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Os sete trabalhos de Portas

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Paulo Portas vai trabalhar com a Mota Engil e garante que não há qualquer incompatibilidade com o que fez no Governo. E, entre muitas tarefas, vai voltar à televisão: já este mês estará em Londres para comentar o referendo e em Madrid para acompanhar as eleições

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Luis Barra

Não são doze, como os trabalhos de Hércules, mas Paulo Portas vai precisar de poderes olímpicos para encaixar nas horas do dia tudo aquilo que se propõe fazer, em todos os lugares onde se propõe estar a partir de agora que abandonou o Parlamento e diz que deixou a política de vez. São sete, como os “Sete Pilares da Sabedoria”, o livro de T.E. Lawrence que é muito apreciado por Portas - e, nem de propósito, alguns dos cargos que Portas vai desempenhar no futuro estarão ligados (e vão levá-lo) aos cenários desérticos da obra escrita por “Lawrence da Arábia”.

Se Portas foi um globetrotter nos quatros anos e meio em que esteve no Governo, primeiro como ministro dos Negócios Estrangeiros e, depois, como vice-primeiro-ministro com a tutela das exportações, vai continuar a sê-lo na sua nova vida. Em boa medida, aproveitando o conhecimento e os contactos que acumulou na sua passagem pelo Governo - seja na promoção de empresas portuguesas como a Mota-Engil, seja ao fazer a análise geopolítica e geoeconómica do mundo. Sem desperdiçar o seu talento mediático, todas as semanas, com um programa numa TV perto de si.

Paulo, o construtor

Nos últimos meses Paulo Portas recebeu convites de várias grandes empresas portuguesas, para cargos executivos ou não executivos, para ser consultor ou assumir outra forma de colaboração. Mas tinha decidido à partida que queria fazer várias coisas, para exercitar os seus talentos, e essa decisão condicionou todas as outras - desde logo, inviabilizou qualquer vínculo mais formal ou executivo a uma única empresa.

Acabou por aceitar o convite de António Mota para ser consultor da Mota-Engil. A construtora é uma das maiores empresas do país, já com 28 mil trabalhadores e uma presença cada vez maior fora de fronteiras (ver texto abaixo), e é para fora de fronteiras que Portas vai ajudar a Mota-Engil a olhar: será o responsável pelo novo Conselho Internacional da empresa.

Será Paulo Portas a reunir o conjunto de personalidades que irá constituir este órgão de aconselhamento estratégico, tendo como principal foco de atenção os mercados da América Latina, um dos continentes onde a construtora vê mais margem de crescimento.

Enquanto MNE e vice-PM, tendo o pelouro da promoção das exportações, Portas liderou diversas missões empresariais em que a Mota Engil participou. Questionado pelo Expresso, o ex-governante garante, no entanto, que esse facto não coloca qualquer sombra de incompatibilidade ao relação às suas novas funções. Primeiro, porque nunca teve qualquer tutela direta no setor das obras públicas, construção e infaestruturas. Depois, porque a Mota Engil era apenas uma de muitas empresas exportadoras que aproveitavam essa “boleia” das missões empresariais promovidas pela AICEP e pelo Governo.

“A Mota Engil é uma das empresas portuguesas mais internacionais. Eles, como mais de quinhentas outras empresas, estiveram nalgumas missões empresariais, nas quais se inscreveram através da AICEP. Não iam, como não ia nenhuma, a convite meu. Vi lá fora aquilo que eles são capazes de fazer e de ganhar. Lutei por eles lá fora, como lutei por ‘n’ outras empresas”, afirma Portas ao Expresso. “Como MNE e vice-PM sempre lutei para que as empresas portuguesas, em igualdade de circunstâncias, pudessem ganhar contratos, mercados e oportunidades. Foi o que fiz durante quatro anos com centenas de empresas, porque era esse o melhor serviço que podia prestar ao meu país”.

TIAGO MIRANDA

Paulo, o comentador

Com Marcelo a saltar da TV para a política, era inevitável a tentação de ver Portas saltar da política para a TV. Aliás, já o fez no passado - em 2005, quando pela primeira vez se demitiu da presidência do CDS, com Ribeiro e Castro a suceder-lhe, Portas virou comentador num programa na SIC. Agora, volta ao comentário televisivo, mas na TVI. Será a forma de manter o contacto com o grande público, embora num formato diferente do que foi seguido por Marcelo ou Marques Mendes.

O arranque será em setembro, mas os moldes do programa estão rodeados de grande mistério. Há promessas de muito digital, muito multimedia e muita interatividade, mas não se sabe nem o título nem em que dia será emitido. Ao que o Expresso apurou, Portas deverá interagir com o pivô José Alberto Carvalho, mas também haverá um momento para responder a perguntas colocadas por jovens.

Numa lógica multimédia, Portas deverá fazer pequenos filmes ao longo da semana que servirão como teasers, lançando os grandes temas do programa seguinte. E esses, sabe-se já, serão sempre sobre política internacional - o ex-líder do CDS não quererá repetir a experiência anterior, em que cada comentário que fazia sobre política interna era lido como um recado para dentro do partido. A ideia é focar-se sempre no mais importante que se passa no mundo, embora sempre com um olho no impacto que esses acontecimentos terão em Portugal. “Tudo o que é internacional acaba por ser nacional mais cedo ou mais tarde”, justifica Portas.

“As pessoas têm dúvidas e inquietações sobre o que se passa no mundo, gosto da ideia de lhes dar a informação necessária para as ajudar a perceber”, explica.

Antes, e como aperitivo, Paulo Portas será o enviado especial da TVI para comentar o referendo britânico sobre a permanência na UE, já a 23 de junho. Depois de Londres, o antigo número dois do governo salta para Madrid para seguir em direto as eleições espanholas (26 de junho). Ao que o Expresso apurou, é possível que Portas ainda faça o mesmo nos EUA, para as convenções dos democratas e dos republicanos, ou em Angola, no congresso do MPLA.

Paulo, o professor

A partir da rentrée, Paulo Portas vai dar aulas na Universidade Nova de Lisboa. Ou melhor, na Nova School of Business and Economics - uma das faculdades portuguesas mais cotadas internacionalmente. Em outubro, Portas dará um MBA com o tema “Deadlocking growth” - ou como resolver o impasse do crescimento. Em 2017, vai orientar um programa de formação para executivos sobre geoeconomia e geopolítica, centrado nas estratégias das empresas para abordar os mercados emergentes (sobretudo América Latina, Ásia, África e Golfo).

Paulo, o exportador

Foi o primeiro cargo assumido pelo ex-líder do CDS, pouco depois de passar a pasta para Assunção Cristas: vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Portugal (CCIP). “No fundo, é a continuação daquilo que eu fiz no Governo, na promoção das exportações portuguesas, mas agora do lado da sociedade civil e do associativismo empresarial”, explica ao Expresso.

Uma das suas funções é reunir regularmente com os responsáveis de exportações de empresas para avaliar a situação estratégica dos mercados mais importantes e ajudar a fazer a avaliação de oportunidades e riscos. Outra das suas incumbências são as missões comerciais, à semelhança das missões empresariais que dirigia enquanto estava no Governo. A primeira missão da CCIP com o selo de Portas é já na semana que vem, a Cuba. Seguem-se, ainda este ano, viagens a São Paulo e México.

TIAGO MIRANDA

Paulo, o orador

O circuito internacional de colóquios e conferências é um dos grandes negócios para celebridades de várias áreas com alguma projeção internacional. Durão Barroso que o diga. Paulo Portas vai juntar-se a essa elite, paga a peso de ouro para andar pelo mundo a falar da sua experiência e visão do mundo, seja em eventos de consultoras, universidades, empresas, think thanks, fundações ou academias diplomáticas.

O ex-vice-PM já assinou contrato com uma das grandes empresas mundiais de agenciamento para este tipo de eventos, a Thinking Heads, baseada em Madrid e vocacionada para o mercado latino. Entre os seus “conferenciantes”, a Thinking Heads tem nomes tão diversos como o ex-PM espanhol Felipe Gonzalez, o Nobel da economia Joseph Stiglitz, o ex-comissário europeu Joaquin Almunia, o fundador da Virgin Richard Branson, o guru da autoajuda Deepak Chopra ou o chef Ferran Adrià.

Portas tem em carteira um portfolio com cerca de uma dezena de temas, como o impasse político da UE, o défice de competitividade da Europa, a experiência dos ajustamentos externos ou o impacto da globalização nos sistemas políticos e na capacidade de resposta dos Governos.

TIAGO MIRANDA

Paulo, o consultor

Se, em Portugal, Portas fica ligado à Mota Engil enquanto conselheiro estratégico para a internacionalização, fora do país prepara-se para fazer o mesmo com diversas outras empresas, sobretudo do Golfo e da América Latina. “Será uma consultoria estratégica, institucional e empresarial, sem qualquer ligação ou interesses em Portugal”, explicou ao Expresso.

Paulo, o formador

E para o CDS, nada, nada, nada? Não: para o CDS, Portas ainda arranjará um tempinho. Não a pensar num qualquer regresso à liderança, mas para ajudar a preparar os futuros quadros centristas. Por pedido de Assunção Cristas, Portas aceitou ajudar na formação política permanente dos jovens do partido, através da chamada “escola de quadros”, uma iniciativa que foi lançada durante os anos em que presidiu ao CDS.

Não se trata, porém, de manter um pé na política, a pensar num eventual regresso. Palavra de Portas. A prová-lo, elenca todas as atividades em que se vai ocupar daqui em diante. “Estou a fazer um reset completo na minha vida”, assegura ao Expresso.
Apesar disso, é garantido que vai manter a presença mediática e vai falar de política portuguesa de cada vez que a política internacional dê motivos para isso. E não se vai desligar do CDS. “Terei o comportamento que se pede aos ex-presidentes: sóbrio o mais possível, e, nas horas especiais, presente.”

* Com Christiana Martins

Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 06/06/2016