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PSD disposto a perdoar para ganhar

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Marco Almeida, o candidato que Passos não quis em 2013, ficou a menos de 2000 votos de vencer Sintra. O PSD deve apoiá-lo em 2017

d.r.

Marco Almeida e Vistas podem ter apoio do PSD. Quando o objetivo é vencer as autárquicas, até se enterram os machados

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

O PSD está a considerar apoiar a recandidatura nas autárquicas de vários nomes que, no passado, concorreram como independentes. Marco Almeida, que avançou para a Câmara Municipal de Sintra, em 2013, contra a direção de Passos Coelho, e Paulo Vistas, que ‘herdou’ o lugar de Isaltino Morais em Oeiras, deverão vir a ter o endosso social-democrata nas eleições de setembro de 2017. Mas pode haver mais casos, por todo o país.

Carlos Carreiras, que Passos encarregou de coordenar o processo autárquico a nível nacional, admite que ainda não é o momento de discutir nomes, mas sempre vai adiantando que “não vamos limitar as nossas opções de escolha, se elas forem coerentes com o projeto” que o partido defina para cada concelho. “Não estamos a excluir nem a incluir nenhuma situação”, diz quando confrontado com os exemplos concretos de Sintra e Oeiras: “Há muito para ser discutido antes de se concentrarem as atenções nas lideranças e nas equipas.”

Mas o Expresso sabe que estes casos estão já a ser abordados nas estruturas partidárias de Lisboa. Apesar de ainda ser cedo (falta mais de um ano), tanto Marco Almeida como Paulo Vistas já deram nota pública de que pretendem recandidatar-se e os responsáveis sociais-democratas estão conscientes que dificilmente reconquistarão Sintra e Oeiras contra estes dois nomes. Desde que o atual presidente da distrital, Miguel Pinto Luz, tomou posse do cargo (há dois anos) têm sido, de resto, dado passos no sentido de “enterrar os machados de guerras anteriores”: as autárquicas são entendidas pelos dirigentes locais como “um momento decisivo” para a atual liderança do partido e nenhum trunfo pode ser desperdiçado. Um gesto, sintomático: o apoio público a Passos Coelho que Marco Almeida lhe deu antes das legislativas de outubro.

Marco Almeida quase ganhou a Câmara de Sintra, em 2013. Ficou a menos de 2000 votos do vencedor, Basílio Horta (PS), mas a larga distância do candidato oficial do PSD, Pedro Pinto, que teve pouco mais de metade dos votos do ‘dissidente’. Ficou provado que, se o eleitorado social-democrata não se tem dividido pelos dois nomes, o PSD poderia ter mantido a Câmara que tinha sido sua nos últimos 12 anos (com Fernando Seara). Em Oeiras a história não é tão simples: o concelho que só deixou de ser Isaltino quando este, para cumprir a pena de prisão a que foi condenado, teve de entregar o lugar ao seu número dois, Paulo Vistas, está agora sob a expectativa de o seu histórico presidente poder voltar a candidatar-se. E antes de se ter isso por certo, não há condições para o PSD “fechar negócio” com o atual edil.

Embora reconheça que a fasquia é alta — o objetivo definido pelo presidente do partido é a recuperação da Associação Nacional de Municípios, neste momento liderada pelo PS —, Carlos Carreiras recusa que a estratégia do PSD para as autárquicas se deva subordinar ao pragmatismo. “Uma coisa é a quantidade [de câmaras e mandatos], outra a qualidade”, explica.

Passos não está em causa

“Queremos ganhar as eleições mas temos de saber para quê (qual a visão? com que missão?)”, diz Carreiras. “Queremos garantir uma vitória qualitativa para consolidar a quantitativa”, afirma, lembrando que o atual primeiro-ministro “não ganhou as legislativas, nem quantitativa nem qualitativamente”.

Recusa que uma derrota nas autárquicas ponha em causa a liderança de Pedro Passos Coelho: “Sempre defendi que não há esse contágio. Estamos a falar de eleições concelho a concelho — essa é a extrapolação que tem de ser feita.” Se houver que atribuir responsabilidades pelo que venha a acontecer no outono de 2017, Carlos Carreiras coloca-se na linha da frente: “Em primeiro lugar é minha, depois é da Comissão para as Autárquicas, e depois é dos presidentes das distritais, das concelhias e, por fim, dos candidatos.” Passos não entra no rol: “Só depende dele próprio [a permanência à frente do PSD]. Tomáramos nós que ele continue a ter paciência para continuar a liderar o partido.” Glosa uma frase outrora proferida por Durão Barroso: “Passos sabe que vai voltar a ser primeiro-ministro. Não sabe é quando.”

Está a levar a missão a peito: pretende reunir com os responsáveis partidários (distritais e concelhios) dos 308 municípios antes de feitas as escolhas, num processo inédito em comparação com autárquicas anteriores; está a fazer um levantamento dos resultados de todas as mais de oito dezenas de coligações que foram feitas com o CDS nas eleições de 2013 (embora destas só 22 tenham conquistado o poder). Sendo realista, não evita uma certa dose de otimismo: se é verdade que o PS leva vantagem sobre o PSD (150 contra 108 câmaras), lembra que a PàF, nas legislativas de outubro, venceu em 178 municípios. Há margem para um bom progresso, reconhece.

[Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 junho 2016]

  • Vistas vai recandidatar-se à Câmara de Oeiras

    “As gentes do Isaltino Morais são as gentes de Paulo Vistas. O meu projeto é, e continua a ser, de continuidade”, afirma o autarca de Oeiras, após ter anunciado que irá recandidatar-se em 2017 como independente