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“Com mais mobilização nas ruas teremos uma esquerda diferente”

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António Pedro Ferreira

Entrevista a Jorge Costa, deputado do BE

No fim de semana em que o BE realiza em Lisboa a X Convenção, um dos vice-presidentes da bancada e dirigente nacional, olha para o partido, as relações com o Governo e na esquerda, o que falta fazer no país e os desafios de Portugal na Europa.

Como vê o plano de recapitalização da Caixa apresentado pelo Governo?
É uma boa notícia para o sistema financeiro. Precisamos de um banco público sólido, mas que se distinga daquele que tivemos até agora: uma Caixa demasiado parecida com as políticas de crédito fácil e concentrada no negócio do imobiliário, que abandonou a economia produtiva.

Para o Bloco há limites à recapitalização?
Claro que sim. Cada uma das parcelas tem de ser explicada. O BE não dispõe da mesma informação que as Finanças. E temos um critério político. No caso do crédito malparado e do crédito de grande dimensões é necessário um esclarecimento profundo.

Defendem uma auditoria forense. Entretanto, o Governo determinou outra auditoria. Como vê esta iniciativa?
Vem ao encontro das propostas do BE: que, além das imparidades, devem ser apuradas responsabilidades pelos créditos empresariais ruinosos. Uma auditoria pode aceder a informação que escapa a uma comissão, sobretudo sendo um banco em funcionamento. Mas não haverá duas auditorias. A do Governo é robustecida pela aprovação parlamentar da nossa.

A Convenção do BE também afirmará a satisfação (como aconteceu no Congresso do PS) pelo estado de graça na esquerda?
A Convenção está concentrada no que falta fazer. Após anos de austeridade e de devastação, é natural que o país sinta alívio, quando há mudança, mesmo que tímida, de orientação política. Queremos sobretudo acelerar e levar mais longe a recuperação dos rendimentos e a dignificação do Estado social.

As relações com o PCP não têm sido tão profícuas como com o PS. Tem havido atritos e até arrufos...
As diferenças com o PCP são as de antes das eleições. Não queremos fazer um ranking dos melhores amigos na esquerda. Com o PS temos uma divergência essencial sobre a renegociação da dívida e o relacionamento com as instituições europeias. Com o PCP temos uma leitura diferente da natureza de alguns regimes políticos, e posições diferentes sobre liberdades individuais. Mas o que faz a história da atual maioria parlamentar são as convergências.

Faz parte de um dos seis grupos de trabalho entre o BE e o PS. Já se partiu pedra suficiente que permita haver propostas comuns para o próximo Orçamento do Estado (OE)?
Há vários grupos que estão a chegar a conclusões positivas sobre matérias que podem ser relevante em ternos orçamentais.

Onde há mais avanços?
Nos temas da energia, fiscalidade, precariedade e habitação.

Curiosamente, nessa lista não consta o tema da sustentabilidade da dívida externa. É o principal ponto a dividir o Bloco do PS?
No final todos os grupos irão apresentar resultados positivos e concretos.

No caso da dívida externa, o que poderá ser um resultado positivo?
Propostas para a gestão da dívida pública portuguesa.

Inclusive de renegociação da dívida?
[Silêncio] Esperamos que sim. Esse é um dos debates mais complexos que atravessa a maioria, não há que o disfarçar.

O que será mais difícil de negociar no próximo OE? E quais as batatas quentes?
É difícil prever. Há um conjunto de circunstâncias económicas que podem ter grande impacto. Mas há um critério político sobre o qual assenta a maioria parlamentar: perante dados inesperados, a resposta não passará por novos cortes salariais ou de pensões e de nova carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho e bens essenciais. Já a batata quente, é a de sempre: a recuperação de rendimentos da população que vive abaixo da linha de pobreza ou em risco de pobreza.

E o investimento?
Depende de uma margem de manobra financeira que só pode ser conseguida...

... pela renegociação da dívida?
... a partir da renegociação da dí- vida. E de medidas corajosas no combate às rendas excessivas, de que continuam a beneficiar sectores muitos importantes do capital, como a saúde e a energia. Uma política que reveja os erros cometidos pelo bloco central ao longo dos últimos 20 anos libertaria recursos importantes para o investimento.

O Bloco tem apresentado muitas propostas nas chamadas causas fraturantes. Há lógicas difíceis de perceber. Para o BE, um jovem de 16 anos pode mudar de sexo. Mas com a mesma idade não pode participar em espetáculos tauromáquicos...
Aos 16 anos um cidadão já pode assinar um contrato de trabalho, pagar impostos, pode ser preso e até mobilizado em caso de guerra. É justo poupá-lo à participação em touradas...

E se ele quiser participar? O Bloco sente-se no direito de o impedir?
O Bloco limitou-se a propor que se aplique às touradas a classificação etária normal dos espetáculos extremamente violentos.

Há dois anos, o BE passou por uma crise profunda. Agora as duas principais correntes têm uma moção conjunta à Convenção. Enterraram de vez o machado de guerra?
Sim. A atual direção do BE fez a sua coesão política nos momentos difíceis, não nos fáceis. O que nos tornou muito fortes para irmos mais longe.

O BE está a trabalhar com o PS, mas quer ultrapassar o PS do ponto de vista eleitoral?
Com certeza.

Como se passa de 10% para mais de 30%?
O BE está fazer à vista de todos um trajeto político de colaboração com o PS que mostra que nunca foi por causa do Bloco que os socialistas governaram à direita. Estamos a propor outros caminhos, diferentes daqueles que este Governo está a fazer. Caminhos mais avançados, mais corajosos, mais consequentes. É nessa disputa que queremos ganhar maioria. Temos um programa que serve para disputar a hegemonia na esquerda e no resto da população.

Acredita no surgimento em Portugal de uma réplica do Unidos Podemos (uma aliança das forças à esquerda do PS, numa plataforma eleitoral)?
[Longo silêncio] A esquerda espanhola tem tido ao longo dos anos uma experiência de convergência, a portuguesa não. O presente acordo é uma exceção. Estes primeiros nove meses permitiram-nos aprender muito em termos de colaboração. Espero que o exemplo espanhol possa ser inspirador para que esse diálogo se possa desenvolver. Em Portugal, se houver uma experiência, comparável à espanhola, de mobilização social nas ruas e de exigência de novos patamares de conquista perante o governo, e um diálogo que seja mais abrangente e vá mais além do das direções partidárias, certamente que teremos uma esquerda diferente.

Essa mobilização das ruas não pressupõe que a direita volte ao poder?
Não, nem pensar nisso. Essa dinâmica reivindicativa até é uma condição sine qua non para a direita não voltar ao poder. Sem um movimento social presente, e que seja um contrapeso inclusivamente à pressão europeia, e que imponha uma agenda mais ambiciosa do ponto de vista social, sem isso, os riscos de estagnação desta maioria e deste Governo aumentam.