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Marcelo ao “Die Welt”: “O programa de Costa não está assim tão longe do de Passos”

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Marcos Borga

Numa entrevista ao influente jornal alemão, o Presidente defende a “geringonça”. Diz que, “até agora, PCP e BE aceitaram a realidade” e que “o programa que implementam não está assim tão longe do que o governo conservador fez”. Marcelo diz, aliás, “não ter a certeza” de que possam caír “hoje ou amanhã”. A Berlim deixa um obrigado: “Há uma falta de gratidão em relação à Alemanha”

Marcelo Rebelo de Sousa diz que comunistas e bloquistas têm sabido pôr "a disposição para o compromisso" acima "dos ideais" e que a forma como Portugal está a ser conduzido pelo Governo das esquerdas "não está assim tão longe do que o anterior Governo conservador fez".

Antes de deixar Berlim, onde começou a semana com um pedido a Angela Merkel para que Portugal não seja sancionado pelo défice de 2015, o Presidente da República deu uma entrevista ao "Die Welt", onde desdramatiza o apoio do PCP e do BE ao socialista António Costa: "Até agora estes partidos aceitaram a realidade".

Como? O PR explica: "Ambos tinham dúvidas sérias em relação à NATO e uma posição crítica em relação à UE, eram muito críticos no que diz respeito ao mecanismo para o défice". Mas, "a disposição para o compromisso e a vontade de apoiar o Governo foram, até agora, mais fortes do que os ideais".

Marcelo discorda, por isso, dos que, "na oposição", dizem que "caiem hoje ou amanhã". E deixa na entrevista ao jornal alemão uma profecia de alguma fé na estabilidade política em Portugal, descolando dos que antecipam a queda do Executivo: "Eu não tenho tanta certeza".

Empenhado em serenar os ânimos de Berlim quanto ao rumo de Lisboa, o Presidente da República sublinha que por muito que o primeiro-ministro socialista diga que é contra a austeridade "a realidade é como é. Podemos sonhar em mudar a UE um dia, quando a situação e os equilíbrios de força forem outros. Mas não é esse o caso".

Questionado sobre o que levará países como Portugal, a Espanha ou a Grécia a endividarem-se excessivamente, Marcelo pede compreensão - "Portugal passou em 40 anos de uma economia colonial para uma economia de mercado europeia e ao mesmo tempo construimos uma democracia. Isso custou dinheiro". E lembra que foi a Europa que em 2007 aconselhou: "Vamos fazer o que Keynes disse, avançar com investimento público. Foi o que fizemos e o resultado é o valor da dívida".

Insistindo que seria "injusto" aplicar sanções a Portugal pelo défice de 2015, Marcelo lembra que o anterior Governo de Passos e Portas "fez tudo no seu poder para cumprir as obrigações. E tinham um trabalho muito difícil e há que valorizar a enorme evolução conseguida". O PR sublinha, a propósito: "Temos a impressão que nunca ninguém foi penalizado".

Sobre a crise dos refugiados, o Presidente da República elogia Angela Merkel pela política que seguiu de aceitar refugiados na Alemanha e por "ter percebido que esta crise é um novo desafio para a Europa". Crítico da "falta de uma estratégia de longo prazo" na atual UE, Marcelo Rebelo de Sousa deixa um aviso "aos amigos nos Balcãs": "a xenofobia e o populismo não são abordagens viáveis a longo prazo para resolver os problemas".

A Berlim, Marcelo agradece o apoio, "sem o qual não seríamos uma democracia". O título da entrevista, no papel e na edição on line do "Die Welt" é: "Há uma falta de gratidão em relação à Alemanha".