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Artilharia portuguesa com ordem de marcha para o flanco Leste da NATO

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Quase 600 militares serão enviados além-fronteiras, em cinco novas missões, durante o segundo semestre deste ano

Ana Baião

Uma bateria de artilharia de campanha, constituída por 116 militares, atualmente em fase de aprontamento no Regimento n.º 4, em Leiria, será destacada para a Lituânia, flanco Leste da NATO, onde russos e aliados estão a reforçar a sua presença militar. Mas durante o segundo semestre deste ano, Portugal também estará a combater o tráfico de seres humanos no Mediterrâneo e a contribuir para estabilidade política no Mali e na República Centro-Africana, integrados em missões das Nações Unidas

Carlos Abreu

Jornalista

Uma bateria de artilharia e uma companhia de infantaria, um submarino e uma fragata com destacamento do helicóptero Lynx, um avião C-130. 584 militares, sobretudo da Marinha e do Exército. São estas as forças armadas que Portugal irá destacar além-fronteiras durante o segundo semestre deste ano, somando-se aos cerca de 250 militares que continuarão destacados no Kosovo (190), no Iraque (41), no Afeganistão (11) ou na Somália (7). Mas vamos por partes.

Das cinco novas missões planeadas – do Báltico ao Mali, passando pelo Mediterrâneo – os primeiros a seguir viagem, prevista já para julho, são os 149 militares do Exército que sob o comando do major de Infantaria Musa Paulino serão entregues como força de reação rápida no âmbito da missão de estabilização das Nações Unidas na República Centro-Africana, Minusca.

Para este teatro de operações deverão seguir, entre outros meios, uma viatura tática blindada de transportes de pessoal, com capacidade para transportar uma equipa de Comandos equipada e armada bem como uma viatura tática ligeira de assalto com elevado poder de fogo em 360 graus, ao serviço do Exército desde 2011.

No início de maio, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, informou que a participação portuguesa na Minusca, durante um ano, estava orçamentada em 5,5 milhões de euros. Atualmente, Portugal tem destacados oito militares em Bangui, capital desta antiga colónia francesa, no âmbito de uma missão da União Europeia (EUMAM).

Desde 2013, ano em que os Séléka, o grupo rebelde dominante composto por membros da minoria muçulmana conquistaram Bangui, que os confrontos com as diversas milícias cristãs já fizeram milhares de mortos e dezenas de milhares de refugiados. Quando visitou o Exército em 24 de maio, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prometeu visitar “até ao final do ano” o destacamento português.

Quando visitou o Exército a 24 de maio, Marcelo Rebelo de Sousa tirou uma fotografia com os 149 militares que em julho seguem para a República Centro-Africana e lembrou que não estarão isentos de riscos porque "não há missões sem riscos"

Quando visitou o Exército a 24 de maio, Marcelo Rebelo de Sousa tirou uma fotografia com os 149 militares que em julho seguem para a República Centro-Africana e lembrou que não estarão isentos de riscos porque "não há missões sem riscos"

JOÃO RELVAS / LUSA

Escalada bélica no flanco Leste

São também do Exército os 116 militares de uma bateria de artilharia de campanha, atualmente em fase de aprontamento no Regimento n.º 4, em Leiria, que em data ainda a anunciar seguirão para a Lituânia. Estarão no conturbado flanco Leste da NATO, no âmbito das chamadas medidas de tranquilização, durante quatro meses. E a Rússia ali tão perto.

Na terça-feira, os ministros da Defesa dos países que compõem a NATO aprovaram o envio de quatro novos batalhões, formados por 800 militares cada um, para bálticos e para Polónia e na quinta-feira, em entrevista ao jornal alemão “Bild”, o secretário-geral da Aliança Atlântica acusou Moscovo de estar a levar a cabo “manobras agressivas, não anunciadas e de larga escala”, justificando, desta forma, a necessidade de reforçar a presença militar junto à fronteira. “O que estamos a fazer tem caráter defensivo. Não queremos provocar um conflito. Aliás, pretendemos evitar conflitos. Queremos mostrar aos nossos parceiros que estamos presentes quando eles precisam de nós”, disse Jens Stoltenberg ao “Bild”.

Será o regresso do Exército português ao país onde 140 militares (10 oficiais, 34 sargentos e 96 praças) equipados com 42 viaturas (23 das quais Pandur II) pertencentes ao Esquadrão de Reconhecimento do Regimento de Cavalaria nº 6, em Braga, estiveram entre abril e julho de 2015, igualmente ao serviço da Aliança Atlântica naquela que foi segundo Miguel Machado do site “Operacional” “a mais poderosa força blindada que Portugal projetou para o exterior numa missão real desde o final da guerra no antigo Ultramar”. As viaturas seguiram por via marítima e os militares por via aérea.

Recorde-se que até 31 de agosto, Portugal está, no âmbito de uma missão da NATO, a patrulhar o espaço aéreo dos três Estados bálticos (Lituânia, Estónia e Letónia). 89 militares e quatro caças F-16 da Força Aérea estão permanente alerta na Base Aérea de Siauliai, 200 quilómetros a norte da capital lituana, Vilnius.

Destacado no Báltico, está igualmente, desde 9 de junho, o submarino “Tridente” a participar no megaexercício naval Baltops, juntamente com mais 42 unidades navais de 16 países. De acordo com a informação divulgada pelas relações públicas das Forças Navais dos Estados Unidos na Europa, na terça-feira o submarino português, juntamente com um avião P-3 norte-americano, foi encarregue de localizar e seguir um submarino da "força inimiga", neste caso o polaco “Kondor”.

No segundo semestre do ano, a fragata "Álvares Cabral" estará ao serviço da NATO no Mediterâneo integrando uma das quatro forças navais permanentes da Aliança Atlântica

No segundo semestre do ano, a fragata "Álvares Cabral" estará ao serviço da NATO no Mediterâneo integrando uma das quatro forças navais permanentes da Aliança Atlântica

D.R.

“Álvares Cabral” na NATO

No que respeita à Marinha, as duas unidades navais que serão destacas no segundo semestres do ano têm um destino comum, a saber, o Mediterrâneo. Mas se a fragata “Álvares Cabral” com uma guarnição até 210 militares, incluindo o destacamento de helicóptero e uma equipa de fuzileiros, estará ao serviço de uma das forças navais permanentes da NATO (a SNMG1) já o “Arpão” irá submergir com 34 militares a bordo no âmbito da operação da União Europeia EUNAVFOR MED, de combate às migrações clandestinas e ao tráfico de pessoas.

Respeitando os compromissos assumidos com a aliança militar de que Portugal é país fundador, a Armada têm marcado presença ao longo dos últimos anos nas frotas de navios escoltadores. No primeiro semestre de 2015, a SNMG1 foi comandada pelo contra-almirante Silvestre Correia, com o seu estado-maior multinacional embarcado na fragata “D. Francisco de Almeida”, missão que o Expresso acompanhou em exclusivo durante a presença no Mar Negro.

Portugal também tem contribuído regularmente com meios das suas Forças Armadas para a missão EUNAVFOR MED. Até 15 de junho, por exemplo, 29 militares da Força Aérea operaram uma aeronave P-3C desde a base aérea de Sigonella, na Sicília, com o objetivo de “identificar, capturar e neutralizar navios e bens utilizados, ou que possam ser utilizados, pelos traficantes e pelas pessoas suspeitas de estarem envolvidas no tráfico de seres humanos e na migração clandestina”. Ainda de acordo com a Força Aérea, a 17 de maio, por exemplo, esta aeronave “mostrou-se mais uma vez decisiva, em colaboração com outras forças, no resgate de 200 migrantes”.

A Força Aérea regressará em breve ao Mali, um país que já sobrevoou durante dezenas de horas ao serviço das Nações Unidas

A Força Aérea regressará em breve ao Mali, um país que já sobrevoou durante dezenas de horas ao serviço das Nações Unidas

D.R.

Forças Aérea regressa ao Mali

O destacamento mais modesto, medido em número de efetivos, está reservado precisamente para a Força Aérea que regressará ao Mali e à missão da ONU neste país africano, a Minusma, com um avião C-130 da Esquadra 501 “Bisontes” e 75 militares. Atualmente, estão apenas dois portugueses destacados no quartel-general da Minusma, na capital do país, Bamako.

A Força Aérea tem participado regularmente nesta missão de apoio ao processo de paz desde finais agosto de 2014, com aeronaves C-130 e C-295, por períodos entre três e quatro meses e com contingentes a rondar os 40 militares, incluindo paraquedistas especializados em abastecimento aéreo.

Quando a 24 de março o Conselho Superior de Defesa reuniu-se em Belém para “deliberar sobre a participação das Forças Armadas em operações no exterior do território nacional”, do breve comunicado então lido pelo tenente-general José Carlos Calçada confirmou-se apenas a ida para a República Centro-Africana, “enquadrada pelo apoio solicitado pela França a Portugal” e o “reforço da participação nacional com uma aeronave P-3C, a operar a partir de Itália. Informação mais detalhada, ainda que muito resumida e sem datas, só foi encontrada pelo Expresso numa das tendas da Exposição de Meios e Capacidades Militares instalada na Avenida Ribeira das Naus, por ocasião do Dia de Portugal.

O órgão consultivo daquele que é, por inerência, o comandante supremo das Forças Armadas, e que tem por competência legal aprovar as participação dos militares em “missões no exterior do território nacional, num quadro autónomo ou multinacional, destinadas a garantir a salvaguarda da vida e dos interesses dos portugueses”, volta a reunir-se em meados de julho.

Recorde-se que o atual Governo reforçou em cerca de quatro milhões de euros a dotação inscrita no orçamento da Defesa para as forças nacionais destacadas, passando de 52 milhões de euros em 2015 para 56,5 milhões em 2016.