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Os anos ruinosos da CGD

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Nuno Fox

Os créditos e os investimentos mais problemáticos em Portugal e Espanha remontam ao período entre 2005 e 2010 e resultaram em perdas de €6 mil milhões

O pior período de erros de gestão na Caixa Geral de Depósitos (CGD) concentrou-se entre 2005 e 2010. Empréstimos de dezenas de milhões de euros, ou por vezes mesmo de centenas de milhões de euros, concedidos com garantias frágeis, investimentos em aquisições de participações sociais e uma elevada exposição, através de crédito, a empresas espanholas que se relevou ruinosa, foram algumas das decisões que estão ainda hoje a pesar nas contas da Caixa.
Acresce a este cenário uma investida no mercado brasileiro — um banco e uma corretora —, onde a Caixa acumulou prejuízos nos últimos anos. E uma operação em Espanha que se tornou desastrosa, obrigando inclusive à criação de uma espécie de ‘banco mau’, para separar os créditos tóxicos da atividade bancária e embelezar o banco. Espanha teve prejuízos de €488,4 milhões em 2011, devido a provisões e imparidades no valor de €1,6 mil milhões.
Foram anos de euforia. José Sócrates era primeiro-ministro. Carlos Santos Ferreira e Armando Vara lideravam a Caixa, como presidente e administrador, respetivamente, onde estiveram entre 2005 e 2008. Saltaram depois para a administração do BCP. Foi um período de boom de crédito para investimentos mais arriscados e especulativos — houve vários empréstimos para compra de ações e foi nesta altura que a CGD emprestou quase €300 milhões para o empreendimento turístico de Vale de Lobo (um projeto liderado por Hélder Bataglia), tornando-se acionista. Um negócio que remonta a 2006 e que está a ser investigado.
Fernando Faria de Oliveira sucedeu a Santos Ferreira, ficando no cargo até 2011. Foi o antigo ministro do Comércio e Turismo de Cavaco Silva quem, entre 2005 e 2007, impulsionou a operação da Caixa em Espanha. O grosso dos investimentos no país vizinho foi feito entre 2006 e 2007. Alguns deles com o apoio do banco de investimento da Caixa, o Caixa-BI, liderado então por Jorge Tomé, mais tarde presidente do Banif. Rodolfo Lavrador, hoje na operação da Caixa em Nova Iorque, era o administrador responsável pela área internacional.


Créditos problemáticos

O banco público participou na ‘festa’, mas não foi o único. Muitos dos créditos problemáticos feitos naquela época foram transversais aos maiores bancos e tiveram a participação simultânea do BCP e do antigo BES. Um dos exemplos mais emblemáticos deste tipo de crédito foi o empréstimo concedido a Joe Berardo. Caixa, BCP e BES emprestaram em conjunto cerca de €1000 milhões ao carismático investidor madeirense para que este comprasse ações do BCP. Ao banco público coube cerca de €360 milhões. Hoje este investimento está praticamente reduzido a pó, com consequências significativas no balanço dos bancos. A garantia eram as próprias ações do BCP, que agora valem menos de dois cêntimos.
Tornou-se uma prática recorrente emprestar dinheiro para investir na Bolsa. A guerra de poder no BCP foi também alimentada a crédito pelos três referidos bancos. Berardo não foi caso único. Outros investidores usaram este expediente. A Ongoing, que já tinha sido financiada por este trio de bancos para entrar na PT, foi um deles. Hoje encontra-se em insolvência, com uma dívida superior a €1000 milhões.
Foram vários os créditos do banco público que deram para o torto. Numa lista sobre os maiores devedores, noticiada pelo “Correio da Manhã”, voltam à ribalta operações que já fizeram manchete. O relatório de 2015 refere que há mais de €2,3 mil milhões de empréstimos em risco de não serem pagos. O maior devedor é a Artlant, projeto da empresa espanhola de petroquímica La Seda, de Barcelona, onde a CGD foi acionista (14,77%) e a quem emprestou €476 milhões. Construiu uma fábrica em Sines, que ainda funciona, apesar de a La Seda ter entrado em insolvência. Segue-se a Efacec, com um crédito de €303 milhões, Vale de Lobo, Auto-Estradas Douro Litoral (€271 milhões), Grupo Espírito Santo (€237 milhões), Grupo Lena (€225 milhões) e António Mosquito/Soares da Costa (€338 milhões), entre outros. São créditos tóxicos que já geraram imparidades superiores a €1000 milhões.

Artigo originalmente publicado na edição semanal de 18 de junho