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Os ministros mais criticados no congresso do PS

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Marcos Borga

Eduardo Cabrita e Vieira da Silva estiveram na ‘berlinda’. O 21º Congresso do PS não poupou estes militantes de longa data na avaliação ao que o Governo tem feito bem ou mal. Mas Mário Centeno e Caldeira Cabral também podem levar recados para casa. O Expresso ouviu todos os apelos e queixas dos congressistas

“Muitos autarcas, como eu, não nos revemos nas palavras do ministro Eduardo Cabrita. Não é preciso ter medo de dizer isto”. Esta terá sido, porventura, a crítica mais direta do XXI Congresso do PS à atuação de um ministério do atual Governo. O Presidente da Junta de Freguesia de Fão e Apúlia, Luís Peixoto, referia-se ao facto de o ministro Adjunto, com a tutela do poder local, ter dito que “não faz sentido voltar ao passado” para rever o mapeamento das freguesias.

Luís Peixoto centrou a sua intervenção na centralização administrativa e fez um apelo ao Presidente da Associação de Municípios, Manuel Machado, para que as palavras dos autarcas fossem ouvidas. E o próprio Manuel Machado deixou uns conselhos ao Governo e a Eduardo Cabrita. Começando por elogiar o trabalho do Governo até ao momento, o também Presidente da Câmara Municipal de Coimbra relembrou que é preciso “ir mais além”. Machado defende a necessidade de democratizar as CCDR e promover a descentralização administrativa do Estado, começando por pôr em prática “uma nova lei de financiamento local”, assim como “acelerar a aplicação de fundos comunitários do programa Portugal 2020”.

Para além destas críticas de alguns autarcas, o Governo foi visado por outros tantos militantes emigrantes pela falta de entrusamento entre o PS nacional e as secções socialistas no estrangeiro. João Reis e Tiago Corais foram dois dos congressistas que trouxeram este tema para debate. Mas foi Tiago Pereira, da secção socialista de Macau, quem chegou mesmo a avançar com uma proposta para que os socialistas emigrantes se sintam mais incluídos: o voto eletrónico. Talvez Augusto Santos Silva tenha tirado nota.

Muitos foram também os congressistas que criticaram as condições laborais hoje existentes em Portugal. Na maioria dos casos foram jovens socialistas que aludiram ao tema, mas também os houve mais velhos a debater a precariedade laboral ou a questão dos falsos recibos verdes. Vieira da Silva esteve presente e certamente não terá ignorado as queixas e os apelos feitos pelos congressistas que se dedicaram a esta questão.

Mas o Ministro do Trabalho e da Segurança Social não teve a sua pasta analisada no que toca a trabalho jovem ou precário. Também se falou, precisamente, de Segurança Social. Pedro Simões Pereira, deputado da Assembleia Municipal de Benavente, curiosamente candidato à Assembleia da República na lista de Santarém, encabeçada por Vieira da Silva, deixou um conselho ao agora ministro: “embora os consensos à esquerda funcionem, é preciso consensos à direita em matérias como a Segurança Social”. Uma sugestão que é corroborada dentro do partido por alguns militantes mas também pelo próprio Passos Coelho.

Saúde não ficou à porta mas quase

Um dos temas que muitos podiam querer debater, e que é tantas vezes tema central de debate na sociedade em geral, era a saúde. No entanto, o tema poucas vezes foi tocado ao longo do segundo dia de congresso.

No entanto, houve quem ainda o tenha incluído na discussão, embora de forma algo inglória, já que não obteve grande reação por parte dos restantes congressistas. José Abraão, um dos socialistas sindicalistas mais notório, trouxe o tema para dentro do Pavilhão 1 da FIL. Entre apelos à sindicalização dos ouvintes, José Abraão deixou uma sugestão clara a Adalberto Campos Fernandes: “para não pôr em causa o SNS temos de dizer não à privatização da ADSE”.

O sindicalista dá uma resposta clara ao relatório preliminar da reforma do modelo da ADSE tornado público esta semana. Na proposta enviada aos sindicatos, é sugerido que a ADSE passe a ser gerida “por uma pessoa coletiva de direito privado, de tipo associativo, sem fins lucrativos e de utilidade pública”. Ou seja, o relatório sugere a criação de uma sociedade mutualista gerida por uma seguradora privada mas supervisionada pelo Estado. Para José Abraão a resposta a esta reforma da ADSE é clara: não.

Adalberto Campos Fernandes pode não ter sido visado em quantidade mas os sindicatos prometem não facilitar.

Resultados económicos postos em causa por uma minoria

A verdade é que o Congresso foi bastante pacífico, poucos foram os congressistas que deixaram crítica e muitos os que deixaram elogios. No entanto, houve uma pequena minoria, desde logo encabeçada por Francisco Assis, que se assumiu contra a atual liderança do partido e do país.

Se Assis centrou a sua intervenção nas coligações feitas pelo PS com os partidos de esquerda usando a Europa para mostrar que os partidos que sustentam o Governo têm mais diferenças do que semelhanças com o PS, o mesmo não foi feito por Ricardo Gonçalves. Embora o militante socialista, conhecido por ser crítico da atual solução governatuva, tenha subscrito “as palavras do Assis”, a justificação encontrada foi outra: os dados económicos.

Ricardo Gonçalves diz que os resultados económicos alcançados são fracos e que o PS corre o risco de cometer “o maior falhanço político desde o 25 de abril”. Para o socialista, o crescimento económico e o défice deveriam estar a melhorar mais do que estão porque há muitas frentes de combate no Governo. Exemplo disso, diz Ricardo Gonçalves, “é a moção aqui apresentada, que se dedica mais a justificar o Governo do que a projetar o futuro”.

Na mesma linha crítica está o congressista Pedro Caetano, para quem os resultados económicos até agora conseguidos pelo Governo são sinónimo de um Executivo “fraco, sem mobilismo e sem reformas”. O desemprego, o défce e o crescimento económico estão abaixo do esperado, diz Pedro Caetano, que conclui que se o rumo não mudar o PS “vai perder as autárquicas”, deixando ainda uma crítica às preocupações excessivas que o Governo tem com os partidos que o sustentam.

Mas António Costa também foi visado, e numa das suas principais bandeiras: as 35 horas. José Luís Correia usou da palavra para dizer que este não é “o momento adequado” para avançar com a medida. O congressista acrescentou mesmo que a governação está “demasiadamente concentrada no Parlamento e não nos ministérios”.

Críticas suaves e escassas, que passaram despercebidas nalguns casos, por entre os vários elogios feitos ao longo das mais de 100 intervenções. Costa e o seu Governo podem sair satisfeitos mas, quem sabe, com algumas sugestões no bolso.

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