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As prioridades de Costa, os maiores aplausos do PS e a crítica a um ministro

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Marcos Borga

A “geringonça saiu reforçada, a Europa é um tema onde o PS ainda anda à procura do equilíbrio perfeito, o partido não admite qualquer recuo na Educação. Foi o fim do congresso do PS

Helena Pereira

Helena Pereira

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Editora de Política

Luísa Meireles

Luísa Meireles

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Redatora Principal

A olhar em frente, António Costa repetiu em português o “Yes, we can” de Obama. O secretário-geral do PS, que saiu do XXI congresso relegitimado, traçou os objetivos imediatos e falou apenas para o PSD para pedir apoio contra eventuais sanções na Europa.

As prioridades

- Impulso à economia
Costa quis marcar uma viragem na governação. Depois de seis meses concentrados na reposição de rendimentos, o PS deve olhar mais para as empresas. Anunciou uma nova aposta nas startups, que será amanhã conhecida em detalhe, bem como na “nova revolução industrial”, o programa “Indústria 4.0”, virado para o digital, em que pela primeira vez Portugal não depende nem dos seus escassos recursos nem da sua posição geográfica. Veremos o que mais haverá nas próximas semanas para que essa viragem tenha efeito.

Neste âmbito, não deixou de sublinhar a importância da agricultura, onde anunciou também um novo programa de regadio que está em discussão com a União Europeia, que multiplicará "pequenas Alquevas" pelo país.

"Há que resolver um problema, que são os bloqueios estruturais do país", adiantou ainda Costa, que não perdeu o otimismo. As palavras finais de que ser otimista não é ignorar as dificuldades foi ainda um recado para o Presidente que tem tentado contrabalançar o discurso a que chamou de "otimismo irritante" de Costa.

- Combate na Europa
Criticado por Francisco Assis, na frente europeia, Costa demorou-se largamente neste capítulo no encerramento do congresso. Esta é uma das questões essenciais para as governações socialistas nos países europeus mas, cá, tem ainda outra importância uma vez que divide os partidos que sustentam este Governo.

PCP e BE acusam a Europa de não perder uma oportunidade para chantagear a Europa. A reestruturação da dívida é um dos assuntos que está a ser discutido precisamente entre PS e BE e PS e PCP neste momento.

E o que disse Costa? Lembrando as frases de Assis, de que "nunca uma divergência foi uma dissidência" afirmou que "só em ditadura a divergência é dissidência", prometeu um combate sem tréguas contra a ideologia neoliberal, mas "sem bravata".

"Ou são os socialistas e sociais-democratas a dizer basta desta deriva neoliberal e vamos construir a Europa dos valores e do modelo social, ou então estaremos a fomentar o populismo, o nacionalismo e a extrema-direita", destacou. Costa tentou fazer o equilíbrio entre as pressões da esquerda e a posição histórica europeísta do PS.

Nas reações imediatas, o BE aplaudiu o sinal de combate na Europa e o PEV achou que foi pouco. Faltou posição mais dura contra Tratado Orçamental e TTIP, disse Heloísa Apolónia aos jornalistas.

- Acelerar a descentralização
Costa gostou de ser presidente de câmara. Quer acelerar o processo de transferência de competências para as autarquias e a eleição direta dos presidentes das duas áreas metropolitanas, Lisboa e Porto. Não perde uma oportunidade de falar nisso. Mais uma vez isso aconteceu neste congresso. Não se sabe, porém, como será feito, se a lei exigirá dois terços dos votos no Parlamento (como todas as leis eleitorais).

O secretário-geral anunciou aliás que as próximas eleições autárquicas deverão realizar-se já num novo quadro legislativo, de reforço da competência dos municípios. Um primeiro passo será a eleição das Comissões de coordenação e desenvolvimento regional (CCDR) pelas autarquias da região, em vez do atual processo de nomeação governamental. O calendário das mudanças é até ao final do ano.

- O desafio das autárquicas
Preparar as autárquicas é a próxima tarefa assumida e, aí, Costa foi claro que o compromisso com as esquerdas é só para o Governo. "Cada um fará o melhor por si, o melhor que souber e puder", disse aos delegados, dando liberdade às concelhias e federações do partido para tomar as "melhores decisões", com o objetivo de ganhar as eleições.

Se, ontem, se falou em autarquias sem nunca nomear o caso internamente polémico do Porto, hoje Costa foi mais claro, ao sublinhar que se devem manter as alianças nomeadamente naquelas cidades onde o PS integra "com orgulho" o trabalho feito por independentes. Mas não mencionou todavia expressamente nem a palavra Porto nem o nome de Rui Moreira.

Para bom entendedor, valeu a sua tirada sobre o facto de "gostar muito do emblema da mãozinha", mas que ele não deve impedir uma boa gestão."Não podemos sacrificar uma boa gestão em nome da mãozinha", disse.

Aplausos do PS

Mas o que é que o povo do PS mais gostou de ouvir? A defesa da escola pública e o ataque aos lóbis dos privados. Costa defendeu o ministro Tiago Brandao Rodrigues na questão do corte dos contratos de associação com escolas privadas e obteve da plateia a maior ovação com gritos de "PS, PS". Foi o momento alto do discurso de Costa em termos de mobilização interna.

Importante foi também a parte do acolhimento aos refugiados. Trata-se de um tema completamente diferente mas que aqueceu a sala. Costa referiu-se aos 1000 migrantes que só nesta última semana morreram afogados no Mar Mediterrâneo a tentar chegar à Europa e, à semelhança do que tem feito em ocasiões anteriores, mostrou-se solidário.

Os congressistas mostraram o seu apoio, bem como quando Costa, minutos depois, manifestou-se contra o fecho de fronteiras na Europa. Numa altura em que a União Europeia se divide sobre a forma como deve lidar com a imigração, os aplausos de um congresso num tema como este devem merecer destaque.

A crítica ao ministro

Surpreendente foi a forma como António Costa deixou, de improviso, uma crítica ao seu ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral. Foi com um sorriso mas mesmo assim foi uma crítica. "Tímido e talvez discreto demais", disse, enquanto o procurava nas primeiras filas da plateia na grande sala da FIL do Parque das Nações, que nem sequer chegou a encher para a sessão de encerramento do congresso.

Costa prometeu investir mais na captação de investimento e no impulso às exportações mas o que acabou também por ressalvar foi um reparo ao ministro ao mesmo tempo que elogiou o secretário de Estado para a Internacionalização, Jorge Costa Oliveira, que está na tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

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