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Guterres: “A UE sem o Reino Unido é muito menos relevante”

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Getty

“O papel da Europa não é comparável ao que era no século XIX ou no início do século XX, por isso quando o Reino Unido adere à Europa continental não é um jogo de vencedores e vencidos. Penso que ambos influenciam as decisões sobre o futuro da Europa”, defendeu António Guterres, em entrevista à CNN

O antigo primeiro-ministro português e candidato a secretário-geral da ONU, António Guterres, disse em entrevista à CNN que o Reino Unido e a União Europeia (UE) serão ambos mais relevantes se permanecerem unidos.

"As relações de poder têm mudado. O papel da Europa (hoje) não é comparável ao que era no século XIX ou no início do século XX, por isso quando o Reino Unido adere à Europa continental não é um jogo de vencedores e vencidos. Penso que ambos influenciam as decisões sobre o futuro da Europa", afirmou António Guterres, na entrevista disponível esta sexta-feira no 'site' da CNN.

"E, em segundo lugar, uma União Europeia sem o Reino Unido é muito menos relevante no mundo atual do que uma União Europeia com o Reino Unido. E o Reino Unido sozinho terá dificuldades em ter uma grande influência no que são os assuntos globais no mundo atual", acrescentou.

Os britânicos devem votar no próximo dia 23 de junho para decidir se permanecem ou não na UE.

António Guterres, que liderou a agência da ONU para os refugiados, falou também sobre a influência da questão da imigração na atualidade, incluindo no debate no âmbito do referendo sobre a permanência da Grã-Bretanha no seio da União Europeia.

"Penso que este debate tem sido fortemente influenciado sobre o que aconteceu no ano passado. De repente a Europa foi confrontada com um grande número de pessoas a chegar, especialmente à costa da Grécia. O facto é que a Europa não estava preparada para isso (...) e teve dificuldades em dar uma resposta concertada para gerir a situação", afirmou.

O ex-responsável do ACNUR defendeu que a Europa teria dado uma melhor resposta se tivesse havido "uma adequada monitorização dos migrantes, incluindo ao nível da segurança, e depois uma distribuição de acordo com as possibilidades dos diferentes países europeus, sem as pessoas a movimentarem-se de forma caótica através dos Balcãs".

Por outro lado, considerou que "por vezes, o debate sobre as migrações é muito irracional".

"As migrações acontecem desde sempre. Na minha opinião, as migrações são parte da solução para os problemas globais num continente como a Europa, onde temos índices de fertilidade em muitos países abaixo de 1,5%", sublinhou.

Na entrevista à CNN, António Guterres falou também sobre a adesão da Turquia à União Europeia, afirmando que "infelizmente", este cenário está mais longe de se concretizar do que há alguns anos.

Ao falar dos condições impostas para a adesão ao bloco europeu, assentes na ideia da construção de uma sociedade democrática moderna e no respeito pelas minorias, entre outros, Guterres disse acreditar que "a dada altura, a mensagem de vários países europeus foi a de que mesmo se a Turquia cumprisse todos esses critérios, provavelmente nunca conseguiria aderir à União Europeia".

Questionado sobre o crescimento do nacionalismo e do populismo na Europa, Guterres observou a perda de valores como a tolerância: "A sociedade está a ficar multiétnica, multirreligiosa e é preciso perceber que isto é algo positivo, que a diversidade é enriquecedora, não uma ameaça", disse.

"As sociedades estão em risco de perderem o seu caráter de diversidade na harmonia, e por isso penso que é necessário ter um grande investimento na coesão social, em solidariedade, e em criar as condições para as diferentes comunidades de um país terem um sentimento de pertença", adiantou.

"Ao mesmo tempo é necessário ser muito firme em sublinhar os valores contra a xenofobia, contra a intolerância e também contra o extremismo", concluiu Guterres, que esta semana lançou o site oficial da sua candidatura a secretário-geral da ONU.