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Dia de Portugal: 43 anos depois as Forças Armadas regressaram ao Terreiro do Paço

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ANTONIO COTRIM / LUSA

O que mudou e o que permanece igual nas comemorações do dia das Forças Armadas, 43 anos depois

Carlos Abreu

Jornalista

Quarenta e três anos depois, as Forças Armadas regressaram por iniciativa do comandante supremo ao Terreiro do Paço. A última vez que aqui comemoraram o seu dia, era domingo. Chefiava o Estado o Almirante Américo Thomaz, que tal como Marcelo Rebelo de Sousa chegou às 10 horas quando já se encontrava à sua espera o chefe do Governo. Em 1973, o Presidente do Conselho [de ministros], Marcello Caetano. Esta manhã, o primeiro-ministro, António Costa. E mais sete ministros. Chefes militares e dezenas de convidados. E o povo que Marcelo haveria de elogiar no seu discurso.

Tal como há 43 anos, à chegada do chefe de Estado escutou-se o hino nacional e de um dos navios da Armada, embandeirado em arco, foi disparada uma salva de 21 tiros. Desta feita, ecoaram os disparos do navio-escola Sagres enquanto os cerca de 1300 homens e mulheres na parada interpretavam, em sentido, “A Portuguesa”. Momento solene. E as semelhanças ficam-se por aqui. Conta o repórter do vespertino “A Capital” que nesse domingo de 1973, “as unidades em parada totalizavam um conjunto de cerca de 3000 homens e incluíam destacamentos das forças militarizadas e, pela primeira vez, uma representação da Marinha Brasileira do navio-escola Custódio de Melo”. Conta ainda o repórter que enquanto tocava o hino, o local foi sobrevoado por uma esquadrilha da Força Aérea. Esta manhã, os F-16 só haveriam de cruzar estes céus momentos depois, durante a homenagem aos mortos em combate. E voltar a dar um ar da sua graça no desfile aéreo. Pormenores. Mas as diferenças não por aqui.

É que a anteceder o desfile, nesse junho de 1973, época em que oficiais, sargentos e praças combatiam e pereciam em terras de África, foi lida uma alocução onde se recordava que “gente estrangeira tenta há vários anos espoliar-nos do que é dos portugueses, do que lhes levou centos de anos a construir e a aperfeiçoar e que consumiu dezenas de gerações a sacrificarem-se para transmitirem a Nação Portuguesa intacta de pais para filhos”.

ANTONIO COTRIM / LUSA

Esta manhã, quando Marcelo tomou o palanque voltou a usar a palavra “sacrifícios”. “Foi o povo, a arraia-miúda, quem nos momentos de crise, soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo. O povo, sempre o povo, a lutar por Portugal. Mesmo quando algumas elites - ou melhor, as que como tal se julgavam - nos falharam, em troca de prebendas vantajosas, de títulos pomposos, meros ouropéis luzidios, de autocontemplações deslumbradas ou simplesmente tiveram medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos”. Prebendas, ouropéis… Incomuns palavras para a arraia-miúda. Siga a cerimónia que haverá de terminar meia hora antes do previsto, pelas 11h30. Já debaixo de calor intenso que até as forças na parada há-de fazer suar, ao contrário da chuva civil que não molha militares, diz o povo.

Em oito minutos louvou Marcelo as capacidades da arraia-miúda e pouco mais do que isso levou para condecorar três antigos combatentes e três militares no ativo. Os homens que em Angola e Moçambique fintaram a morte em ações de combate, já depois da revolução dos cravos, foram agraciados com uma Cruz de Guerra de 3.ª classe (1.º cabo auxiliar enfermeiro António Nunes, visivelmente emocionado) e mais duas de 4.ª classe (soldado José Santana e soldado de Transmissões António Alves). Aqueles que permanecem no ativo foram distinguidos com medalhas de Serviços Distintos (grau prata para o coronel da Força Aérea Armando Leitão e grau cobre para o sargento-chefe do Exército José Gouveia) e uma de Mérito Militar (para o cabo da Marinha Luís Lopes).

ANTONIO COTRIM / LUSA

Esta manhã, as condecorações ficaram por aqui, mas em 1973, “A Capital” fazia notar que “ a concessão da Torre e Espada ao general António de Spínola dominou este ano, o Dia de Portugal, muito embora o galardoado – ausente na sua Guiné – não tivesse podido recebê-la das mãos venerandas do Chefe Supremo das Forças Armadas”. E acrescentou: “Porventura discutido como político, António de Spínola não sofre restrições no campo da valentia e da estratégia militar. Nem a devoção, com que inteiramente se doou à tarefa que lhe foi destinada, alguma vez se viu posta em causa.” Politiquices à parte, na única foto que o vespertino publica nas três páginas que dedica ao 10 de Junho “o prof. Marcello Caetano beija respeitosamente a mão duma senhora a quem acabou de entregar a medalha atribuída a título póstumo”.

Entregues as medalhas, seguiu-se o desfile das forças em parada. Há 34 anos, três mil. Hoje de manhã, cerca de mil e trezentos apeados e muitas dezenas motorizados, para além de uma centena de antigos combatentes a quem é dada honras de abertura, logo atrás dos estandartes. Mas o principal destaque foi para passagem das 58 viaturas Pandur do Exército e de mais 21 da Marinha e sete da Força Aérea que fez ainda desfilar um C-130, um C-295 e um P3-C, quatro Alpha Jet, quatro F-16 e um helicóptero EH-101 Merlin. Dois hélis da Marinha, Lynx MK95, também marcaram presença sem esquecer o navio escola Sagres, a fragata Vasco da Gama, a corveta António Enes e o reabastecedor Bérrio, ali no Tejo. Para o ano há mais. Resta saber se será no Terreiro do Paço.