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Vasco Pulido Valente: “Portugal é difícil de reformar, mas é reformável”

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nuno botelho

Antes de lançar um livro que junta crónicas suas dos últimos vinte anos, o Expresso entrevistou Vasco Pulido Valente. Desassombrado, como sempre. Ácido, como sempre

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Texto

Jornalista da secção Política

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Mudou-se para a casa onde viveu com os pais desde os nove anos, na Avenida de Paris, mas as coisas não são o que eram. Na casa, “mudei tudo, isto não era nada assim”. Há muita luz, a entrar pelas três janelas da sala, e vêem-se as árvores. Mas na rua as coisas também já não são como eram. Sobretudo a oferta de restauração. Onde havia a Isaura, há agora um “grill horrível”, e do outro lado da rua, o Cunha, “um restaurante ótimo”, também acabou, numa cidade tomada pela “desgraça” da cozinha de autor.

Em entrevista ao Expresso, na semana em que lançou um livro com crónicas dos últimos 20 anos - “De Mal a Pior” (edição D. Quixote) - Vasco Pulido Valente analisa a situação política, critica Marcelo, antevê ruturas no quadro partidário e fala do salto que se prepara para dar da imprensa escrita (“Público”), "que piorou", para o digital (“Observador”). Embora garanta que goste de Portugal - "da língua, do sol, da comida, e de uma certa complacência geral" -, confessa que se tivesse 30 anos "não tinha saído de Inglaterra". Com um projeto de memórias em mãos, já começou a gravá-las mas não está certo de chegar ao fim: "Eu não sou capaz de acelerar nada" e "não sei quanto tempo vou viver".

Está a lançar um livro com crónicas dos últimos quase vinte anos, vai publicar as suas memórias…
…Isso não sei…

É a indicação que temos da sua editora.
Vou começar a trabalhar daqui a pouco tempo nas memórias. Já está alguma coisa feita, mas agora é que vou começar.

De qualquer forma, há memórias a caminho... A questão é esta: revisitou as crónicas dos últimos vinte anos, está a preparar as memórias e vai deixar de escrever no papel, depois de décadas a escrever em jornais, e mudar-se para um jornal online. Isto tudo junto significa o quê? Que viu a proximidade dos 75 anos e achou que era uma boa altura para arrumar o passado e mudar o futuro?
Não… Eu não faço contas dessas. Bem, faço um bocadinho no que diz respeito às memórias, porque nunca se sabe quanto tempo o livro vai levar e eu não sei quanto tempo vou viver. A idade média a que as pessoas morrem é alta, mas não se aplica a todos os indivíduos…

Mas vai acelerar as memórias, com medo de não ter tempo de as acabar?
Não, eu nem sou capaz de acelerar nada.

Digital. "A minha relação com a internet é quase inexistente"

O que é que o fez aceitar ir para um jornal online [“O Observador”] depois de tantos anos a escrever no papel? O que é que significa para si esse salto?
Eu nunca escrevi num jornal online, portanto tenho uma certa trepidação… Vamos ver como é que corre, se me consigo habituar ao meio… Quanto à saída do “Público”, saí fundamentalmente por discordâncias políticas, não teve nada de pessoal. Eu não concordo com a orientação política do jornal.

Vê-lo sair do papel faz um bocado de impressão, pode até associar-se isso à ideia de que o papel vai morrer. Acha que os jornais em papel vão desaparecer?
Não faço ideia, mas acho uma pena. Até porque há aqueles hábitos todos à volta de ler um jornal em papel.

Continua a ler os jornais em papel?
Sim, continuo. Leio os jornais ao pequeno-almoço, a beber o café, como fiz toda a vida.

Qual é a sua relação com o meio para onde agora vai, com a internet?
É quase inexistente.

Não tem um iPad?
Não.

Desde “O Tempo e o Modo”, passou pelos jornais mais importantes do país, do “Expresso” a “O Independente”, do “DN” ao “Público”, e também colaborou com a TVI. Qual o título que mais o empolgou? Houve algum em que sentisse que tinha mais influência?
Nunca pus a questão assim. Os períodos mais felizes da minha vida de jornalista foram no “O Independente” – não na parte do fim, mas no princípio – e no “DN”, enquanto o Mário Bettencourt Resendes foi diretor.

Sente que a revolução digital tornou o jornalismo melhor ou pior?
Acho que tornou o jornalismo em papel pior. Não estou muito a par do jornalismo que se faz online, aí o pouco que vou lendo, e que é a Margarida [Penedo, a mulher de VPV] que me dá em papel, é normalmente bom, porque ela faz-me uma boa seleção. Quanto ao resto, não sei.

E o que é que piorou no jornalismo em papel?
É muito mais mal escrito. Chega a ter erros de gramática nos títulos, de pontuação e até de ortografia – embora hoje a ortografia seja uma confusão, há erros incontestáveis que aparecem nos títulos.

Paulo Portas. “Apostaria que a carreira política de Portas não acabou"

nuno botelho

Falou de “O Independente”, acha que o jornalismo está acomodado?
Não. Mas acho que está muito mais alinhado politicamente.

Sente que o país precisava de um novo “O Independente”?
Não, “O Independente” não é concebível fora daquela época e daquelas pessoas que o fizeram. Não é replicável.

Porquê? Por causa da liberdade e combatividade que teve?
Por causa da imaginação e da frescura que o jornal tinha.

Quando o Paulo Portas, um rapaz de 25 anos, o convidou para escrever no “O Independente”, alguma vez pensou que ele iria tão longe?
Eu já conhecia o Paulo de antes de “O Independente”. E sempre o achei uma pessoa competente e inteligente.

E achou que ele iria tão longe como foi, ou será que ele não foi tão longe como o Vasco imaginou?
Eu não pus esse problema nessa altura, embora fosse uma evidência que ele ia fazer política.

Ele faz falta na política? Tem pena que tenha saído?
Não, percebo perfeitamente porque é que ele o fez. O país está paralisado e a ação política é à volta de questões que são secundárias ou mesmo supérfluas. A perspetiva de perder tempo numa luta diária, em querelas sem consequência, não faz sentido nenhum. Para uma pessoa que teve a carreira que ele teve isto deve parecer cansativo.

Acha que ele já estava acima disso?
Sim, [já estava acima] daquela politiquice que vemos todos os dias na televisão, [com] questões que não são essenciais ao país.

Mas nem sempre achou isso de Paulo Portas. Nas crónicas reunidas no seu novo livro fica a ideia de que o poupa bastante, mas mesmo assim critica-o. Na fase das coligações com Durão Barroso e Santana Lopes, escreveu que Portas vinha “da escola da intriga” e vivia do “exibicionismo e da demagogia”. Acha que esse Portas já lá vai?
Ele teve muito tempo no Governo e tratou de questões substantivas. Depois disso é difícil voltar a estas lutas de gatos na televisão por coisa nenhuma.

Acha que a carreira política dele acabou?
Isso não sei.

Mas o que é que apostaria?
Apostaria que não.

Apostaria que daqui a nove anos o veremos numa corrida presidencial?
Está a ver o que essa pergunta implica? Que vai haver essa eleição, que tudo vai continuar como está, que os partidos serão mais ou menos os mesmos, etc, etc. O que podemos dizer hoje sobre a situação atual é que ela é indefinida, provisória…

Indefinida ao ponto de poder por em causa os pressupostos da pergunta sobre as presidenciais de 2026?
Indefinida ao ponto de poder por em causa os pressupostos do regime, que podem mudar. A Constituição pode mudar. Os partidos com certeza que vão mudar.

Esquerda. “A esquerda está toda numa posição muito delicada”

Foi o padrinho da expressão “geringonça”, que Portas colou a esta maioria. Que balanço faz destes primeiros meses de governo PS apoiado por BE e PCP?
É um governo paralisado, como o resto do país. Fez umas coisas de superfície, que se calhar beneficiaram uns milhões de pessoas – beneficiaram os funcionários do Estado, aumentaram os rendimentos das pessoas que tinham menos – mas beneficiaram-nas muito pouco. E a austeridade continua. Aquele mantra do dr. António Costa, “acabou a austeridade, vamos virar a página”... Não acabou nada, é uma ilusão, uma forma de propaganda que não é para levar a sério. Os benefícios que o Governo trouxe são tão poucos para a maioria das pessoas, que as coisas ficaram praticamente na mesma.

Sente que o acordo de Costa com o PCP e o BE pode por em causa o PS como o conhecíamos?
Acho que a esquerda toda está neste momento numa posição muito delicada. Eles não podem romper isto, nenhum deles pode ser visto como o partido que rompeu este entendimento. O partido que fizesse isso seria rejeitado por todo o resto da esquerda. Por outro lado, não se pode ir muito mais além do que já se foi.

GOVERNO DE COSTA. “O Governo é um obstáculo ao crescimento”

nuno botelho

Na Europa há novas bandeiras que a esquerda tenta erguer, António Costa também está a fazê-lo e isso parece pôr em causa o consenso tradicional entre PS e PSD. Acha que esta atitude é conjuntural ou pode mudar o xadrez todo?
Estas coisas são exercícios de retórica. No momento em que o mercado financeiro deixar de nos dar dinheiro – e a Europa conta fundamentalmente por isso, porque a reprovação da Europa reflete-se imediatamente no mercado financeiro – nós não podemos pensar em fazer um desenvolvimento através da dívida. O dr. António Costa vai ao mercado financeiro e diz ‘eu não cumpri as metas de Bruxelas, e agora queremos dezenas de milhares de milhões de contos para desenvolver o país’. Acha que alguém lhe diz que sim?

Nem lhe dão a flexibilidade que Portugal e outros países vêm pedindo?
A flexibilidade que dão é muito pouca, e quase irrelevante.

Mas num país onde as pessoas vivem com muito pouco, terem mais algum dinheiro ao fim do mês, baixarem as taxas moderadoras, darem-lhes a perspetiva de que é possível bater o pé à Europa pode dar algum ânimo. Não poderá ser o suficiente para ganhar as próximas eleições?
Algum ânimo dá, o que não lhes dá é uma vida material decente. Tudo isto começa e acaba na vida material decente. Começa no investimento. O dr. Costa está a contar com os milhões que vêm da Europa, mas primeiro que eles cá cheguem e sejam investidos e esse investimento comece a dar resultado e emprego, primeiro que isso transforme a sociedade portuguesa, se é que consegue transformar alguma coisa, sendo os fundos que são… Podem fazer planos de reformas, mas custam muito dinheiro e vão ter efeitos muito demorados e pequenos. Depois, há o próprio governo, que é um obstáculo ao desenvolvimento e ao crescimento: as pessoas não vão investir num país que tem um governo socialista aliado a um partido revolucionário, que é o BE, cujos dirigentes andam na televisão a fazer as reivindicações mais radicais, e um partido comunista que continua a ser largamente estalinista. Um investidor, se tiver juízo, e tendo muito sítio por onde escolher, não vai cá meter um tostão.

Se for assim, a geringonça cairá por si, não?
Pode cair por si ou não. Pode acontecer que as pessoas, a pouco e pouco, depois do entusiasmo inicial, e das poucas melhorias que tiveram na sua vida, comecem a perceber que são migalhas e que o peso das circunstâncias das suas vidas não mudou, e deixem de votar naqueles partidos.

Mas não vê na ascensão ao poder dos partidos mais radicais uma ameaça para durar?
Não vejo. Na direção em que eles estão a caminhar, isto é o que se pode fazer. Vamos ver se chega. A minha opinião é que não chega.

Passos Coelho: “Não há nada a fazer senão esperar”

Diz que a esquerda está numa situação complicada, mas há quem ache que quem está numa situação complicada é a direita, que não está a conseguir responder a estes tempos novos.
Mas não há maneira de reagir a estes tempos novos! Enquanto as pessoas estiverem convencidas que o dr. Costa é capaz de fazer melhor do que fez o dr. Passos Coelho, não há nada a fazer senão esperar.

O que Passos Coelho pode fazer é esperar por o quê? Que se revele a incompetência, a incapacidade, a impossibilidade do que Costa prometeu?
Não é incompetência, são os limites materiais que existem. Em primeiro lugar, os compromissos que há com a Europa, e depois a situação do país. Portugal não se pode endividar mais, não se pode promover o crescimento económico com mais dívida, porque ninguém nos empresta. A conversa que aí vai é quase delirante: vamos crescer, vamos crescer… mas com que dinheiro?

Numa das crónicas incluídas neste livro, escreve sobre o que aconteceria depois das legislativas de 2015: “O Governo seguinte, com um bocado de papel e uma caneta, arrasará numa hora tudo ou quase tudo o que ele [Passos Coelho] fez”. Isto significa que Passos não fez grande coisa?
Fez. Mas as coisas têm de se sustentar politicamente. O facto é que este governo chegou e reverteu uma série de coisas.

Pedro Passos Coelho fez bem em ter continuado, ou devia ter saído, como Paulo Portas?
As situações são completamente diferentes. O Portas tinha vinte anos de partido, já estava pessoalmente exausto e se calhar exasperado. Pedro Passos Coelho não. Não há razão nenhuma para ele [Passos] se demitir.

Não acha que ele seja uma carta que está esgotada?
Enquanto ele tiver o partido e o partido quiser que ele lá esteja… Ele está a fazer o mesmo que todos nós: é ver se a gente aguenta isto.

Marcelo. “Marcelo é menos que Cavaco”

nuno botelho

Marcelo Rebelo de Sousa faz bem ao ajudar a segurar Costa e o governo? Ele fala em interesse nacional, vê patriotismo nisto?
Como diria o De Gaulle, o problema do Marcelo Rebelo de Sousa como chefe do Estado são dois: primeiro, não é um chefe, segundo, não manda no Estado.

Então, quem é o chefe?
Ele não é um chefe. Não há aí ninguém que seja o chefe, como até certa altura foi o Soares. E o Cavaco.

Marcelo é menos que Cavaco?
É. Tem um caráter menos de chefe do que o Cavaco. O Cavaco tinha objetivos, tinha persistência, tinha resolução, que o Marcelo não tem.

Falta-lhe o quê? Autoridade?
Falta-lhe autoridade, falta-lhe uma visão, falta resolução. A falta de autoridade é uma consequência das outras coisas.

Mas o povo adora-o.
Pois… Esta política do afeto funciona mas tem um prazo curto de vida. Já começa a abrandar. Se o Presidente da República é um senhor muito simpático que vai dar beijinhos a toda a gente que encontra e tirar aquelas fotografias com telemóveis… como é que aquilo se chama?

Selfies.
Sim, tirar selfies com toda a gente… As pessoas gostam, acham o homem simpático…

Mas não lhe vê mais do que isso? Não lhe vê espessura?
Não. E [Marcelo] não lhes traz nada: dá-lhes dois dedos de conversa e uma famazita local e mais nada, acabou. Nestas condições, que ele começou na campanha e continuou na Presidência, o Marcelo tem muito pouca autoridade. A autoridade exige uma certa gravitas e uma certa distância, e ele tem pouca autoridade neste momento.

Ou seja, se ele por alguma razão achar que precisa de por António Costa ou a geringonça na ordem, não terá autoridade para o fazer?
Ele não tem que os por na ordem. Ele está a fazer o que pode para que não haja nenhuma espécie de desastre ou convulsão, e que o governo cumpra o seu mandato serenamente.

Mas Marcelo tem exercido o mandato de forma bastante interventiva: fala de tudo, mete-se em tudo, acompanha tudo o que se passa no Governo…
Ele fala de tudo, mas diz lugares comuns sobre tudo, incluindo coisas que não sabe. Numa das coisas [que disse] voltou imediatamente para trás: a história de que haveria um ciclo que vai até às autárquicas. Isso nem constitucionalmente nem politicamente faz sentido.

As autárquicas não funcionaram sempre como um aferidor da força política do governo? Dois primeiros-ministros caíram depois de autárquicas: Pinto Balsemão e António Guterres.
Mas não são ciclos políticos. Nesses dois casos eram pessoas que estavam no fio da navalha, em situações muito periclitantes.

No seu livro há uma crónica em que o Vasco lamenta que não se sabe se Cavaco pensa alguma coisa, porque se pensa, não diz nada, pois Cavaco não falava. Marcelo fala, e muito - não é uma evolução? Ou não se ganha nada com um PR que fale tanto sobre tanta coisa?
Não falar ou dizer o que o Marcelo diz é a mesma coisa.

Mas acha que Marcelo só fala de lugares comuns?
Ele diz o que o Governo diz, ou o que a opinião letrada diz… não cria problemas a ninguém. Limita-se a repetir a ortodoxia de cada dia.

Não vê pensamento próprio em Marcelo?
Não. Continua a dizer, como o Cavaco, que é preciso que os portugueses se entendam. Esse é um desejo centenário e os portugueses nem por isso se entenderam.

PS, ESQUERDA E GERINGONÇA. “Se falhar este entendimento à esquerda, deixa de poder haver um governo”

Então não vê nesta agitação de Marcelo nenhum risco para o regime semi-presidencialista?
Não, nenhum. Se há um risco para o regime semi-presidencialista vem da modificação profunda das esquerdas. Porque se e quando este Governo cair, a esquerda não pode continuar como está.

Há o risco de uma cisão no PS?
Pelo que vem a público, há um risco do BE se fundir com o PS, por exemplo. Entre os radicais do PS, a julgar pelas coisas que eles dizem, e os porta-vozes oficiais do BE, não há grandes diferenças.

Porque razão diz que se a esquerda não puder continuar como está isso coloca em causa os equilíbrios do sistema semi-presidencialista?
Se falhar este entendimento do Governo à esquerda, a consequência é que deixa de poder haver um governo. [Nesse caso], não é concebível uma aliança do PS à direita, não há, tanto quanto se pode ver, a possibilidade de uma maioria absoluta de direita, e acabou o entendimento da esquerda.

Se isto falhar a esquerda não pode voltar a entender-se?
Não pode. Fizeram um entendimento à roda de um governo, esse entendimento faliu, vão tornar a tentar entender-se depois da falência do primeiro entendimento?

Isso já aconteceu com outros partidos. PSD e CDS entenderam-se, desentenderam-se e anos depois voltaram a entender-se. A diferença neste caso é estarem em causa o PCP e o BE?
O PSD e o CDS não fazem grande diferença política, ideológica nem sequer social e já fizeram três coligações. O PCP e o BE são partidos com uma lógica diferente. Se essa lógica não mudar e este Governo cair, não haverá um segundo entendimento possível.

Surpreendeu-o que o PCP se tivesse metido neste entendimento?
Não, porque o PCP está cada vez mais isolado do mundo, já não faz parte do movimento internacional e como qualquer partido reduzido ao seu próprio território tentou fortificar as suas posições. É isso que tem feito.

Surpreendeu-o mais o PS? Se Mário Soares ainda estivesse no ativo apadrinharia esta solução?
Os últimos tempos do dr. Soares não são significativos nem do pensamento nem da carreira dele. E prefiro não falar sobre ele.

Portugal. “Portugal é difícil de reformar, mas é reformável”

nuno botelho

Hoje em dia consegue-se rever em que partido?
Em nenhum.

Mas ainda vota?
Não.

Lembra-se quando foi a última vez que votou?
Não me lembro.

E continua a pensar em si como um social-democrata?
Continuo. Mas o que é isto de social-democrata? É um Estado liberal e um Estado social.

E nenhum partido lhe propõe isso?
Não reconheço em nenhum partido atual uma clareza de vistas capaz de reformar a sociedade portuguesa nesse sentido.

A sociedade portuguesa é reformável? Lendo as suas crónicas, todos os que tentaram falharam.
Claro que é. A nossa sociedade é mais difícil de reformar do que as outras por razões particulares, que têm a ver com a situação geográfica e cultural do país. Não é reformável de um dia para o outro, não é reformável sem dinheiro, mas é reformável como outras.

Quem é que esteve mais perto de conseguir isso?
Não sei… Talvez… no princípio do dr. Cavaco. Mas o dr. Cavaco acabou por falhar na construção do Estado social e também na construção do Estado liberal – ele não é uma pessoa a quem qualquer um de nós confiasse a sua liberdade.

Não é fácil fazer o balanço do cavaquismo, pois não? Agora que Cavaco saiu mesmo de cena, depois de dez anos de governo e dez anos de Presidência, que balanço faz?
Ele foi um mau Presidente e nos primeiros tempos de primeiro-ministro com maioria [absoluta] fez algumas coisas. Era fácil, deve dizer-se. Havia dinheiro e as necessidades eram óbvias. Portugal precisava de infraestruturas e equipamentos, e ele fez isso.

Cavaco é acusado, por outro lado, de ter falhado na educação e na formação dos portugueses. De qualquer forma, nos textos que são republicados neste livro, o Vasco tem muitas dúvidas sobre o impacto real tanto do investimento em infraestruturas como em educação.
Tenho, a partir do momento em que isso começou a tornar-se um jogo eleitoral, em que se trocavam votos por quilómetros de estrada e centros de saúde por votos.

Num texto, escreve: “O que impressiona é o pouco que Portugal mudou”. É verdade que Portugal tenha mudado assim tão pouco?
É. Portugal mudou pouco.

As pessoas viviam infinitamente pior, Portugal não tinha estradas, não tinha equipamentos, quase não tinha sistema público de saúde nem de educação e estávamos esquecidos e atrasados numa ponta da Europa com condições de vida incomparáveis com as de hoje. Não é injusto dizer que o país mudou pouco?
As condições de vida melhoraram muito em Portugal, não há ponto comum entre o que hoje se chama pobreza e o que era a pobreza no tempo do dr. Salazar. Aquilo a que eu me estava a referir era a cultura portuguesa. Essa mudou pouco. Sempre pensei que um dos grandes problemas de Portugal é que quando os portugueses pensam em si e na sociedade em que gostariam de viver, pensam numa sociedade europeia, como a França ou a Alemanha, que foram os dois grandes destinos de emigração. Isso é uma coisa que vem do princípio do século XVIII: o nosso modelo foram sempre sociedades europeias, em relação às quais estávamos sempre atrasados. Essa mentalidade dos portugueses estarem atrasados e tomarem como modelo sociedades mais desenvolvidas é errada e permite pouca liberdade política.

Portanto, temos a tendência não para criar mas para imitar?
Pois, somos um país de epígonos. O Eça foi o primeiro português que teve essa iluminação. Mas nunca chegamos lá. Ou ficamos aquém ou na coisas mais baratas chegamos além. No último capítulo dos Maias há uma conversa entre o Carlos e o Ega em que se fala nisso. O Carlos começa a reparar que todos os jovens da moda que andavam a passear tinham uns sapatos muito muito bicudos. Isso vinha de que em França se tinham feito uns sapatos bicudos e cá, para copiar, teve de se exagerar. A nossa cultura é epigonal. Ainda recentemente houve um episódio a que eu achei muita graça. O Eduardo Lourenço, que é um intelectual francês, recebeu um prémio e perguntaram-lhe como é que ele tinha reagido à formação deste governo. E ele disse: “foi uma divina surpresa”. Depois emendou para “milagre de Fátima”. Esta frase “divina surpresa” foi o que o Charles Maurras disse quando surgiu o regime do Petain em França. E isso é muito curioso, porque mostra que ele vive no mundo da cultura francesa.

VELHO DO RESTELO. “Velho do Restelo? Não. Li mais livros e estudei mais história”

O titulo “De mal a pior” condensa a sua ideia sobre o que se passa em Portugal?
Condensa. Nós tivémos vários ciclos de prosperidade como o que tivemos nos primeiros trinta anos desta democracia, entre 1976 e os anos 90 – sem défices extraordinários, com taxas de crescimento razoáveis. Para mantermos isso tivemos que nos endividar. E isso já tinha sucedido em Portugal, na Monarquia Constitucional, desde meio do século XIX até 1890, quando veio a grande crise que depois trouxe a República. Essa também foi uma crise financeira, uma crise da dívida. Exigiram-nos que pagássemos, os credores costumam exigir isso quando perdem a paciência, e foi tudo ao chão. Porque estas mudanças de Portugal foram sempre artificiais. Era preciso uma classe média – fez-se uma classe média do Estado, nomearam-se centenas de milhares de funcionários públicos, financiaram-se câmaras, empresas, a cultura, o Estado financiou tudo. E acabou por se criar uma classe média que dependia do Estado, que deu este equilíbrio em que vivemos até 2010. Depois, quando se acabou a possibilidade de pedir dinheiro lá fora, foi abaixo.

Mas as condições que enumera fazem-nos questionar se alguma vez poderia ser diferente: num país pequeno, sem mercado interno e sem massa crítica, periférico, sem riqueza e atrasado, as coisas poderiam ter sido de outra maneira que não a reboque do Estado?
Se não houvesse o modelo europeu, se as pessoas não quisessem viver como na Europa, ter os mesmos direitos da Europa, etc, teria sido possível. Gradualmente, mas mais seguramente.

Isso era ficar a meio caminho entre o orgulhosamente sós e querer ser como o resto da Europa.
Não, não era. Porque é que aderimos ao euro? Aderir à Europa percebe-se, foi lógico, era uma defesa contra a ditadura, era uma ajuda económica certa. Mas porquê o euro? Mesmo a propaganda que se fazia nesses tempos era que não ficaríamos na cauda da Europa, mas no pelotão da frente.

Diz que a adesão à CEE foi uma decisão com sentido - ora, a partir daí não era natural que Portugal se medisse pelas médias europeias e que a ambição fosse viver “como na Europa”?
Não, não era natural, porque as nossas condições eram completamente diferentes. A sua pergunta está a partir do mesmo erro.

Numa crónica que vem no livro escreve: “De ano para ano o delírio continuou, apesar de um aviso ou outro, invariavelmente atribuídos a Velhos do Restelo e a pessimistas profissionais”. Enfia essa carapuça de ser um pessimista profissional?
Não, de todo. Acho é que li mais livros e estudei mais história portuguesa.

VPV E OS PARTIDOS. “Foram os partidos que não me quiseram”

nuno botelho

Isso leva-nos a outra frase sua: “A história não muda”. Isso quer dizer que quem conhece a história dificilmente se surpreende?
Quem conhece bem a história de Portugal do século XIX e XX surpreende-se com pouca coisa. Mas isso não quer dizer que a história não mude.

Veio para Portugal com o 25 de abril, entusiasmou-se com a revolução, vê estes anos como anos em que ficámos muito aquém, acha que as nossas elites foram pobres e que precisávamos de gente com mais cabeça e mais cultura. Tem pena de não se ter envolvido mais na política?
Não fui eu que não me quis envolver, foram os partidos que não me quiseram. O PS e o PSD, os dois únicos que eu tentei, não me quiseram lá, e com razão, devo reconhecer.

O que é que lhe faltou para poder ser um grande político?
O espírito de clube. Os partidos exigem um certo espírito de clube que eu não tenho de todo, em coisa nenhuma, nem no futebol.

Não sentiu isso nem nos tempos em que esteve no governo com Sá Carneiro, nem quando trabalhou mais proximamente com Mário Soares?
Não. Gostei de trabalhar com eles, mas com o dr. Soares trabalhei muito pouco, foi essencialmente no MASP1 [primeira candidatura presidencial, em 1985/86], no dois nem entrei. Com Sá Carneiro trabalhei dois anos e gostei muito. Sentia-me solidário com ele, mas sem esse espírito de clube. Nunca me senti PSD.

Nem quando foi candidato nas listas do PSD, em 1995?
Não. Isso… não pensei bem e supus que o PSD depois do Cavaco ia fazer um esforço para se emendar, mas não era nada disso que lá se passava.

Portugal tem os políticos que merece?
Não sei se os portugueses merecem isto ou aquilo, não estou aqui para julgar ninguém. Os portugueses têm os políticos que a cultura portuguesa produz.

Lendo-o, dos últimos vinte anos, não se safa nenhum político.
O Sá Carneiro.

Não é dos últimos vinte anos.
Dos últimos vinte anos, acho que não, não se safa nenhum.

E das novas gerações há algum político que lhe chame a atenção?
Por enquanto não. Pelo contrário, há jovens que me parecem altamente impreparados para o que estão a fazer. Vai-me perguntar quem? A Catarina Martins.

Se tivesse agora 30 anos emigrava?
Se eu tivesse 30 anos, não tinha saído de Inglaterra.

Precisamente: quando tinha 30 anos estava em Inglaterra, mas depois voltou para Portugal. Ainda não tinha percebido o que a casa gasta?
Não tinha percebido, não. Era ainda muito ignorante e muito novo, e tinha esperado muito tempo pela democracia, de maneira que quis estar dentro da democracia portuguesa.

Arrepende-se de ter voltado?
Não.

Numa crónica escreveu: “Para a minha geração, que vai morrendo, o ‘25 de abril’ chegou a tempo. Andávamos pelos 30 anos, com uma profissão e uma longa vida à nossa frente. Íamos finalmente mudar Portugal.” Em três frases fica o reconhecimento da sorte que tiveram, mas também a desilusão por terem falhado. Sente que falharam?
Falhámos. E os meus amigos [que militaram em partidos] também não tiveram melhor sorte. Meteram-se nos partidos, foram ministros, e as coisas não lhes correram melhor a eles do que a mim.

Está a falar por exemplo do António Barreto?
Do António Barreto, do Medeiros Ferreira, do Eurico Figueiredo, do Carlos Macedo... e outras pessoas.

PORTUGAL E AS MEMÓRIAS. “Eu gosto de Portugal”

Há uma entrevista em que diz “apesar de tudo, sofro com isto”, referindo-se a Portugal. E tem um texto em que diz que “Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio”. Gosta de Portugal?
Eu gosto de Portugal.

Apesar de escrever sobre a “populaça”, a “piolheira”...
Eu nunca usei esses termos.

Estão nas suas crónicas, nalguns casos a citar quem as tenha dito, noutros assumidas no seu discurso. Chega a dizer que “trocar de povo não seria mau”. São entusiasmos do momento em que se escreve?
Não, não, isso é uma citação. Inspirada numa frase do duque de Palmela, que foi um dos grandes arquitetos do liberalismo. Ele costumava dizer: temos que nos resignar aos portugueses que temos, porque não há outros.

Mas quando diz que gosta de Portugal, gosta de quê?
Gosto da língua, era o que faltava que não gostasse. Gosto da comida. Gosto dos amigos. Gosto do sol. E gosto de uma certa complacência geral que os portugueses têm com os portugueses. Até porque todos nós temos coisas que queremos que nos desculpem.

As pessoas que são alvo das suas crónicas também são complacentes consigo ou foi perdendo amigos?
Fui perdendo. O que se agravou nestes últimos tempos.

Porquê?
Porque as pessoas estão mais excitadas, mais intransigentes, mais radicais e ficam mais violentas.

Tem feito esses balanços nesta fase de preparação das memórias? Como é que um historiador prepara as suas memórias?
Boa pergunta!

Tem aplicado o método de historiador a este trabalho?
Não, há coisas da memória que não se põem na história. A que grau de privacidade se deve chegar? Quanto a mim, nenhum.

Não vamos olhar pelo buraco da fechadura?
Não.

Essa decisão está tomada?
Está.

Começou pelo presente ou começou pelo princípio?
Pelo princípio.

Está a gostar do que escreveu?
Não escrevi. Dei entrevistas.

Então as suas memórias baseiam-se sobretudo na sua memória?
Na minha memória, só.

E tem-na verificado fiável? Quem está a trabalhar consigo tem confirmado datas e acontecimentos?
Não, a certa altura ou eu faço isso ou arranjo alguém que faça por mim. Mas as memórias são um projeto, pode ser que nunca chegue ao fim.

Quem escreve memórias quer deixar coisas. Este projeto é uma forma de contrariar a ideia do fim?
Não.

Tem medo da morte?
Não. Tenho medo da maneira de morrer. Já fiz aquelas coisas todas, o testamento vital... Tive dois cancros, e isso obriga uma pessoa a fazer isso. Tenho é medo do sobretratamento, do encarniçamento médico. De morrer, não.

E conseguiu até agora fazer as coisas como queria, comendo o que lhe dá na gana, bebendo tanto como queria, fumando como queria?
Mais ou menos, sim.

Isso é a sua vingança sobre aquilo a que chama o fascismo higiénico?
O fascismo higiénico foi das piores coisas que se viveu neste século. É uma restrição à liberdade das pessoas. Porque é que não há restaurantes de fumadores?

As suas memórias vão fazer com que mais gente se zangue consigo?
Já há suficiente gente zangada comigo.

Vamos descobrir um Vasco novo?
Deixe lá as minhas memórias, se faz favor. Eu nem sei se as vou escrever.

É impressão nossa ou está cheio de medo de não conseguir terminar essa empreitada?
Eu não sei se vou começar essa empreitada.

ESTADO E SISTEMA PARTIDÁRIO. “A emenda implica algumas restrições à democracia”

Pensa em si, essencialmente, como um professor universitário, um cronista, ou o político que podia ter sido?
Tudo e nada. Nada de especial.

Lendo as suas crónicas há uma quantidade de coisas que o Vasco escreve muito antes delas se tornarem evidentes. Sente alguma frustração por escrever antes dos outros verem e quando os outros vêem continuar tudo na mesma?
Não, aquilo não são profecias, são conclusões que eu tirei da análise da sociedade portuguesa. Eu sempre levei uma vida muito solitária, estou afastado da vida política e tenho a distância suficiente para considerar mais claramente o que se está a passar.

À distância vê-se melhor, é?
Vê-se melhor.

Também escreveu que se alguém tentasse fazer a reforma do Estado isso seria meio caminho andado para o tumulto e a derrota.
Como foi.

Tira-se a conclusão que isto não tem emenda?
É muito difícil. Vai demorar muito tempo e vai trazer muito sofrimento.

E a emenda é compatível com a democracia?
Não é facilmente compatível. Pelo menos implica algumas restrições à democracia.

Está a pensar em quê?
Estou a pensar numa lei dos partidos diferente. Com uma lei eleitoral diferente.

Mas que tipo de restrições é que seriam necessárias?
Primeiro, que não tivéssemos uma Constituição programática. Em que se diz o que é a confiança e o que é a igualdade. Depois, devia haver uma lei que reforçasse os poderes do Executivo. E uma lei que exigisse mais aos partidos.

Em que sentido?
Em matéria programática. Uma lei que distinguisse os partidos dos movimentos, muito claramente. A tendência tem sido em sentido contrário.

Mas o que é que está a acontecer de negativo que essa distinção maior permitiria contrariar?
Que partidos como o Podemos possam aparecer, ou que o BE possa ter os votos que teve.

Mas a liberdade de escolha não é uma coisa boa? Só é boa na economia?
Ter mais escolha não é uma coisa boa se essa escolha não acrescenta nada.

Mas isso quem diz é quem vota. O BE não representava nada até chegar aos 10%.
Mas o Bloco representa o quê?

Representará pelo menos aquilo que as pessoas que votam no Bloco querem ver nele.
Ah! Mas isso não chega.

Representa uma determinada ideologia.
Qual é a ideologia do Bloco? O que eu temo nos novos partidos radicais, sem ideologia e sem programa, é a irresponsabilidade. Para os tornar mais sólidos, devíamos tornar mais difícil formar um partido político. Desde o número de assinaturas até à apresentação de um programa consistente e à verificação dos seus recursos económicos …

Mas quem é que faria a avaliação sobre a consistência do programa?
Estou só a dizer quais seriam os objetivos.

Queria só acabar com uma outra frase que encontrei nas suas crónicas, esta sobre os Natais em família, onde escreve: "Este mundo não é o meu". Continua a sentir isso?
Cada vez mais. Há um sintoma de desolação no mundo social à minha volta.

Isso também passa pelos amigos que vão desaparecendo? Cita vários, como Bénard da Costa ou Alçada Batista.
Sim, morreram algumas pessoas que me faziam muita falta.

Não fez amigos novos?
Alguns. Mas poucos. E não é a mesma coisa.

Nas suas crónicas cruzamo-nos com uma série de mortos admiráveis. E há vivos admiráveis?
Que eu admire muito, não.

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