Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Mota-Engil e Bloco Central, BFF (best friends forever)

  • 333

ENTRADA EM 2008. Jorge Coelho foi o nome mais sonante de um ex-ministro a passar pela construtora

alberto frias

BE e PCP criticam “promiscuidade” no novo emprego de Portas. Ex-líder do CDS não é o primeiro político a ser contratado pela Mota Engil, que recruta tanto no PS como no PSD

Jorge Coelho, Valente de Oliveira, Lobo Xavier ou Seixas da Costa? O que têm em comum estes políticos? Todos já aceitaram um convite de António Mota para a empresa Mota Engil, que agora contratou Paulo Portas para ajudar na internacionalização da empresa.

Antes de Portas, o nome mais sonante a passar pela construtora foi o do socialista Jorge Coelho, antigo ministro de Estado e do Equipamento Social de António Guterres. O comentador da “Quadratura do Círculo” demitiu-se do Governo, em 2001. Só viria a entrar para a construtora em 2008, assumindo as funções de presidente da comissão executiva e vice-presidente do grupo, mas foi uma passagem polémica.

Legalmente, não o impedia, mas tratava-se de uma empresa que trabalhou na área que havia tutelado diretamente. O ex-ministro do PS acabou por deixar o cargo em 2013 alegando “razões de ordem pessoal”, mas integra ainda o conselho estratégico para a internacionalização do grupo, órgão de que faz parte ainda outro ex-ministro socialista, Francisco Murteira Nabo.

Na Mota-Engil, Jorge Coelho foi o responsável pela consolidação da internacionalização do grupo. Coube-lhe reorganizar e dar dimensão à área internacional, tendo partido de três polos fundamentais: Polónia e Europa Central, África, sobretudo Angola e a América Latina. Na altura, António Mota, numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, foi claro: “O dr. Jorge Coelho é um lutador até ao final. Fizemos o convite, ele podia ter optado por outros e escolheu-nos a nós. Isso enche-nos de orgulho.” Na mesma conversa, ela perguntou-lhe se António Mota sentia-se poderoso: “Nããão. Mas sei que tenho capacidade de influência.” Nunca foi desmentido.

Em 2010, entrou para o conselho de administração (com funções não-executivas) outro socialista, o ex-secretário de Estado das Obras Públicas do PS, Luís Parreirão, que trabalhou no Governo com Jorge Coelho.

Lobo Xavier e Valente de Oliveira

Lobo Xavier e Valente de Oliveira

TIAGO MIRANDA E RUI OCHÔA

Outro dos ex-governantes na Mota-Engil é Valente de Oliveira (PSD). Foi ministro da Educação e Investigação Científica nos anos 70; ministro do Planeamento e da Administração do Território entre 1985 e 1995 com Cavaco Silva e ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação em 2002 e 2003 com Durão Barroso. É engenheiro de formação e membro não executivo do conselho de administração da empresa.

Atualmente, é também membro (não-executivo) do conselho de administração da Mota-Engil o ex-deputado e dirigente do CDS António Lobo Xavier, enquanto o embaixador Francisco Seixas da Costa, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, é consultor estratégico da Mota-Engil SGPS desde 2013. Recorde-se ainda que o também comentador da “Quadratura do Círculo”, Lobo Xavier, foi coordenador da reforma do IRC implementada pelo anterior Governo de Pedro Passos Coelho.

EMBAIXADOR. Francisco Seixas da Costa também é consultor estratégico da Mota-Engil

EMBAIXADOR. Francisco Seixas da Costa também é consultor estratégico da Mota-Engil

ALBERTO FRIAS

Uma empresa polémica

Em novembro de 2010, António Mota, foi constituído arguido e interrogado pelo procurador Rosário Teixeira, na presença do seu advogado Daniel Proença de Carvalho, no âmbito do megaprocesso da Operação Furacão por suspeita de corrupção. Em causa, acusações de pagamento de luvas para conseguir concessões da Scut.

António Mota esteve sob escuta telefónica, altura em que foram gravados telefonemas seus com António Lobo Xavier, Jorge Coelho e Luís Parreirão. Estes últimos não chegaram a ser constituídos arguidos, mas foram investigados por eventuais crimes de corrupção, abuso de confiança, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada.

Apesar da retração no setor da construção e obras públicas em Portugal, o grupo tenta continuar a crescer, sobretudo de olhos postos em outros mercados. A última grande operação foi a realização de um aumento de capital para financiar a retirada da Mota-Engil de Bolsa e que obrigou a família a reforçar a sua participação para mais de 62%.

A Mota-Engil é a maior construtora portuguesa, mas mantém-se uma empresa intrinsecamente familiar. Fundada em 1946, centrou atividades na construção e gestão de infraestruturas, ambiente e serviços, concessões de transportes e energia e mineração. Até em 1975, a empresa só operou em Angola, tendo sido das poucas sociedades de origem portuguesa que continuaram a trabalhar no país.

Atualmente é líder em Portugal, está presente em três continentes e 22 países, dispersos por mais de 300 sociedades distintas. O grupo está na América Latina desde 1998. A porta de entrada foi o Peru, onde está entre as quatro maiores empresas do setor da construção. Na última apresentação de resultados, a Mota-Engil diz que “acreditando no potencial da América Latina, o grupo promoveu a expansão da sua presença para mercados como o México, Brasil e Colômbia”. Um dos principais projetos do grupo nesta região será a construção da ferrovia Carajás, avaliada em 243 milhões de euros, incluindo 12 pontes e dez viadutos e que deve estar concluído até ao meio do próximo ano.

Embora a faturação tenha aumentado, o volume de investimento global do grupo está em queda e, para financiar a atividade, há uma exposição de 30% do total de empréstimos à banca internacional. Os últimos resultados, relativos ao segundo trimestre deste ano, apontam a América Latina como o principal motor de crescimento do grupo Mota-Engil. A geografia que estará a cargo de Paulo Portas.

BE e PCP criticam

A notícia, avançada segunda-feira pelo Expresso, de que Portas vai ser consultor da Mota-Engil motivou críticas dos partidos mais à esquerda. “É mais um exemplo daquilo que todos nós criticamos na política e que não deveria acontecer que é o saltar de um Governo para os privados, com um estalar de dedos e poucos meses depois de sair do Governo”, disse o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, à agência Lusa.

O dirigente do BE recorda que nos cargos que teve no Governo de direita, Paulo Portas “foi sempre responsável pela internacionalização da economia e agora está, com esse conjunto de contactos, de relacionamento, a oferecê-los ao dispor da Mota-Engil”, referindo-se aos cargos de ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro-ministro, pelo que a escolha do antigo líder do CDS é “politicamente criticável”.

“É inaceitável e revelador de promiscuidade”, disse, por seu lado, o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, à RTP, considerando que isto deixa no ar “suspeições e dúvidas relativamente a favorecimento [em anterior atos no Governo] dos grandes grupos económicos”.

Numa altura em que se discute no Parlamento as iniciativas legislativas para aumentar a defesa do interesse público e reforçar o regime de incompatibilidades, Pedro Filipe Soares lembrou ainda que a Mota-Engil “pertence ao conglomerado de empresas de construção que renegociou com o Governo anterior as Parcerias Públicas Privadas”.

Já o PCP considera que as alterações legislativas que apresentou pode proibir situações destas no futuro referindo-se à norma “os titulares de órgãos de soberania e titulares de cargos políticos não podem exercer, pelo período de cinco anos contado da data da cessação das respetivas funções, cargos em empresas privadas que prossigam atividades no setor por eles diretamente tutelado”. Isto, na presunção de que o setor diretamente tutelado é a diplomacia económica, o que pode ser discutível.

  • Esta história não acaba aqui

    Paulo Portas deixa a presidência do CDS e vai “fazer empresas e trabalhar com empresas”. Como na política e no jornalismo, promete que estará “focado em resultados”. Há dez anos, também saiu da liderança do CDS. Há 20, alistou-se no CDS. Há 40, meteu-se na JSD. Daqui a dez estará a caminho de Belém com currículo de empresário de sucesso?

  • Os sete trabalhos de Portas

    Paulo Portas vai trabalhar com a Mota Engil e garante que não há qualquer incompatibilidade com o que fez no Governo. E, entre muitas tarefas, vai voltar à televisão: já este mês estará em Londres para comentar o referendo e em Madrid para acompanhar as eleições