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O salto de Portas que pode beliscar o regresso

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Ser consultor na Mota-Engil é “continuar a promover exportações”, justifica o ex-líder do CDS

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Na terça-feira, o dia em que a contratação de Paulo Portas para trabalhar na Mota-Engil era primeira página em quase todos os jornais, o ex-líder do CDS estava ocupado com três tarefas: visitar escritórios, para escolher o espaço que irá arrendar como seu novo quartel-general, escrever o discurso que faria ao fim do dia, na apresentação do novo livro de Adriano Moreira, e fazer a mala para voar nessa noite para o Brasil.

O escritório está quase escolhido, o livro foi apresentado, mas esta sexta-feira Portas ainda está em São Paulo, na sua nova vida de conferencista — fez esta quinta-feira uma palestra sobre “Os riscos que ameaçam a Europa” e participa esta sexta num debate sobre “Transformar ideias em negócios”. No sábado, segue viagem para Havana, onde vai liderar a primeira missão empresarial que organizou na qualidade de vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Portugal (CCIP).

Só quando voltar a Lisboa, na próxima semana, é que Paulo Portas começará a sua colaboração com a Mota-Engil. O trabalho para a construtora foi a última peça de um puzzle com as sete tarefas da nova vida profissional. Uma deles é o contrato que assinou com a empresa de agenciamento para conferências internacionais, a Thinking Heads, que conta no seu portfólio com o ex-PM espanhol Felipe González, o Nobel da economia Joseph Stiglitz, o fundador da Virgin Richard Branson, ou o guru da autoajuda Deepak Chopra.

Portas também vai dar aulas no MBA da Nova School of Business and Economics e ainda será consultor estratégico de empresas estrangeiras sem ligação a Portugal — sobretudo oriundas do Golfo e da América Latina. Pelo meio, comprometeu-se com Assunção Cristas a colaborar com a escola de quadros da juventude do CDS. E, como peça mais visível das suas atividades, terá na TVI um programa de comentário sobre política internacional (que poderá sempre desviar-se para assuntos domésticos quando se justifique). Ainda antes de arrancar o programa, Portas será enviado a Londres e a Madrid, para comentar o referendo britânico e as eleições espanholas.

Muita coisa? Sim. Assunção Cristas até viu nesta cornucópia de atividades “o reflexo da mudança na sua vida”, a prova de que vai “sair da política para encetar um novo capítulo”. O problema é que a peça mais polémica do puzzle é aquela que fez Portas voltar ao centro da guerrilha partidária, acusado pelo PCP e pelo BE de ter dado um salto de contornos imorais da política para os negócios privados. E aquela que mais custos lhe pode trazer no caso — bem provável — de Portas equacionar um regresso à política para uma corrida presidencial.

“Parece que é cadastro”

A polémica por causa da Mota-Engil era até previsível, admitem os correligionários de Portas no CDS. “Parece que sair da política para a Mota-Engil é cadastro”, admite um responsável centrista. Às críticas, que foram muito duras à esquerda e bastante cáusticas nas redes sociais, Portas responde com bonomia. “Se eu saí da política, não foi para entrar em polémica política”, diz ao Expresso. “E não é verdade que eu tenha dado um salto para o sector privado — depois da política, eu volto ao sector privado, onde nasci e tive iniciativa”, afirma, lembrando a sua carreira de jornalista, diretor de jornal e administrador de media. A um amigo, Portas terá mesmo confidenciado em tom de brincadeira que “querem à força que eu seja funcionário público”, apurou o Expresso.

O ex-presidente do CDS fez questão de não ir para a administração nem qualquer outro lugar nos quadros da empresa, ficando apenas como consultor. “Só vou ser trabalhador por conta de outrem de mim próprio”, dizia esta semana.

Na Mota-Engil, o seu trabalho será coordenar um Conselho de Internacionalização, sobretudo nos mercados da América Latina. O próprio António Mota veio a terreno considerar incomparável a situação de Portas com a de Jorge Coelho, que foi presidente da construtora durante cinco anos. Mas esses pormenores passaram ao lado de quem colou a imagem de um à imagem de outro. Com uma agravante para Portas: quando Coelho deixou a política e se dedicou a tempo inteiro à atividade de empresário, já tinha arrumado as botas em relação à primeira divisão da política — fora o braço-direito de Guterres, tinha ajudado a levar Sócrates ao poder, tinha vencido um cancro, decidiu mesmo mudar de vida.

Portas também fala nisso (“Estou a fazer um reset completo da minha vida”, assegurou ao Expresso), mas é sempre ambíguo ou esquivo quando confrontado com a hipótese de voltar à política para disputar as presidenciais, daqui a cinco ou dez anos, dependendo de Marcelo fazer um ou dois mandatos.

Se tiver de facto o plano que muitos lhe atribuem, de ganhar distância para voltar em força na hora de disputar a sucessão de Marcelo, a polémica da ligação à Mota-Engil pode vir a ser uma pedra no sapato, admitem algumas vozes à direita. Portas encolhe os ombros: “O que é que eu posso fazer? Quando eu estava no Governo, criticavam-me por andar lá fora a defender as empresas portuguesas; agora que saio da política e vou trabalhar para as empresas lá fora, criticam-me também...”

A defesa de Portas, essa, está afinada: o seu negócio é ajudar as empresas a internacionalizarem-se e a exportar mais. Enfim, ajudar Portugal. “No fundo, é a continuação daquilo que eu fiz no Governo, na promoção das exportações portuguesas, mas agora do lado da sociedade civil e do associativismo empresarial”, diz ao Expresso sobre a sua ligação à CCIP. Será que chega para compensar um salto que noutros casos deixou marcas na reputação? Em todo o caso, convém não esquecer que Portas terá, a partir de setembro, palco televisivo todas as semanas, em canal aberto, em horário nobre: será a sua oportunidade de seduzir e fidelizar os espectadores explicando-lhes o mundo. Com Marcelo resultou...