Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

“Os heróis de hoje são do cinema, rock e desporto”

  • 333

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

Texto

Jornalista

Alberto Frias

Fotos

Fotojornalista

Os membros da seleção nacional de futebol foram condecorados com o grau de comendador da Ordem do Mérito, atribuída pelo Presidente da República, esta segunda-feira, depois da vitória no Euro-2016. Dois dias depois, Marcelo Rebelo de Sousa atribuiu a mesma condecoração a oito atletas medalhados em recentes campeonatos europeus de atletismo. Nuno Severiano Teixeira, ex-ministro e professor catedrático, acredita que estas condecorações “alimentam o orgulho de que o país precisa”.

Concorda com as condecorações atribuídas esta semana?
Concordo inteiramente. Os grandes feitos que eram valorizados, historicamente, eram os militares. Hoje os feitos valorizados são de natureza cívica, cultural, material e desportiva, com tradução mediática e global. Isso significa que os heróis de hoje são as estrelas do cinema, da música rock, do desporto. Em Portugal, as estrelas do cinema e do rock brilham menos que as do futebol. Não porque tenham menos qualidade, mas porque essas indústrias não têm a dimensão global do futebol. Figuras como Cristiano Ronaldo ou José Mourinho são heróis mediáticos, globais. Quando é em torno destes novos heróis e dos seus feitos que se vai reforçando a identidade nacional, é natural que eles sejam reconhecidos. São eles que alimentam o orgulho nacional. Não é só justo que tenham a condecoração, é também importante do ponto de vista coletivo, porque alimenta esse orgulho de que o país precisa. Segundo um inquérito internacional, o que traz orgulho aos portugueses não é o desenvolvimento económico, a qualidade da democracia ou o funcionamento da justiça. São indicadores imateriais: em primeiro lugar, a História, e em segundo lugar, os desportistas e os feitos desportivos. E por essa razão também é justa a atribuição da condecoração pelo Presidente da República.

Como é que se afere o grau de condecoração entre um feito no desporto, na política ou na investigação, por exemplo?
Em função da natureza da atividade, assim se faz a atribuição da condecoração. A partir do século XIX, sobretudo da Revolução Francesa, e durante o século XX, o que se valoriza são os feitos cívicos, culturais e empresariais, e isso tem uma tradução nas ordens honoríficas. Surgem as Ordens Nacionais, que traduzem feitos culturais e a projeção de Portugal no mundo, e as Ordens de Mérito, cada uma delas procurando valorizar e reconhecer feitos em determinadas áreas.

A atribuição de condecorações banalizou-se?
As condecorações existem para serem atribuídas. Elas desempenham uma função simbólica de reconhecimento do Estado para com os que lhe prestam serviços. São simbolicamente importantes não só para quem as recebe, mas também para a nação, como forma de reprodução da sua identidade e reforço do orgulho nacional. Deve, porém, ser ponderada a sua atribuição, porque não podem ser banalizadas. Se o forem, perdem justamente o valor simbólico que têm.

Acha que há discricionariedade na sua atribuição?
Não creio que haja. Há, seguramente, uma ponderação, um aconselhamento e há uma decisão final do Presidente da República, que é assessorado por um conselho e um chanceler para as diferentes ordens. Mas a concessão das condecorações é sua competência exclusiva.

Há alguma condecoração que já deveria ter sido dada?
Acho que falta uma condecoração ao povo português. A mais alta. Pela forma heroica com que viveu e continua a viver esta crise, que é a mais grave da história da democracia portuguesa. Sei que a atribuição das condecorações se faz a pessoas individualmente ou a entidades coletivas de reconhecido mérito público, e nisso não cabe o povo português, mas o professor Marcelo tem inovado em tanta coisa que também pode inovar nesse aspeto e atribuir a condecoração ao povo português no seu conjunto.

E no caso de José Sócrates, o único primeiro-ministro do pós-25 de Abril não condecorado, acha que deveria ter sido?
Se a condecoração é atribuída como reconhecimento do desempenho institucional do cargo de primeiro-ministro, todos os primeiros-ministros devem tê-la.

PERFIL

Nuno Severiano Teixeira, 58 anos, é professor catedrático e vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa (UNL). É também diretor do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). Foi ministro da Administração Interna (2000-2002) no Governo de António Guterres e ministro da Defesa Nacional (2006-2009) no Governo de José Sócrates. Entre 1996 e 2000, ocupou o cargo de diretor do Instituto de Defesa Nacional. Em 2015, lançou o livro “Heróis do Mar, História dos Símbolos Nacionais”