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João Torres: “A Geringonça dura quatro anos”

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alberto frias

O líder da Juventude Socialista acrescentou um tema à agenda fraturante: a limitação de salários dentro das empresas. E Acredita que pode acontecer ainda Nesta legislatura

Carolina Reis

Carolina Reis

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Alberto Frias

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A regulamentação da prostituição e a legalização das drogas leves sempre foram temas que a Juventude Socialista (JS) implementou na agenda, mas no último congresso acrescentou a limitação proporcional dos salários. João Torres, líder da JS, obrigou o partido a discutir o assunto, propondo que nas empresas públicas os ordenados dos gestores não excedam 20 vezes o salário mais baixo aí pago. E para os privados que não estipulem essa regra haverá penalizações na Segurança Social. O jovem deputado admite que a ideia é polémica e pode causar embaraço.

Há pouco tempo disse que queria que a sua geração se revisse “num PS de causas progressistas.” O partido vai virar ainda mais à esquerda?
O PS nunca deixou de ser de esquerda. Em certos momentos cometeu erros, mas acho que nas grandes transformações sociais do Portugal democrático — como a União Europeia e o aprofundamento das políticas sociais — esteve sempre presente e do lado certo da História.

Que erros foram esses?
Houve matérias em que talvez pudesse ter feito um esforço de diálogo, levado as questões europeias a um patamar de debate público, como quando se discutiu o Tratado de Lisboa. Noutros momentos, quando tivemos a maioria absoluta, acho que podíamos ter feito mais para criar uma nova cultura de diálogo social. Revejo-me em algumas políticas da ex-ministra da Educação Maria de Lourdes Rodrigues e, no entanto, reconheço que não foram bem comunicadas. Em determinados momentos podíamos ter cultivado ou elencado uma cultura de diálogo.

Mas agora o PS virou à esquerda.
Não rejeito essa dicotomia esquerda/direita. Mas rejeito a dicotomia entre radicalismo e moderação. Prefiro falar de bom senso. O António Costa é uma pessoa extraordinariamente sensata. É das coisas que mais o define. O que está a fazer é a implementar políticas sociais. Quem se afastou foi mesmo a direita. Sobretudo pela forma como implementou políticas austeritárias. Vivemos hoje uma trilogia de sonegação de direitos sociais que tem três vértices: a emigração, o desemprego e a precariedade. Isto na minha geração — e hoje somos jovens até mais tarde — está a ter consequências que nós ainda conseguimos avaliar corretamente. Há de facto uma geração adiada no nosso país. Em Bruxelas encontrei jovens portugueses altamente qualificados. Como é possível não terem oportunidade de trabalho em Portugal? Isto vai ter consequências negativas para o nosso país. O que António Costa está a fazer é restituir os direitos sociais. Nem se pode dizer que isso é de esquerda ou de centro esquerda. Está a fazer o que é sensato depois de quatro anos de uma enorme privação de direitos. Acho que vai ficar na História como o melhor primeiro-ministro de Portugal. Digo isto com muita lucidez e como grande admirador de António Guterres.

A geringonça dura quanto tempo?
Tem condições para durar a legislatura. A princípio tinha dúvidas, não em relação à solução mas que viesse a acontecer. Há condições para a geringonça durar quatro anos, se todos cumprirem a sua palavra. Há um programa de Governo, esse programa teve apoio, e se for concluído e concretizado com sucesso a geringonça tem condições para chegar até ao fim.

Dentro do PS é difícil puxar para a esquerda?
Há vozes dissonantes. Há a voz de Francisco Assis, que do ponto de vista pessoal estimo e considero mas que tem uma perceção errada do que está a acontecer em Portugal. Tem um posicionamento político que não é o meu. Cada vez que o oiço falar mais tenho a certeza de que não me identifico com o pensamento dele. Nas últimas legislativas, o PS estava na interceção de duas retas: a defesa do Estado social e o projeto europeu e sua reforma. O peso dessa dimensão, desse patamar de defesa do Estado social, permitiu esta aproximação à esquerda. Permitiu encontrar uma solução em que cada partido sabe quais são os seus pontos de entendimento e quais são os seus pontos de desentendimento. A geringonça explica-se muito por aí, foi o PSD que extremou a sua posição.

A JS levou três moções ao congresso que dividem a sociedade. As causas fraturantes são da esquerda?
Devem ser de todos. A esquerda tem um património insubstituível no aprofundamento histórico e cultural, onde se inserem as chamadas causas fraturantes. Mas há diferenças entre a esquerda. O PCP não tem a mesma abordagem que tem o PS ou o BE. Dentro dos socialistas, são estruturantes. E não são apenas da JS, mas sem a Juventude Socialista não estariam hoje concretizadas na sociedade portuguesa. Teve um papel insubstituível em alavancar dentro do PS.

Alguma destas propostas avança?
A preocupação de fundo subjacente a essas propostas merece uma concordância geral dos socialistas, particularmente na questão dos salários justos e do trabalho sexual. Há um entendimento profundo dos fenómenos que motivam estas propostas. Não tenho a mais pequena dúvida de que qualquer socialista defende que um trabalhador do sexo tenha direitos sociais, tenha proteção social. Independentemente da solução concreta que se possa encontrar.

Qual é a que gera maior consenso dentro do partido?
No debate quinzenal, o primeiro-ministro referiu-se aos salários justos, mostrando uma abertura que é notória. Não consigo, através de um barómetro, dizer se as pessoas concordam mais com uma ou outra proposta. Sei que tive mais feedback positivo, com muitas pessoas a virem falar comigo, sobre a proposta dos salários justos. Hoje, ninguém entende as desigualdades salariais com a proporção que vemos ser praticada. Com os jornais todos os dias, e bem, a darem conta das desigualdades e desproporções na forma como os lucros são distribuídos e como a política salarial é implementada dentro de uma empresa. Esta é a proposta mais inovadora, é a primeira vez que a JS defende uma proposta com esta metodologia, com esta configuração. A JS tinha obrigação de dar o primeiro passo, para que o PS seja obrigado a refletir sobre esta matéria, que admito, em determinadas circunstâncias, possa ser desconfortável. Pode ter um enquadramento jurídico nesta legislatura. Ainda assim, para mim, aquela sobre a qual seria mais fácil de chegar a um entendimento imediato seria a do trabalho sexual.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016