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Depois das porteiras, Marcelo homenageia portugueses do “bidonville”

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Marcelo Rebelo de Sousa e François Hollande à porta do Palácio do Eliseu, em Paris

Miguel A. Lopes / Lusa

Após ter condecorado porteiras e ouvido promessas de apoio do seu homólogo François Hollande na rejeição de sanções europeias a Portugal e na promoção do ensino da língua portuguesa em França, o presidente português vai homenagear este sábado a primeira geração de emigrantes que viveu no bairro da lata de Champigny.

Depois de uma breve reunião no Palácio do Eliseu com François Hollande e uma emotiva cerimónia oficial do 10 de junho com algumas centenas de convidados no salão nobre da Câmara de Paris, Marcelo Rebelo de Sousa vai homenagear neste sábado os emigrantes portugueses que, em 1960/70, viveram no imenso bairro da lata de Champigny-sur-Marne, o maior “bidonville” de sempre, em França.

De novo acompanhado pelo primeiro-ministro, António Costa, o presidente vai inaugurar nessa localidade um monumento de agradecimento ao antigo presidente da Câmara local, Louis Talamoni (comunista), pela ajuda que deu à primeira geração de emigrantes que então aí viveram anos a fio em barracas, sem luz, sem água, sem esgotos, sem retretes e nem sequer serviço público de recolha do lixo.

O principal impulsionador da iniciativa, o empresário Valdemar Francisco, hoje com 62 anos e considerado emigrante de sucesso (possui seis empresas da construção civil), viveu ele próprio dos seis aos quinze anos, com os pais, no bairro da lata e vai ser um dos condecorados deste sábado.

“Louis Talamoni merece esta homenagem da comunidade portuguesa porque recusou arrasar o bairro (onde chegaram a viver 15 mil portugueses), como lhe pedia o Governo e, em vez de o destruir, mandou instalar pontos de água, eletricidade e esgotos, distribuiu roupas e cobertores às pessoas e até pediu aos professores para levarem os alunos aos balneários públicos para tomarem duche”, disse Valdemar ao Expresso (ler reportagem “Do bidonville ao poder”).

Antes de chegar a Champigny, a comitiva presidencial passará por Créteil, onde inaugurará uma rotunda com o nome de Armando Lopes, 72 anos, igualmente empresário (16 empresas e proprietário da Rádio Alfa) e que, tal como Valdemar Francisco, começou a trabalhar aos 11 anos de idade, o primeiro quando estava ainda em Portugal. Já condecorado no passado por Portugal e pela França (pelos presidentes Mário Soares e Jacques Chirac), Armando Lopes - que não viveu no “bidonville” mas que começou por ser emigrante muito pobre, em França, onde chegou sozinho, aos 17 anos - será o primeiro português a ter, em vida, uma placa toponímica em França.

Anjos da guarda

Na véspera, Dia de Portugal, o chefe de Estado condecorou na Câmara de Paris três porteiras e um porteiro portugueses pela ajuda que deram às vítimas dos atentados no Bataclan, na noite de 13 de novembro do ano passado.

É a segunda vez que os quatro são condecorados – já o tinham sido pela Câmara de Paris alguns meses antes no quadro de uma homenagem da edilidade às porteiras parisienses. Na altura, foram condecoradas sete porteiras e porteiros pelo mesmo motivo. Os sete (três não portuguesas) foram autênticos anjos da guarda – ainda com os ataques terroristas em curso, prestaram os primeiros socorros a feridos, deram-lhes água, cobertores e reconforto nos pátios dos seus prédios e abriram as portas dos seus minúsculos apartamentos aos feridos mais graves.

“Algumas pessoas que fugiam dos atentados tremiam tanto que nem conseguiam segurar no copo de água que eu lhes dava”, contou, na altura, ao Expresso, José Gonçalves, um dos agraciados. As três porteiras portuguesas condecoradas chamam-se Natália Syed, Margarida Santos Sousa e Manuela Gonçalves.

Europa e o gueto da língua

Nos discursos, na Câmara, Marcelo, Hollande e Costa reafirmaram o que já tinha sido dito no Eliseu – “a visão comum do futuro da Europa”. O presidente francês prometeu apoio na rejeição de sanções europeias a Portugal e elogiou o Governo de António Costa: “As escolhas que fez estão conformes às regras europeias, como as nossas também estão… saiba que a França não é apenas um parceiro europeu de Portugal, é um amigo”, disse.

Além disso, François Hollande fez outra promessa importante, que foi muito aplaudida pelos presentes: o seu apoio à promoção do ensino da língua portuguesa na rede escolar francesa, uma velha reivindicação portuguesa. Esta questão está atualmente a ser negociada entre os governos franceses e portugueses e o desejo de Portugal, segundo o embaixador em França, Moraes Cabral, é “tirar a língua portuguesa do gueto em que se encontra em França”.

De acordo com o autarca franco-português de Paris, Hermano Sanches Ruivo, a língua portuguesa apenas tem hoje 50 mil estudantes em França, um número muito pequeno se comparado com os que estudam alemão ou italiano (centenas de milhares) ou espanhol (alguns milhões). “Há um combate das línguas em França e é preciso força para concluir estas negociações com sucesso para Portugal”, disse Hermano ao Expresso.

O presidente François Hollande anunciou que visitará Portugal na segunda metade do mês de julho e, nessa altura, poderão ser divulgadas novidades concretas sobre o assunto.

O presidente francês garantiu que vai levar com ele, a Portugal, diversos franco-portugueses, certamente alguns dos que estavam presentes neste histórico 10 de junho, na Câmara parisiense.

Os discursos de Hollande, de Costa e de Anne Hidalgo (“maire” de Paris), agradaram a todos os presentes. Mas o momento em que estes ficaram verdadeiramente emocionados foi sem dúvida quando ouviram o presidente Marcelo lembrar a vida dura, a pobreza pela qual muitos passaram, e dizer-lhes, em português: “Aqueles que aqui estão são dos melhores de nós… a França não esquece, mas Portugal ainda esquece menos”.

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