Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Lady in the House

  • 333

Mudança 
David Cameron demitiu-se 
na sequência do ‘Brexit’. Theresa May é a sua sucessora no Partido Conservador e como inquilina do número 
10 de Downing Street

FOTO PETER NICHOLLS / REUTERS

Está quente o verão político dos conservadores britânicos. Traições entre amigos, deslizes públicos e privados, piruetas e demissões. A última a ficar de pé foi Theresa May, nova primeira-ministra

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

Em Londres

Correspondente em Londres

No verão de 1989, Michael Dobbs publicou um livro de ficção à volta da figura de Francis Urquhart, um político conservador corroído pelo poder e pela ambição. Obcecado por chegar à chefia do partido e do Governo britânico na sequência da demissão de Margaret Thatcher, Urquhart poderia muito bem ser uma personagem tirada das páginas de “Macbeth” ou do drama histórico “Ricardo III”, de Shakespeare. O livro de Dobbs, “House of Cards”, foi posteriormente adaptado para séries televisivas de grande êxito no Reino Unido (1990) e nos Estados Unidos (2013). Na versão americana, o manipulador Francis Urquhart transforma-se em Francis Underwood — representado de forma brilhante pelo ator Kevin Spacey —, um líder parlamentar do Partido Democrata que acaba por chegar à Casa Branca depois de várias manobras e conspirações (e, inclusive, assassínios). “House of Cards”, claro, é uma obra de ficção. Mas o autor conhecia como ninguém as águas em que Francis Urquhart se movia. Michael Dobbs trabalhou no Partido Conservador durante quase duas décadas, como conselheiro de Thatcher, assessor, speech-writer ou chefe de gabinete. O êxito da primeira série televisiva, transmitida pela BBC em novembro e dezembro de 1990, coincidiu com os últimos dias do Governo de Margaret Thatcher, a primeira-ministra que foi brutalmente empurrada para fora de Downing Street depois de uma revolta interna e de algumas traições no seio dos tories.

O Partido Conservador tem uma longa tradição de crueldade, ambição desmedida e traição (ou backstabbing — “facadas nas costas”, na expressão bem mais visual da língua inglesa). Nas últimas três semanas, o espetáculo oferecido pelos políticos conservadores na sequência da vitória do ‘Brexit’ — e do consequente pedido de demissão apresentado pelo primeiro-ministro, David Cameron — pareceu-se com uma versão moderna e atualizada do “House of Cards” de Michael Dobbs. Demissões, facadas entre colegas, amigos que se tornam inimigos, piruetas políticas — este verão de 2016 já teve de tudo. E vai ficar na história do Partido Conservador britânico como um dos mais sangrentos de sempre.

Comecemos pelo princípio. O movimento ‘Brexit’ — que defendia que o Reino Unido deveria abandonar a União Europeia — foi catapultado, sobretudo, por duas campanhas. Uma delas, Leave.EU, era dominada pela figura de Nigel Farage, um demagogo carismático cuja razão de ser, desde 1992, tem sido a destruição do projeto europeu. Para Farage, líder histórico do UKIP, um pequeno partido da direita populista, Bruxelas e Estrasburgo são as faces de um monstro supranacional e diabólico que ameaça a independência do Reino Unido. A outra campanha, Vote Leave (reconhecida pela comissão eleitoral britânica como a única “campanha oficial” a favor do ‘Brexit’), era um movimento que englobava políticos de vários campos. A presidente do Vote Leave era Gisela Stuart, deputada do Partido Trabalhista (curiosamente, ela nasceu e cresceu na Alemanha como Gisela Gschaider; a deputada vive na Inglaterra desde 1974, onde estudou e casou). Apesar da mulher socialista na presidência, a campanha Vote Leave foi dominada, sobretudo, por deputados, ministros e outras figuras maiores do Partido Conservador. Um deles era Boris Johnson, antigo mayor de Londres. Outro era Michael Gove, um intelectual e ex-jornalista, com cara de menino, que desempenhou cargos importantes nos governos de David Cameron desde 2010. Outra figura da campanha oficial do ‘Brexit’ foi Andrea Leadsom, uma mulher com carreira no mundo da finança e recém-chegada à política (foi eleita deputada, pela primeira vez, em 2010). Com a sua presença sóbria, bem articulada e convincente, Leadsom, de 53 anos, foi uma das estrelas dos debates televisivos que antecederam o referendo do dia 23 de junho.

A questão europeia foi sempre um foco de divisão no seio do Partido Conservador. No topo da hierarquia partidária, a maioria das vozes apoiava a manutenção do Reino Unido na União Europeia — não tanto por convicção mas talvez mais por grande parte dos membros do Governo achar que era sensato permanecer ao lado do primeiro-ministro Cameron. No Parlamento, o estado de espírito dos deputados conservadores era bem mais hostil. E entre as bases do partido, então, o clima era maioritariamente antieuropeu. Porquê, então, avançar com a ideia do referendo? E porquê agora? Uma das explicações: a oposição trabalhista não oferece, de momento, qualquer ameaça. O Partido Conservador podia dar-se ao luxo de arrumar de vez, sem receio de consequências eleitorais, com a questão europeia — uma questão que sempre foi uma espécie de ferida irritante que não sara e que dividiu os tories ao longo de mais de quatro décadas. A hostilidade histórica entre os dois campos no seio do Partido Conservador subiu de tom durante a campanha do referendo. Os resultados do dia 23 de junho precipitaram a queda, natural, do primeiro-ministro David Cameron e deram lugar a uma querela aberta entre os tories. Por vezes pareceu-se mais com uma verdadeira guerra civil. As analogias com o enredo de “House of Cards” e com as manobras de Francis Urquhart/Underwood demonstraram ser insuficientes. A novela tory combinou a trama de “House of Cards” com episódios dos melhores e dos piores reality shows televisivos, salpicados com umas pingas de Maquiavel, Macbeth e Brutus — e tudo isto no espaço de poucos dias.

Na sequência da vitória do ‘Brexit’ com uma diferença de quase 1,3 milhões de votos (ou 51,89% contra 48,11% dos votos expressos), seria natural que a corrida à sucessão de David Cameron à frente do Partido Conservador e do Governo britânico fosse dominada por Boris Johnson. O antigo mayor de Londres, Alexander Boris de Pfeffel Johnson, de 52 anos, goza daquele estranho privilégio normalmente reservado em exclusivo às grandes celebridades do mundo da música ou do futebol: tal como Beyoncé ou Drake, é conhecido simplesmente por um nome próprio. Boris é Boris. Com o seu cabelo desgrenhado, os fatos amarrotados e um vocabulário único, tem um encanto que se estende muito para lá dos clubes e associações tories ou da classe privilegiada onde nasceu e cresceu (como Cameron, Boris estudou no colégio de Eton e na Universidade de Oxford). Boris era indiscutivelmente a figura mais conhecida da campanha Vote Leave. A vitória no referendo deveu-se, em grande parte, à popularidade de Boris Johnson em todo o país e ao empenho que ele dedicou à campanha. A candidatura à liderança do partido (e do Governo), no entanto, não chegou a sair do papel. Morreu à nascença, com a facada mortal a ser aplicada por Michael Gove, companheiro inseparável de Boris no movimento Vote Leave. Gove foi ministro da Educação e depois ministro da Justiça nos governos de David Cameron. Nos últimos anos, repetiu incessantemente que nunca teve grandes aspirações políticas e que nunca quis ser primeiro-ministro. Mas, quando a oportunidade surgiu, foi o primeiro a puxar o tapete que se estendia sob os pés do antigo mayor de Londres. Michael Gove e Boris Johnson partilharam durante meses os mesmos palcos, os mesmos comícios e o mesmo autocarro vermelho da campanha Vote Leave.

Muita gente pensava que a parceria iria manter-se após o referendo, com Boris na linha da frente — pronto a assumir o comando do partido e do Governo — e com Gove ao seu lado como futuro chanceler ou ministro dos Negócios Estrangeiros. Poucos dias depois da vitória no referendo, porém, quando começavam a contar-se as espingardas entre os potenciais candidatos à liderança, o canal televisivo Sky News divulgou um e-mail privado enviado por Sarah Vine, colunista no tabloide conservador “Daily Mail”, ao marido, Michael Gove. O e-mail — aparentemente copiado acidentalmente para o endereço eletrónico de um cidadão anónimo — punha brutalmente em causa a credibilidade e a popularidade de Boris Johnson. Na mesma altura, os jornais desenterraram velhos escândalos que envolveram Boris ao longo dos tempos (e o baú estava bem cheio: de infidelidades conjugais, abortos e paternidades fora do matrimónio a um passado como jornalista inventor de factos e de citações). Gove explicou que Boris não era o homem certo para Downing Street. Boris estendeu a toalha e anunciou que já não iria candidatar-se. Muita gente duvida que o e-mail “acidentalmente” enviado por Sarah Vine (ou terá sido Lady Macbeth?) tenha sido mesmo um acidente.

Duas eleições no seio do bloco parlamentar do Partido Conservador reduziram sucessivamente a lista de candidatos de cinco para dois nomes finalistas. Pelo caminho ficaram Liam Fox (antigo ministro da Defesa); o deputado Stephen Crabb, que abandonou a corrida por falta de apoio (e sob a nuvem de um miniescândalo envolvendo SMS de teor sexual); e por fim o próprio Michael Gove, que não conseguiu mais de 14% dos votos (e não resistiu à associação do seu nome à imagem shakespeariana do Brutus que atraiçoou e esfaqueou o amigo Boris). A liderança do partido e do Governo teria de ser disputada, em princípio, por duas deputadas — Theresa May e Andrea Leadsom —, numa votação que seria estendida ao longo do verão aos 150 mil militantes do partido.

Leadsom foi, assim, o único nome ligado à campanha do ‘Brexit’ com possibilidades reais de chegar à chefia. Mas também ela não sobreviveu mais do que uns dias, acabando triturada por um rolo compressor de críticas ouvidas dentro e fora do Partido Conservador. A nova queridinha da direita eurocética demonstrara um apego pelo exagero na elaboração do seu C.V. profissional (os “25 anos de experiência na City à frente de fundos de investimento movimentando biliões de libras e gerindo centenas de trabalhadores” não passavam, afinal, de pura ficção). As ideias arcaicas relativamente ao casamento, a inexperiência política, a aparente amizade com o tóxico Nigel Farage e o facto de falar abertamente sobre Deus e religião — um tema tradicionalmente tabu entre os políticos britânicos — causaram comichão. A gota de água acabaria por ser uma entrevista ao diário “The Times”, no final da semana passada, onde abordou de forma deselegante o facto de Theresa May não ter filhos (Andrea tem três filhos e estaria, por isso, “mais habilitada a decidir o futuro do país”). A candidata criticou o jornal e negou as afirmações. O “Times” respondeu com a divulgação da gravação integral da entrevista. Na manhã de segunda-feira, por fim, Andrea Leadsom abandonou a corrida e abriu o caminho, dessa forma, para a coroação imediata de Theresa May como líder dos tories e como primeira-ministra do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

Calculista Os mais cínicos dizem que ninguém chega ao poder sem um mínimo de maquinação política. E Theresa May chegou ao topo da montanha política britânica

Calculista Os mais cínicos dizem que ninguém chega ao poder sem um mínimo de maquinação política. E Theresa May chegou ao topo da montanha política britânica

FOTO NEIL HALL / REUTERS

A subida ao poder de Theresa May marca um corte com o passado recente do Partido Conservador — um corte com a imagem de partido dirigido por um grupinho elitista de machos que ainda guardam tiques de meninos endiabrados de colégio privado. May, ao contrário, espalha a imagem de reitora do colégio, uma mulher segura e capaz de acalmar uma sala de aulas repleta de alunos excitáveis. Nesse aspeto, é uma mulher muito mais próxima de Margaret Thatcher, a única primeira-ministra que a antecedeu na história britânica, do que de David Cameron. Mas nem toda a gente concorda. “Os jornais estão cheios de comparações com a senhora Thatcher. Mas comparar May [com Thatcher] é um sinal de um sexismo preguiçoso e de um jornalismo ainda mais preguiçoso”, explica o escritor e colunista Damian Barr, autor do livro “Maggie & Me”. “Thatcher era uma verdadeira revolucionária, tinha majestade e loucura em doses iguais. May não tem nem uma coisa ou a outra. Não passa de uma boa funcionária, uma senior manager na melhor das hipóteses”, diz ainda Barr.

Sabe-se muito pouco sobre a vida privada de Theresa May. Aparentemente, gosta de cozinhar (tem mais de 100 livros de culinária), de críquete, de Abba, de Mozart e de Elgar e de fazer caminhadas pelas montanhas ao lado do marido, Philip May, com quem casou em 1980. “Theresa não faz fofoca, não conversa sobre coisas inúteis ou banais. Não posso garantir, mas tenho quase a certeza de que ela não é fã de ‘A Guerra dos Tronos’”, diz a baronesa Anne Jenkin, par da Câmara dos Lordes. “Ela parece ser um pouco fria, porque não faz conversa de chacha nem partilha confidências. Mas é uma mulher direta e muito decente, competente e com muita experiência”, diz ainda Jenkin, que em 2005 trabalhou com Theresa May na campanha “Women2Win”, que visava aumentar o número de deputadas conservadoras no Parlamento. A primeira-ministra, de quase 60 anos, é geralmente tida como uma pessoa confiável (ou aquilo que os ingleses descrevem como “a safe pair of hands”). Deputada desde 1997, está no Governo desde 2010, ocupando uma pasta complicada — a de ministra da Administração Interna — durante mais de seis anos. Ao longo desse período, May somou alguns êxitos — e inêxitos, como na questão da contenção da imigração —, mas guardou sempre uma discrição férrea que a manteve longe das páginas dos tabloides (a única exceção parece ser uma estranha obsessão dos jornais britânicos com os sapatos de pele de leopardo ou com as botas sobre o joelho que a senhora usa).

A relativa popularidade de Theresa May nos bastidores do Partido Conservador deve-se sobretudo ao facto de ela não entrar em conspirações, manobras ou, muito menos, facadas. Os mais cínicos, no entanto, dizem que ninguém chega ao poder sem um mínimo de maquinação política. “Ela também pode ser muito fria e calculista. Não suja as mãos, mas manda os acólitos dela fazer o trabalho [sujo]”, conta uma fonte anónima citada no início da semana pelo diário “The Guardian”. O facto de Theresa May ter manifestado a sua oposição ao ‘Brexit’ de uma forma muito discreta, mantendo-se praticamente à margem do reboliço da campanha, poderá ser um sinal desse mesmo calculismo, frio, de alguém que quer manter a confusão bem longe dela — o mesmo calculismo que a terá conduzido ao número 10 de Downing Street.