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Pedro Silva Pereira: “Aliança de esquerda tem potencial para ir além da legislatura”

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Luís Barra

Pedro Silva Pereira, atual eurodeputado do PS e figura de primeiro plano do tempo da governação de Sócrates, foi o redator da moção de estratégia que António Costa leva ao Congresso do partido deste fim de semana. Para ele, a moção é clara ao designar que os adversários principais são a direita xenófoba e neoliberal. Em Portugal, a aliança de esquerda foi possível porque os parceiros convergiram no objetivo de virar a página da austeridade e que este Governo assenta essencialmente no programa do PS. Não é de gestão, diz em resposta a Assis. E acha que eventuais sanções ao país seriam “imorais”

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O congresso vai ser de grande critica e divisão esquerda-direita?
Vai ser um congresso de debate e portanto está afastada a ideia de que será sem historia, que é um risco que às vezes se corre nesta situação política. Os sinais são de que o partido está mobilizado para fazer um debate sério sobre as suas escolhas.

Mas esperam-se críticas...
É um partido livre, aberto, ninguém tem medo de ninguém. O secretário-geral acabou de ser eleito com mais de 90% dos votos, espera-se que o congresso confirme uma solidariedade ativa do PS com a sua liderança. Não devemos confundir a visibilidade das criticas com a representatividade. Nós ouvimos algumas vozes criticas, essencialmente as esperadas, esta semana houve um jantar de contestatários que juntou 10 pessoas, uma coisa é a visibilidade das criticas – têm sempre mais atenção mediática – outra é a representatividade. Estou convencido que existe uma grande sintonia com a liderança e o governo.

As escolhas têm a ver com a justificação dos acordos de esquerda, que é muito aparente na moção de estratégia do secretário-geral?
A moção evidentemente defende o Governo que ele próprio lidera, se tal não acontecesse é que seria estranho. Se alguém ainda quiser ressuscitar essa discussão sobre a solução governativa nós estamos sempre a debater. Ao recordar as provas superadas pelo Governo e ao invocá-lo como uma realidade de facto, a moção está apenas a confrontar as críticas pessimistas da direita com a realidade, não creio que visasse os adversários internos da solução governativa. Há evidentemente alguns que estariam do lado errado à hora errada, mas a verdade é que a moção é clara quando diz que está a responder às críticas da direita, que imaginava que a solução não ia funcionar nem tinha estabilidade, não conseguiria aprovar os instrumentos de governação e isso não se confirma. É natural que a moção recorde isso ao partido e ao país.

Não encara como um recado aos críticos internos?
A própria moção diz que está a responder às críticas da direita. Também havia visões pessimistas dentro do PS quanto a esta solução governativa, têm de se confrontar com a realidade. Não é sectarismo, é realismo. Esta solução governativa funciona.

E não é um governo de gestão?
Não, funciona e um aspeto essencial desta solução é que assenta essencialmente no programa de Governo do PS. O PS não teve de abandonar, nem transigir nos princípios e valores nem no essencial do seu programa. Naturalmente teve abertura suficiente para compromissos e contributos dos partidos signatários do acordo, mas preservando a sua identidade. Por isso acho que aqueles que veem nesta solução uma viragem histórica como se agora o PS tivesse abandonado a sua aposta no projeto europeu nos seus princípios e valores, estão a atirar ao lado.

Existe um reposicionamento do PS, está mais à esquerda, perdeu o lugar central de partido-charneira?
Houve muitas coisas que se alteraram. Uma foi o posicionamento dos partidos do centro-direita em Portugal, em particular do maior, o PSD, que teve uma radicalização à direita, o que criou também divisões internas, porque se afastou da sua linha tradicional, mais social-democrata, mais central. Isto é evidente em particular desde a apresentação do projeto de revisão constitucional apresentado por Passos Coelho em 2010. O PS tem uma nova política de alianças, tornada possível pela disponibilidade de convergência dos partidos à esquerda. Mas ela tornou-se viável porque aceitou como plataforma fundamental o programa político do PS. Ele está no Governo para virar a página da austeridade, cumprindo as regras do euro e reafirmando o seu compromisso europeu.

Marcos Barro

Quer dizer que o PS não fez uma viragem ideológica, continua no centro?
Continua a ser um partido de centro-esquerda, como o é há muitas décadas e é a sua natureza. Nós estamos hoje confrontados com dois fenómenos políticos à escala europeia, que é o surgimento de uma direita populista e xenófoba e, por outro lado, uma deriva no sentido neoliberal de um pensamento único económico de uma parte importante dos partidos de centro-direita europeus. Isto coloca uma situação nova que significa que o PS tem de ter noção de onde vêm as ameaças mais significativas dos princípios e conquistas do socialismo democrático e da social-democracia europeia.

Vêm dessa direita xenófoba e dessa deriva de pensamento neoliberal?
Por um lado da extrema direita xenófoba, que hoje põe em causa o projeto europeu, com partidos de extrema direita em França e no Reino Unido a ganhar eleições europeias; por outro desta doutrina económica que pretende que o estado social dê um passo atrás. Mas atenção: isto não significa por exclusão a enunciação de uns aliados preferenciais à esquerda, porque a moção é muito clara a recordar que persistem divergências políticas à esquerda que ninguém ignora. O que torna viável esta construção governativa é que ela viabiliza um programa político que é essencialmente o do PS. O desígnio deste governo é virar a página da austeridade e nisso convergimos com os partidos mais à esquerda mas com fidelidade ao projeto europeu e às regras do euro. É a natureza do compromisso.

Esta aliança circunstancial não é a linha do futuro, portanto?Não estou a adivinhar nenhum enunciado para o futuro. Francisco Assis criticou o facto de a moção identificar como adversários principais do PS a direita neoliberal e a direita xenófoba, e que essa identificação era uma novidade histórica, visto que o PS tinha um confronto histórico com a esquerda comunista e a extrema-esquerda. O que a moção diz é que os adversários principais hoje são a direita neoliberal e a xenófoba, mas ao dizermos isso não estamos a enunciar por exclusão uma lista de aliados principais. As alianças do PS têm de assentar num respeito pelos seus princípios e valores fundamentais. Seriam igualmente impossíveis à esquerda se tivessem como preço o PS abdicar dos seus princípios e valores. A aliança à esquerda tem um potencial para ser duradoura, para a legislatura e até poderá ir para além disso desde que ela continue a ser fiel à proposta política fundamental do PS. É da natureza das coisas que numa parceria política haja uma relação de forças que é ditada pelas dimensões de cada um.

E o PS é o mais votado...
À esquerda, e com uma diferença considerável. A situação é diferente da que se colocou em Espanha.

Mas os partidos socialistas também não pactuaram com políticas de direita? A social-democracia também não está a realinhar posições?
Esse é um dos temas para debate do congresso, há até um colóquio com participação de não militantes e até pessoas que nem são simpatizantes. Devemos evitar retratos simplistas. Hoje a família socialista europeia continua a ser a segunda maior no Parlamento Europeu, tem nove primeiros-ministros, está presente em 12 governos, mas não negamos que existe um desgaste dos partidos centrais do sistema, porventura até mais intenso no centro-direita do que na família socialista. Um dos temas em debate é pois como respondemos ao desafio do presente. Nós também partilhamos desse debate europeu.

Pensa que vai haver sanções a Portugal?
As sanções seriam um total absurdo. Espero que o bom senso prevaleça e embora se trate de avaliar os resultados do governo anterior, o governo faz bem em defender o interesse nacional e contestar o absurdo das sanções. São injustas para os portugueses, são contraproducentes para o objetivo que se visa alcançar e são imorais. A Comissão Europeia, que patrocinou as políticas que pelos vistos não teve os resultados desejados, não tem autoridade moral para propor sanções a Portugal.

Autarquias. Renovar a maioria dos municípios e freguesias é a prioridade eleitoral, diz a moção: “o que esperamos é que as eleições locais permitam consolidar uma maioria autárquica em sintonia com o novo tempo político moderado pelo PS desde final de 2015”. Isto é apostar numa maioria autárquica de esquerda?
Essa leitura seria abusiva. O objetivo de ter a maioria dos municípios e freguesias significa consolidar a maioria que o PS já representa no país, não é somando votos a mais ninguém. O PS já é hoje o maior partido autárquico, se o tornar a ser, só consolida a maioria que já tem. Não há aí segredos escondidos. Andar a somar câmaras do PS e do PC pelo pais não parece ser um exercício muito útil do ponto de vista político. O que aí está só diz que o PS aspira a ser o maior partido autárquico e se isso acontecer consolida uma liderança política no país.

Vai integrar as listas?
Não sei, é um assunto que tratamos no congresso, mas não é assunto que tenha sido conversado ou que me preocupe.

Texto publicado na edição de 3 de junho do Expresso Diário