclusões do relatório, "apesar de insuficiências e discrepâncias" que encontrou. E elogiou sobretudo a capacidade das conclusões apontarem as responsabilidades do anterior governo, que o deputado comunista acusou de "negligência muito próxima do dolo" neste caso. Em relação à responsabilidade do atual executivo, o deputado do PCP admitiu que " pode estar mais detalhada e mais aprofundada", mas é uma "responsabilidade que resulta de um processo anterior".