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“Ou se renegoceia a dívida ou se descobre petróleo no Beato”

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TIAGO PETINGA

É assim que a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, quer deixar claro que sem uma renegociação nunca haverá um Orçamento do Estado com folga para o investimento

“A menos que se faça a renegociação da dívida ou que o Governo encontre petróleo no Beato”, Portugal terá “um segundo Orçamento de Estado (OE) sem investimento”, afirmou ao Expresso a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.

É uma grande entrevista da líder do BE após a X Convenção do seu partido, realizada há três semanas. Além do publicado nesta edição da Revista E (em que fala da infância em Cabo Verde, dos pontos de contacto entre o teatro e a política), Catarina Martins é categórica sobre o próximo OE. “Sem uma renegociação da dívida, não há margem para encontrar o dinheiro necessário ao investimento”, reconhece.

A coordenadora do BE assume que a questão da dívida é “delicada e complexa” e que um passo em frente, nas conversações do Bloco e do PS, seria “cenarizar hipóteses de reestruturação. Mesmo que o Governo não queira avançar agora, seriam propostas técnicas mais coerentes, que o BE poderá ou não apresentar”.

Para já, no que respeita aos esforços conjuntos de socialistas e bloquistas, anda-se devagarinho, pois o grupo de trabalho sobre a sustentabilidade da dívida externa tem ainda muito para percorrer. “Acho que esse grupo permitirá encontrar instrumentos para preparar o país para o que que tem de ser feito”, diz, por um lado. Por outro, afirma: “Não me parece que o PS vá ser convencido dos passos concretos, pelo menos para já.”

O que seria então um ganho nas negociações do BE com o PS? “Há vários avanços, o primeiro seria sobre a sustentabilidade da dívida externa (não é só a dívida pública, pois Portugal tem um enorme problema de dívida privada externa, nomeadamente financeira): uma solução que permita proteger Portugal das sucessivas crises bancárias que nos têm ficado tão caras seria um avanço”, diz Catarina Martins.

Além da dívida, BE e PS criaram mais cinco grupos de trabalho, nos quais pretendem encontrar consensos que alimentem propostas para o próximo OE. “Tem sido um caminho muito difícil”, resume a líder do Bloco, pois em alguns casos os partidos partem de pontos quase antagónicos. “Discutir a precariedade, a forma como se tratam os desempregados, não é fácil, porque o PS criou a maior parte das regras que se aplicam ainda hoje; a mesma dificuldade existe nas rendas da energia”.

Em todo o caso, o BE vê abertas. “Julgo que será possível fazer alterações no campo da fiscalidade, que darão uma maior progressividade [nos escalões de IRS] no próximo OE”, revela Catarina Martins. Sobre certas questões das rendas da energia “também se poderá fazer algum trabalho”, adianta.

No entanto, alguns temas parecem longe de estar satisfatórios. “Estou muito preocupada com as questões da precariedade e do combate à pobreza. É uma prioridade aumentar o IAS, o Indexante de Apoio Social [base de cálculo das pensões dos mais desfavorecidos]”, diz a líder bloquista. “Não nego que a situação é muito complicada, mas estou certa que o PS compreende que uma maioria parlamentar à esquerda exige avanços nessas matérias”, prossegue, num tom de lembrete aos socialistas.