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Dois dias para fazer diferente de Cavaco

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Gregório Cunha / Lusa

Marcelo plantou uma árvore, ouviu desabafos de lesados do Banif, assistiu ao desfraldar da bandeira do Daesh na Assembleia Legislativa e tirou selfies sem nunca vacilar no sentido político que quis dar à visita oficial à Madeira: fazer diferente de Cavaco

Marta Caires

Jornalista

As flores jaziam aos pés da estátua da Autonomia e já a parada de bombeiros tinha desmobilizado quando Susan, portuguesa nascida na África do Sul, se aproximou do Presidente da República, não era para tirar uma fotografia, nem para beijos, o que a trazia ali era o Banif e vinha em desespero, queria uma esperança, até falou em se matar. Marcelo ouviu, abraçou e beijou não fosse o presidente dos afetos.

E ali, na Avenida do Mar, a marginal do Funchal, não faltaram oportunidades para expressar o afeto a uma madeirense que ficou sem casa nas cheias de 2010, para falar a turistas e tirar fotografias e selfies com quem pediu. O Presidente sorridente e disponível não perdeu o sentido político da visita oficial à Madeira. Antes do primeiro contacto com populares, tinha já presidido à sessão solene do Dia da Região na Assembleia Legislativa.

No parlamento que considera ser o "mais plural e mais criativo do país", o mais alto magistrado da Nação ouviu todos os partidos que, à vez, subiram ao palanque para falar de autonomia, para lembrar os tempos sombrios que vivem os emigrantes madeirenses no Reino Unido e na Venezuela e deixar um ou outro pedido ou sugestão.

E até assistiu, sem se perturbar, ao protesto do deputado do PTP que exibiu uma bandeira do Daesh e ao discurso de Gil Canha, independente, que aproveitou o momento para falar da besta que devora a paisagem e defeca marinas e betão. Na sessão recebeu ainda o pedido do presidente do Parlamento madeirense para fazer do mandato "o do Presidente que reavivou o pensamento, o estudo e o exercício da democracia".

Marcelo, o mesmo que na Quinta Vigia - a residência oficial de Miguel Albuquerque - plantou uma árvore e deixou uma mensagem para o neto Francisco ler daqui por 25 anos - nunca perdeu o rumo que quis imprimir à visita oficial à Madeira: fazer diferente, sobretudo fazer de modo diverso do antecessor. E, à margem da agenda oficial, encontrou tempo para estar na inauguração das novas instalações do Diário de Notícias da Madeira, jornal considerado hostil nos tempos de Jardim.

A passagem pelo jornal não foi inocente, tal como foi simbólico ter presidido à cerimónia de atribuição de insígnias a figuras públicas da Madeira. Tolentino Nóbrega e Lília Bernardes, jornalistas e antigos correspondentes do Público e do Diário de Notícias, receberam distinções a título póstumo. Alberto João Jardim, o ex-presidente do Governo Regional da Madeira, faltou a esta parte do programa das celebrações do Dia da Região.

O homem que mandou na Madeira durante décadas e influenciou até decisões de presidentes da República - Cavaco nunca foi à Assembleia e chegou a receber os partidos da oposição num hotel - não concordou com a atribuição de distinções a pessoas que considera ser inimigas da autonomia. Uma opinião que não alterou o programa presidencial, pois Marcelo Rebelo de Sousa também deixou claro que a "a política faz-se empatias entre os agentes políticos" e poder regional é liderado por Miguel Albuquerque.

A visita, que continua este sábado no Porto Santo, continuou como estava prevista e sempre com Marcelo à procura dos contactos, dos beijos, das fotografias e de conversas à porta das lojas ou num banco de rua com duas senhoras para falar de tudo e até de quanto tempo estará em Belém. Afinal, como fez questão de sublinhar, " a política faz-se de pessoas, com pessoas e para as pessoas".