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‘Canudo’: Relvas pondera recorrer

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“Nunca precisei do curso”

Luis Barra

Ex-ministro não exclui fazer a cadeira que falta. Relvas perdeu o “canudo”. Mas não perdeu clientes

Miguel Relvas pondera recorrer da decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa que lhe anulou a licenciatura. O ex-ministro, para já, não quer falar. Mas nos últimos dias ouviu amigos e juristas e foi aconselhado a recorrer, nomeadamente por ex-ministros da Justiça, que o alertaram para o facto de a aferição dos créditos universitários ser discricionária. Relvas ainda não decidiu o que fazer, e também não exclui fazer a cadeira que justificou a anulação do curso.

Segundo a decisão judicial, Miguel Relvas perde a licenciatura por ter sido aprovado em Introdução ao Pensamento Contemporâneo sem frequentar as aulas (a cadeira não constava, aliás, do plano do curso) e por a sua classificação “não resultar, como devia, da realização de exame escrito”, mas sim “da discussão oral de sete artigos de jornal”.

Exatamente há um ano, numa entrevista à revista E do Expresso, o ex-ministro-adjunto de Pedro Passos Coelho dizia ter-lhe dado “mais trabalho fazer alguns dos artigos do que preparar-me para alguns dos exames”. E achava normal terem-lhe aceite créditos tão sui generis que incluíam a sua experiência profissional no Turismo de Tomar. Agora, que perdeu o “canudo”, Relvas não exclui, como já confessou em privado, ou fazer a cadeira em causa — “talvez um dia” —, ou pedir uma reavaliação dos créditos. Houve quem o aconselhasse a pedir novos créditos com base na sua nova experiência profissional.

E as placas com “dr.”?

Uma coisa parece certa. Se perdeu o “dr.”, o ex-dirigente do PSD não perdeu clientes. Como ex-político, ex-deputado, ex-ministro e atual lobista de negócios na cena internacional, reconhecia na mesma entrevista “nunca ter precisado da licenciatura para chegar onde cheguei”. E nos últimos dias partilhou com amigos a mesma convicção — a perda de canudo não mexe uma palha com a sua influente carteira de clientes. Continua a queimar milhas de avião entre vários continentes, da Europa à América Latina, passando por África e Ásia.

Na altura, perante a pergunta do Expresso — “Como devemos tratá-lo? Por Miguel Relvas ou por dr. Miguel Relvas?” — o entrevistado respondia: “Como sempre me trataram. Se querem ir à licenciatura vamos já. O que pretendi foi acabar o curso que tinha iniciado. Estava numa fase da vida em que tinha tempo. Não conhecia ninguém. Apresentei o meu currículo e cumpri escrupulosamente”. O tribunal acha que não. E o seu ex-colega de Governo e ex-ministro da Educação, Nuno Crato, também torceu o nariz ao seu programa de curso, ao apresentar à Procuradoria -Geral da República a queixa que terminou na anulação da licenciatura.

Como “dr. Miguel Relvas”, o ex-ministro de Passos chegou a ver o seu nome gravado em chapas de locais que inaugurou. Fonte próxima diz que compete agora aos autarcas locais decidirem se querem retirá-las depois de o “dr.” do ex-governante ter caído. Afastado das lides partidárias desde o último Congresso do PSD, quando saiu do Conselho Nacional, o último cargo que aceitou depois de deixar o Governo, Relvas passa pouco tempo em Lisboa. E nunca se soube para que empresas trabalha.