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PS perde eurodeputada mais influente

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Luís Barra

Elisa Ferreira deixa o cargo de eurodeputada para assumir funções de administradora no Banco de Portugal. Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu, e Pierre Moscovici, comissário europeu dos Assuntos Económicos, falam em perda para o Parlamento Europeu e em mais valia para o Banco de Portugal. Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia, e eurodeputados de outros partidos referem a boa cooperação, apesar das divergências de opinião

“É absolutamente uma perda”, diz o presidente do Parlamento Europeu sobre a partida de Elisa Ferreira de Bruxelas, oficialmente marcada para esta segunda-feira. Para Martin Schulz, o grupo dos socialistas europeus, aos quais também pertence, perde uma peça importante. “É António Costa - e o seu Governo - quem ganha uma mulher muito competente. Para nós será uma perda”, diz, referindo-se à ida da economista para o Banco de Portugal.

A visão é partilhada por outro socialista, o comissário para os Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, que fala de “uma amiga que nunca se acomoda” e conhece em profundidade os dossiês económicos. Elisa Ferreira e Moscovici já foram eurodeputados ao mesmo tempo mas no último ano e meio defenderam o interesse de instituições diferentes. “Será um ganho para o Banco de Portugal, mas será uma perda para o Parlamento”, diz o comissário ao Expresso.

Elisa Ferreira foi, nos últimos anos, coordenadora dos socialistas europeus na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários (ECON). “O que significa que foi responsável por delinear a posição do segundo maior grupo político em questões relacionadas com o Semestre Europeu ou propostas para aprofundar a União Económica e Monetária”, explica o vice-presidente da Comissão Europeia para a área do Euro.

Valdis Dombrovsksis - que pertence ao Partido Popular Europeu, de centro-direita – conta que trabalhou em diversas ocasiões com a eurodeputada portuguesa: “por vezes os nossos pontos de vista divergiam, mas estabelecemos uma cooperação em que as duas partes estavam abertas para o diálogo”.

Com a saída de Elisa Ferreira, o PS perde o importante lugar de coordenação na ECON, que passa para as mãos de Pervenche Berès, do Partido Socialista francês. A eurodeputada do Porto está entre os portugueses mais influentes – senão a mais influente – no Parlamento Europeu. Teve em mãos alguns dos dossiês de maior peso, como os chamados Six Pack e Two Pack, que reformaram as regras da zona euro, e participou na legislação do Mecanismo Único de Supervisão e da União Bancária.

O Partido Socialista terá agora de se reposicionar e encontrar espaço de destaque nos dossiers económicos, dentro do Parlamento Europeu. O socialista Manuel dos Santos é o eurodeputado que se segue e que irá para Bruxelas ocupar o lugar deixado vago. No entanto, quem deverá ficar com o lugar na ECON e com a pasta das questões económicas e monetárias é Pedro Silva Pereira.

A eurodeputada francesa Sylvie Goulard diz que “não vai ser fácil substituí-la”. Do grupo dos liberais – o mesmo de Marinho e Pinto e de José Inácio Faria –, Sylvie trabalhou com Elisa Ferreira em mais de uma dezena de relatórios. Diz que o mais difícil foi o Six Pack. “O grupo socialista não votou no texto que era da minha responsabilidade, mas isso não me impediu de votar no relatório da Elisa, que dava à Comissão as ferramentas para lutar contra os desequilíbrios macroeconómicos. O texto dela era difícil, mas muito construtivo e virado para o futuro”.

Os elogios vêm também de outros grupos políticos. Gunnar Hokmark elogia-lhe a personalidade, a energia e “a grande integridade”. Nem sempre estiveram de acordo, nem podiam. O sueco é de centro-direita e senta-se na bancada do Partido Popular Europeu. Os dois trabalharam juntos na reforma das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

“O Pacto de Estabilidade que temos agora está a contribuir para a economia. Eu acho que os socialistas não estão muito contentes com ele. Acho que gostariam de gastar mais dinheiro, mas gastar dinheiro não traz mais dinheiro”, diz ao Expresso. Hokmark e Elisa Ferreira divergiram várias vezes nos pontos de vista, mas o sueco assegura que, no final, foi uma boa cooperação. “Ela consegue ver o ponto de vista dos outros, mas também defender as dela”, conclui.

O alemão Sven Giegold, coordenador do grupo dos Verdes, também não poupa nos elogios à forma de trabalhar da economista portuguesa. “Para Portugal e para o grupo dos socialistas, perde-se uma influência política”, diz ao Expresso. “Mas acho que vai ser uma mais valia no Banco de Portugal”, contrapõe.

A expectativa aumenta também em relação ao que Elisa Ferreira poderá vir a fazer no Banco de Portugal. “Passará a ser a pessoa que no banco de Portugal melhor conhece a legislação europeia e os mecanismos da supervisão bancária”, diz Marisa Matias, a eurodeputada do Bloco de Esquerda, que é também coordenadora da ECON, mas para o grupo da Esquerda Unitária.

“A esse respeito poderá ser provavelmente das pessoas mais qualificadas e não terá problemas em garantir que há uma supervisão mais ativa por parte do Banco de Portugal e que não voltamos a cair em situações como caímos nos últimos anos”, acrescenta, referindo-se aos sucessivos resgates de bancos portugueses.

“Alguém que contribuiu tanta para criar o quadro legislativo da União Bancária e que entra agora num banco central é algo que favorece este banco central”, diz também Martin Schulz.

A saída de Elisa Ferreira do Parlamento Europeu está marcada para esta segunda-feira. Só depois assume funções de administradora no Banco de Portugal.