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Alexandra Leitão: “Sou um pouco colérica e não minto”

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Alexandra Leitão 
tem 43 anos e não gosta 
de se ver maquilhada 
nem com o cabelo esticado

Luís Barra

A mulher que dá a cara pelo Governo na polémica sobre o fim dos contratos de associação assume que a ideia foi sua e revela que tem as filhas no Colégio Alemão. Um perfil da secretária de Estado Alexandra Leitão

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

Alexandra Leitão entrou-nos como um trovão pela casa adentro, há pouco mais de um mês, depois do Governo anunciar que quer rever os contratos de associação com escolas privadas. As sucessivas presenças na televisão deram-nos a conhecer uma mulher assertiva, com grande capacidade de argumentação e que mais parece uma ministra do que secretária de Estado. Até porque, ao contrário do ministro da Educação, que nunca deu uma entrevista, Alexandra Leitão, de 43 anos, assumiu a liderança de uma medida que, confessa ao Expresso, é da sua autoria e foi combinada com Tiago Brandão Rodrigues.

“É. Falei com o ministro antes de aceitar. É público que já tinha escrito pelo menos três vezes sobre este assunto. Portanto, não podia estar neste lugar e não o fazer”, afirma, acrescentando, que sabia ter “uma enorme sintonia com o ministro sobre o entendimento do que deve ser o sistema de ensino”. “Conhecia-o há muito tempo, sabia o pensamento dele. Temos uma sintonia pessoal e política também”, explica. Enquanto o ministro não dá entrevistas — “porque ainda não é o momento”, diz fonte oficial —, ela vai para a frente do touro, sem problemas.

Sportinguista, bem humorada e de sorriso fácil, Alexandra Leitão não tem conta no Facebook, nem vai ao Twitter. Filha única de uma enfermeira do Norte, que foi presa pela PIDE, e de um homem que sempre trabalhou por conta própria, a secretária de Estado da Educação nasceu em Lisboa e cresceu em Carcavelos, onde fez a escola pública até entrar para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), onde se licenciou — com média final de 16 valores —, fez mestrado e doutoramento.

Era sempre a mais nova da turma, porque entrou para a escola aos cinco anos. Menina bem comportada, sempre adorou os estudos e era muitas vezes chamada de marrona. Inclusive na FDUL, onde entrou em 1990, num curso frequentado por várias figuras públicas, como João Tiago Silveira, Marco Perestrelo ou Sérgio Sousa Pinto. Curiosamente, todos ligados ao PS.

A militância surge-lhe precisamente aí. No segundo ano vai, sozinha, inscrever-se na Juventude Socialista (JS), por convicção e porque nessa altura era a forma mais natural de intervir na vida académica.

Fundadora do Núcleo de Estudantes Socialistas da FDUL, da qual foi coordenadora, teve os seus primeiros 15 minutos de fama quando liderou a contestação ao professor Soares Martinez. “Lembro-me que estávamos a discutir em grupo e às tantas digo, bem, temos de pensar em... e nesse momento todos se calaram”, conta. O momento, captado pelas câmaras de televisão, levou-a até às páginas da Revista do Expresso, num perfil escrito por Carlos Magno. O facto da contestação ser feita por um grupo dos melhores alunos do curso de Direito ajudou a que o conselho científico da faculdade acabasse por afastar o professor das orais, assim como o caso de estar prestes a ser jubilado e portanto ser o último ano em que dava aulas. Alexandra até tinha dispensado à oral com o “terrível” professor, mas por ser “profundamente antifascista” havia uma “predisposição” da sua parte, assume, que foi alimentada pelo sentimento de injustiça crescente entre os alunos, pela forma como Martinez conduzia as orais.

Combativa e estudiosa

Casada desde 1998 com o colega de curso João Miranda, filho do constitucionalista Jorge Miranda, tem duas filhas, uma de 14 e outra prestes a fazer 11, que frequentam o Colégio Alemão, porque, explica, “optei por uma escola com currículo internacional”. Foi através do marido, amigo de infância de Tiago Brandão Rodrigues que conheceu o atual ministro da Educação — passaram muitas vezes férias em Moledo.

Os colegas e amigos elogiam-lhe a capacidade oratória e o enorme poder de argumentação. “Prepara-se bem, estuda muito a fundo os dossiês. Nas orais, não deixava os professores tocarem na bola, tal era a sua capacidade argumentativa”, diz o jurista Pedro Figueiredo. O ex-colega e amigo Nuno Cunha Rodrigues completa, afirmando que “é uma pessoa de causas, simpática, afável e combativa” e que “não é de se deixar intimidar ou afrouxar”. Ela própria assume que por vezes pode ser “colérica” e “impulsiva”.

Antes de receber o convite de Tiago Brandão Rodrigues, feito cinco dias antes de tomar posse, Alexandra Leitão conciliou sempre as aulas enquanto professora assistente na FDUL, com outras atividades.

Durante o XIII Governo Constitucional, entre 1997 e 1999, liderado por António Guterres, foi adjunta do então secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros (PCM), Vitalino Canas. “Sempre houve tradição na PCM de ir recrutar à FDUL jovens juristas. Ela já era assistente na faculdade, foi um processo natural. O marido também foi meu assessor, assim como João Tiago Silveira ou Pedro Lomba, por exemplo”, justifica o ex-secretário de Estado. O deputado do PS diz dela, que “é muito resoluta, inteligente, trabalhadora e atenta ao pormenor”.

Indicada por Vitalino Canas, torna-se diretora-adjunta do Centro Jurídico da Presidência do Conselho de Ministros (CEJUR), entre 2009 e 2011, onde desempenhou funções de consultora de 1999 a 2009 e em 2011. Foi ainda vogal do Conselho Superior da Magistratura, eleita pela Assembleia da República, entre junho de 2005 e dezembro de 2009 e vogal do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República de 2011 a 2015. Participou em inúmeros cursos de formação e de pós-graduação, em colóquios, conferências e tem obras publicadas na área do direito administrativo e da educação, além de ser fundadora da revista “E-Publica”.

Uma ex-colega, que prefere o anonimato, não crê que a carreira política fosse algo programado. Aliás, considera que pelo facto de a secretária de Estado ser “muito transparente, se calhar até mais do que gostaria, não deve tirar nenhum prazer da exposição mediática” e que está a geri-la “o melhor que sabe e pode”. Alexandra, garante: “Eu não minto.”

“Tem sempre argumentos sólidos e bem construídos e por isso pode não ser a pessoa mais flexível. Mas não é muito intransigente. Pode ficar a remoer a situação, mas não guarda ressentimentos. Regista o comportamento, mas não é persecutória”, diz o jurista e ex-colega Nuno Cunha Rodrigues.

Consciente da responsabilidade do lugar e da pressão a que está sujeita, assume-se uma mulher de esquerda, que está “a lidar muito bem com a geringonça”. Até agora, o que mais lhe custou neste processo foi ouvir pais dizerem que é “fria e calculista”. Assegura que não é. É empática, os alunos adoram-na. Ah, e quando vai à televisão detesta que a maquilhem e estiquem o cabelo. “Não gosto de me ver demasiado maquilhada. Não pareço eu. Não vou mudar nada em mim por causa do cargo.”

[Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 junho 2016]

  • “O meu ministro dura o tempo que a geringonça durar”

    Alexandra Ludomila Ribeiro Fernandes Leitão nasceu em Lisboa, entrou com cinco anos para a primeira classe e nunca mais parou de estudar, até ao doutoramento, que terminou com media de 18 valores, em 2011. A aluna brilhante e bem comportada da Faculdade de Direito, que aos 43 anos tornou-se na Secretaria de Estado do amigo Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, tem dado a cara pelo governo na intenção de acabar com os contrato associação. E assume que essa é uma causa sua