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Se Podemos chegar ao Governo, Espanha fecha Almaraz

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Miguel Urbán, representante do Podemos

José Caria

A garantia foi dada à Convenção do Bloco de Esquerda por Miguel Urbán, representante do Podemos. Esta intervenção foi o primeiro momento arrebatador da reunião, então atravessada por um certo internacionalismo revolucionário

“Uma das nossas primeiras medidas será fechar Almaraz”, para de seguida acabar com as restantes centrais nucleares de Espanha. A promessa foi feita aos delegados à X Convenção do Bloco por Miguel Urbán, eurodeputado eleito pelo Podemos e seu alto dirigente que o partido-irmão do BE enviou a Lisboa.

Recebido pela palavra de ordem “Si, se puede!” (lema do Podemos), Urbán encerrou a sua intervenção com a referência a Almaraz (central nuclear cujo fecho o BE reivindica), deixando ao rubro uma sala que nessa altura o aplaudiu de pé. Foi a primeira vez que tal aconteceu nesta Convenção.

O político espanhol, que além de deputado ao PE é peça importante na máquina do Podemos (foi um dos principais obreiros da articulação entre o movimento dos Indignados e Pablo Iglesias), defendeu uma outra Europa, uma visão compartilhada pelos bloquistas.

Urbán quer “um projeto europeu do qual nenhum povo queira sair e do qual não se possa expulsar nenhum povo”. Um recado à medida das lições do Brexit e do esmagamento que Bruxelas e Berlim fizeram ao Syriza (“Nuestros hermanos griecos”, como lhes chamou).

O Podemos (que concorre às eleições espanholas de amanhã ao lado da Esquerda Unida, na coligação Unidos Podemos) acredita que vai receber a confiança dos eleitores e que pode chegar ao Governo de Madrid.

A partir da Moncloa, vai lutar contra as “políticas racistas, indignas e xenófobas” que Bruxelas tem imposto. “E são essas políticas que alimentam a extrema-direita”, acrescentou.

“Antifascismo?” Sim, “socialismo” e “poder popular”.

Chegado aqui, e neste momento da vida europeia, a mensagem do representante do Podemos (com um discurso vibrante, em castelhano, do princípio ao fim) é muito claro, ao proclamar “uma proposta democrática e a antifascista” para a Europa.

Há, de facto, uma semântica e uma realidade política (que até há pouco tempo se julgavam condenadas aos arquivos) a ganhar o palco em alguns países da Europa.

Miguel Urbán continuou a desfiar alguns desses conceitos agora recuperados. Um deles é a palavra “socialismo”, que o político do Podemos prometeu “levar a Hollande e a Pedro Sánchez”.

O Presidente francês, outro socialista como Sánchez, havia estado antes na berlinda, quando Urbán exaltou a luta dos “trabalhadores franceses contra a reforma laboral”. A sua “vitória” será também a “vitória dos trabalhadores portugueses, espanhóis” e de outros países, para assim se “construir uma Europa diferente”.

A menos de 24 horas de os espanhóis começarem a votar, quando as sondagens dão algumas possibilidades de vitória ao Unidos Podemos e de uma maioria de deputados em conjunto com o PSOE, Miguel Urbán está confiante da vitória. “Amanhã o nosso povo não vai ver a História pela televisão. Vai escrevê-la. A História, escrevem-na os povos”, disse, para depois concluir: “Queremos construir um poder popular”.

Com esta carga de internacionalismo revolucionário, foi a Convenção do BE interrompida para almoço. Entre o discurso entusiasmado de Urbán e tudo o resto que se sabe (e sobretudo que não se sabe) das consequências do Brexit para a União Europeia. É entre aqueles dois extremos que os trabalhos serão retomados da parte da tarde, para discussão das várias moções.

Não são esperadas grandes novidades nem polémicas, numa Convenção em que a moção A, das duas principais correntes do Bloco (a Plataforma Unitária, de Catarina Martins, e a Esquerda Alternativa, de Pedro Filipe Soares), fez eleger mais de quatro quintos dos delegados.

E sem honras de ser assunto para subir ao palco, na preocupação de muitos, de jornalistas a delegados, está a atenção ao relógio. É que às oito da noite joga Portugal e não fará muito sentido que os trabalhos de hoje prossigam além dessa hora.

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