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Esta história não acaba aqui

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Paulo Portas deixa a presidência do CDS e vai “fazer empresas e trabalhar com empresas”. Como na política e no jornalismo, promete que estará “focado em resultados”. Há dez anos, também saiu da liderança do CDS. Há 20, alistou-se no CDS. Há 40, meteu-se na JSD. Daqui a dez estará a caminho de Belém com currículo de empresário de sucesso?

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Texto*

Jornalista da secção Política

Tiago Miranda

O ano de 2015 não acabou sem Paulo Portas reescrever a sua história. Ou, pelo menos, fechar-lhe um capítulo, a tempo de ainda poder abrir outro. Aos 53 anos, não deixou entrar o ano novo sem fazer o anúncio de que vai mudar de vida. Arrumou a casa nos últimos dias de 2015. No caso, arrumou um ciclo da sua vida que abriu 20 anos antes, em 1995, quando deixou "O Independente", o jornal que lhe tinha dado país, para se "alistar" no CDS-PP, o partido a que havia dado forma.

Dez anos antes deste anúncio, já Portas tinha anunciado a mesma coisa - em 2005, precisamente uma década depois do salto para a política, anunciou pela primeira vez que saltava para fora.

Foi de pouca dura: em dois anos voltou à presidência do CDS. Isto, apesar do CDS não ter sido a sua escola, nem sequer a sua primeira escolha - essa, fê-la em 1975, ao inscrever-se na JSD. Só dez anos depois dessa filiação corrigiu a mira e se pôs a fazer casa mais à direita: em 1985 era o elemento mais jovem da comissão política da candidatura presidencial de Diogo Freitas do Amaral, que fez a direita encher o peito e encher as ruas. Esta é a história de Portas, contada em seis capítulos, a intervalos de dez anos, sempre nos anos acabados em 5: 1975, 1985, 1995, 2005, 2015 e 2025. Isso mesmo: arriscamos acrescentar mais dez anos ao que conhecemos hoje, para adivinhar Portas daqui a uma década.

Mesmo se, com isso, corremos o risco de dar razão a uma frase que o próprio, com o seu sentido de humor, costuma dizer aos amigos, e não necessariamente sobre si: "Em Portugal, as reputações são póstumas e as previsões são precoces." Para o exercício de previsão partimos da uma única pista deixada pelo próprio, esta semana, em declarações ao Expresso: "Sou absolutamente focado em obter resultados. Foi assim no jornalismo, foi assim na política e será assim na etapa seguinte.

Essa etapa só começa no day after da presidência do CDS. É provável que venha a fazer empresas e que trabalhe com empresas. E, como sempre, estarei focado em resultados."

OCTÁVIO PASSOS

Sérgio Granadeiro

1975, O ANO COM VERÃO QUENTE

Com o país em alvoroço político, Paulo Portas voou para longe da agitação. Foi em França que acompanhou pela televisão a desordem política de cá.

Paulo tinha quase 13 anos, Portugal tinha quase uma guerra civil. Teve mesmo um verão quente.

Não é que as altas temperaturas políticas não interessassem ao rapaz - para desgosto de sua mãe, interessavam-lhe até demasiado. Helena Sacadura Cabral, economista e primeira mulher nos quadros técnicos do Banco de Portugal, reconhecia bem os sinais do processo de politização em curso: era o segundo filho que via fugir-lhe para a política. Miguel, o mais velho, militava na União dos Estudantes Comunistas desde a ditadura e até já tinha prisão no currículo; Paulo, quatro anos mais novo, ia pelo mesmo caminho, mas noutro sentido. Reagiu à desordem esquerdista do pós-revolução agarrando na bandeira do PPD.

Agarrar a bandeira não é, neste caso, força de expressão e ia a par com colar cartazes. Instado por um tio, irmão do pai, Paulo pôs-se a colar cartazes do PPD-PSD durante as madrugadas, às horas a que os intrépidos direitinhas corriam menos riscos de levar tareia de comunistas. Pormenor importante: essas colagens faziam-se em 1974 e 1975 em pleno Alentejo vermelho, por Vila Viçosa e arredores, os territórios do Avô Leopoldo, o patriarca da família paterna. Depois, em 1976, com a Constituição aprovada de fresco e o solitário voto do CDS contra esse documento fundador, o avô havia de exortar a família (pelo menos, a sua ala direita) a ir ao primeiro grande comício dos ditos centristas em terras alentejanas. Paulo lá estaria, em Elvas, mas mais por devoção ao avô - filho de galegos nascido em Portugal por acaso, engenheiro de minas que se fez empresário no mármore alentejano, católico dos quatro costados, salazarista convicto, homem-forte do regime em Évora e procurador à Câmara Corporativa, mas tolerante o suficiente para criar descendência de várias colorações, de conservadores a progressistas.

O saltinho ao CDS foi, por esses tempos, um desvio de Paulo. A sua casa política era outra, fascinado por um líder que seguia como a um caudilho: Francisco Sá Carneiro, que o cativou e o fez inscrever-se na JSD logo em 1975. Um fascínio que resultava mais do carácter do homem do que da cartilha do partido.

No verão de 1975, a mãe de Portas temia que o país caísse numa guerra civil e encaminhou o filho para um curso de verão em Dijon, numa residência de jesuítas. Que mais não fosse, afastava-o do olho do furacão. Por cá, o miúdo discutia política, vivia política, respirava política. Também fazia coisas normais de miúdo: fascinado por História, desenhava exércitos e brincava às grandes batalhas. No Colégio São João de Brito, jogava à bola, mas também escrevia, desenhava, paginava e distribuía pelos colegas o jornal "Risos e Sorrisos" (este episódio seria mais premonitório sobre o seu futuro no jornalismo do que na política). Depois das aulas, ia para casa do melhor amigo e colega de turma António Pires de Lima e jogavam Subbuteo; depois, se ficava para jantar, discutia política à mesa com António Pires de Lima - pai.

Quando ainda não tinha voz política, tinha ouvidos para a política - crescera a assistir aos debates familiares. Entre o irmão comunista, o pai socialista e a mãe conservadora. Entre o avô paterno e os seus filhos de várias declinações. Vinha do lado Portas essa urgência de discutir coisas sérias e salvar o mundo. Ao invés, o lado Sacadura Cabral, embora albergasse um herói da nação (o aviador da travessia para o Brasil), marcou o jovem Paulo mais pela irreverência, o sentido de humor e o lado lúdico da vida. Da mãe herdou a energia e a joie de vivre; do pai, o arquiteto Nuno Portas, o gosto pelo desenho, o rigor no trabalho e a inevitabilidade da política. De ambos, a fé. "A fé esteve muito presente na nossa educação. Os nossos pais queriam que soubéssemos dar, aceitar e perdoar.

Mas sempre como dons que só fazem sentido com liberdade. Lembro-me de a minha mãe nos dizer algo assim: 'No princípio é Deus, no fim é Deus.

O caminho somos nós que o fazemos, mas é melhor fazê-lo com Ele'", recorda agora em conversa com o Expresso. Dessas lições de fé e liberdade, aprendeu tolerância e aceitou-se como "católico e pecador. Não presto muita atenção a pessoas que só proclamam virtudes - alguma coisa lhes deve estar a escapar", conclui.

Tendo crescido num ambiente altamente politizado, Paulo fez a sua escolha quando, depois da revolução, se deparou com "o caos" e reagiu ao "horror do PREC": as expropriações, a reforma agrária e os exílios, cujas consequências testemunhou na família. Alinhado com o PPD e filiado na JSD desde 1975, não demorou a ter a sua primeira experiência eleitoral: uma lista à Associação de Estudantes do São João de Brito, na qual era o presidente e o amigo Tó (Pires de Lima) o seu vice. Era, sem saberem, uma AD antes de tempo: Paulo era o PPD de serviço e António estava mais próximo do CDS. Por estranho que pareça, essa era a lista moderada - a concorrência estava à direita. A opção pelo PPD, colocou, mais uma vez, Paulo em contraste com o irmão Miguel. O mais velho era comunista, Paulo fez-se conservador. Miguel escolheu viver com o pai depois do divórcio de Nuno e Helena, Paulo ficou com a mãe. Miguel era do Benfica, Paulo do Sporting - naquelas rotinas de filho de pais separados, não dispensava a cada 15 dias a ida a Alvalade com o pai, para vibrar com os golos de Yazalde e as defesas de Damas. O mais velho andava na escola pública, Paulo não largava o ensino dos jesuítas. Louro, brilhante, irrequieto, ares de príncipe nórdico, Miguel era a estrela da companhia.

Paulo era moreno, também era brilhante, também era irrequieto, mas era o segundo e percebeu cedo que tinha de trabalhar mais, ser mais eloquente, ter mais argumentos, ser mais afirmativo.

Os irmãos infernizavam a vida um ao outro como só os irmãos sabem fazer, mas adoravam-se, apoiavam-se e compreendiam-se como só entre irmãos. Mesmo que, anos a fio, Paulo tivesse de se contentar em herdar a roupa que já não servia ao mais velho. "Adorávamo-nos para além das diferenças", resumiu, em 2012, ao chorar a morte do irmão - e talvez nenhum golpe o tenha amputado como esse.

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Alberto Frias

1985, O ANO QUASE

No ano em que Cavaco Silva ganhou pela primeira vez umas eleições, com uma promessa de homem providencial, Paulo Portas já tinha sido uma promessa de muita coisa mas era incerto se seria confirmação.

Por essa altura, com 23 anos, era uma promessa liberal das águas do CDS, era uma promessa de novo Marcelo nas páginas do "Semanário", era uma promessa de político na campanha presidencial de Freitas do Amaral. Por outro lado, já sabia que nunca cumpriria promessa nenhuma de ser advogado - tirou o curso de Direito na Católica por dever de bom filho e obrigação de ter canudo, mas sem brilho nem proveito. O seu caminho, qualquer que fosse, seria a política. Uma das vias possíveis já estava queimada: fora um jovem laranjinha promissor, mas em 1982 abandonou o PSD, depois de oito anos de militância na jota e pouco mais de dois no partido. Comecemos por aí, pelo laranjinha promissor que ficou pelo caminho.

Se foi o magnetismo de Sá Carneiro a atraí-lo para o PPD-PSD, Paulo não se fazia rogado e dirigia-se diretamente ao líder. Com a autoridade de ser militante da JSD, o à-vontade de ser visita regular na sede do partido depois das aulas e a lata de quem tinha 14 anos e nada a perder, escrevia cartas a Sá Carneiro, com sugestões e alertas - umas vezes sobre a implantação do partido no Alentejo, que conhecia bem, outras sobre a política e o país em geral. Numa dessas cartas, avisava o líder laranja contra a infiltração de "esquerdistas inteligentes" no partido, referindo diretamente o "caso da família Rebelo de Sousa". O fundador do PSD achava-lhe piada. Não era o único. Helena Roseta, arquiteta amiga de Nuno Portas e destacada figura do PSD, conhecia-o e dava-lhe conversa. E deu-lhe espaço quando, em 1977, chegou a diretora do "Jornal Novo". Na página de cartas dos leitores, publicou a 7 de abril o texto de um "P. Portas, de Vila Viçosa". Era porrada de fazer bicho nos três homens que então mandavam no país: Mário Soares, o primeiro-ministro e líder do PS, Freitas do Amaral, líder do CDS, que apoiava o Governo, e Ramalho Eanes, o Presidente da República que dera posse a esse Executivo de entendimento PS-CDS. "Três traições" era o título do texto, que acusava Soares de "desenfreada ambição do poder", associava o PS a "corrupção, falhanço, compadrio, vaidade, arrogância e incompetência", apontava o dedo a Freitas do Amaral por ter virado costas ao eleitorado do CDS e imputava a Ramalho Eanes uma "passividade incompreensível" por ter "medo de optar [e] medo de agir". A caneta afiada do leitor de Vila Viçosa valeu a Roseta uma repreensão de Eanes e a Portas o seu primeiro processo por difamação e abuso de liberdade de imprensa.

O queixoso era o Presidente da República. Questionado sobre se tinha intenção de ofender, Paulo respondeu como o irmão nos interrogatórios da PIDE: "Não respondo." Eanes, ao perceber que fora insultado por um miúdo sem idade para ir a julgamento, desistiu do processo.

Insuflado pela fama do processo presidencial, Paulo ganhou estatuto na JSD, onde era o guru dos ultras sá-carneiristas. Num famoso congresso da jota, na Curia, em dezembro de 1978, esteve à beira de ficar como nº 2 da organização, mas foi forçado a desistir quando se descobriu que, com apenas 17 anos, não tinha idade estatutária para esses voos. Como prémio de consolação foi nomeado diretor do jornal da JSD, um encarte do "Povo Livre" que tinha o apropriado nome "Pelo Socialismo".

Com Portas a diretor, o jornal passou a chamar-se "Jovem Reformista". Na trincheira sá-carneirista, Portas juntou pela primeira vez a paixão pela política à paixão pelo jornalismo. O líder do PSD retribuiu assinando a sua ficha de militante no PSD a 12 de setembro de 1980, quando Paulo fez 18 anos. Passados três meses, Sá Carneiro morreu em Camarate e quebrou-se o elo que ligava Paulo a um partido que, na verdade, o ultrapassava pela esquerda. Não houve mais jotinha, nem houve mais laranjinha.

No livro "O Independente - A Máquina de Triturar Políticos", Marcelo Rebelo de Sousa diz que Portas, desde essa rutura, "nunca resolveu o seu problema com o PSD". Como prova disso, lembra que "ele ganhou o estatuto de estrelinha no ataque ao PSD. A especialidade dele era irritar os laranjinhas". Marcelo foi boa testemunha, pois, antes de haver "O Independente", a provocação aos laranjinhas era feita no "Semanário", o jornal lançado em 1983 pelo professor e pela direita do PSD que não queria o Governo do Bloco Central. Foi nesse jornal que Portas conquistou de vez o "estatuto de estrelinha". Já tinha, pois, estatuto quando se juntou, em 1984, ao Grupo de Ofir, onde Lucas Pires, então líder do CDS, quis dar corpo a um pensamento liberal que quase não havia em Portugal. Juntou gente como Bagão Félix, António Borges ou Lobo Xavier, mas também Luís Nobre Guedes, que será importante adiante nesta história. Em 1985, porém, o sonho liberal de Ofir foi atropelado pelo cavaquismo emergente. Com Pires apeado da liderança do CDS, a sucessão discutiu-se entre Adriano Moreira, que representava uma guinada democrata-cristã e conservadora, e Morais Leitão, com a bandeira liberal. Foi no meio dessa disputa que Portas admitiu, pela primeira vez, filiar-se no CDS: o jovem comentador do "Semanário" foi apresentado como um de três reforços que entrariam no partido caso Morais Leitão vencesse o congresso; os outros dois eram Jorge Braga de Macedo e Margarida Marante. Nos textos dessa época, Portas não poupava Adriano, mas foi este o escolhido para dirigir o CDS.

Quase em simultâneo, outro acontecimento marcou o percurso de Portas, alimentando-lhe esperanças e terminando em desilusão: a candidatura presidencial de Freitas. Na comissão política da campanha P'rá Frente Portugal, Portas era, mais uma vez, o benjamim.

Dez anos depois da desordem do PREC, Paulo estava no epicentro da reação da direita. Os 46% da AD de Sá Carneiro já tinham sinalizado essa mudança, os 49% de Freitas aumentaram o score, encheram praças e devolveram o orgulho a quem não era de esquerda. Deram para isso tudo, só não deram para vencer. Desaparecido Sá Carneiro no PSD, enterrada a utopia liberal no CDS, derrotado Freitas no país, restava a Portas o "Semanário" - mas, arrumado o Bloco Central, este perdeu o seu propósito político e era cada vez mais o jornal que saía com a revista "Olá!". Portas precisava de outro jornal com um enfoque político - havia de construí-lo de raiz.

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

JOÃO CARLOS SANTOS

Marcos Borga

1995, O ANO DO SALTO

"Alisto-me para o combate", disse Paulo Portas, na sua primeira declaração aos jornalistas na qualidade de ex-jornalista. Foi a 26 de julho de 1995. Como mandam as regras, e sendo já político, acrescentou que se alistava levando apenas consigo "as convicções".

Como é hábito na classe, não era bem verdade.

Também levava a bagagem de mais de uma década a fazer política, embora no papel de jornalista e comentador: alguns aliados, muitas vítimas, suficientes inimigos e bastantes processos judiciais herdados dos seus sete anos como diretor-adjunto e, depois, diretor de "O Independente". Aportava à política com a mesma convicção e estilo definitivo com que jurara, nos anos precedentes, que nunca o faria. "Não tenho ambições políticas nenhumas. Se há coisa definitiva na minha vida, é essa. Gosto muito de política, mas nunca farei política", dizia no início dos anos 90 numa entrevista à RTP que ainda hoje é um sucesso no You-Tube. "A mim, basta-me ser jornalista. Gosto da vida em 'O Independente' e não tenciono trocá-la por nada", repetiu, quando o "Público" noticiou que fora convidado para cabeça de lista do CDS às europeias de 1994.

Não era difícil adivinhar que Portas acabaria por trocar o jornalismo pela política. "O Independente", que lançou em maio de 1988 com Miguel Esteves Cardoso e uma redação cheia de jornalistas jovens, talentosos e com sangue na guelra, não escondia ao que vinha: "'O Independente' não acredita na neutralidade. Politicamente é democrata e conservador. Tomará partido por quem tiver razão, praticará a tolerância e não será cúmplice de qualquer abuso de poder. Mas considera a liberdade acima da igualdade", lia-se no Estatuto Editorial publicado no primeiro número do jornal. A recusa da falsa neutralidade, num país onde muitas redações continuavam "neutralmente" inclinadas à esquerda, não era coisa pouca. A afirmação conservadora, quando esse conceito ainda não tinha sido reabilitado, era um desafio. O alinhamento liberal, por oposição à moda igualitária, era uma rutura.

A promessa de não ser cúmplice de abusos de poder, quando Portugal ainda se habituava à primeira maioria absoluta da democracia, era um mapa do caminho que estava pela frente. Para "O Independente" existir foram precisas várias deceções, algum aborrecimento, um país novo, dinheiro a rodos e essa maioria absoluta. Vamos por partes. As deceções chegaram à medida do empenhamento político de Portas a meio dos anos 80. Era como se tivesse um toque de Midas ao contrário. Apoiou a candidatura presidencial de Freitas, e esta morreu na praia dos 49%. Acreditou na vitória de Morais Leitão no CDS, mas Adriano levou-lhe a melhor. E apostou num excêntrico candidato do PPM nas eleições europeias de 1987, e também esse falhou o objetivo de chegar a Bruxelas. O candidato era Miguel Esteves Cardoso - MEC para os amigos e para quem não o conhecia de lado nenhum a não ser dos textos geniais que há uns anos ia escrevendo para os jornais ou dos tempos de antena dessa campanha, em que se apresentava de laço e ideias provocadoras sobre Portugal e a Europa. Nem a novidade, nem a excentricidade, nem o antieuropeísmo, nem sequer a alegria da campanha de MEC lhe deram a eleição. E o Portas-político dava o seu terceiro tiro na água. O que fazer?, como diria Lenine.

A resposta veio de outra pergunta: "Porque é que não fazemos um jornal?", perguntou Paulo a Miguel quando jantavam no dia em que o primeiro fazia 25 anos. Estavam os dois aborrecidos com o que faziam nas suas redações (Portas ainda no "Semanário", Esteves Cardoso no Expresso) e das suas cabeças saiu a alternativa: um jornal editorialmente irreverente, graficamente arrojado, culturalmente vanguardista, politicamente às avessas do que havia no mercado - conservador, liberal, patriota, eurocético. O dinheiro, reunido e arquitetado por Luís Nobre Guedes, vinha, curiosamente, da euforia do país novo, acabado de entrar na CEE e vitaminado por fundos europeus e fortunas instantâneas feitas em bolsa.

Por fim, havia a maioria absoluta de Cavaco: o "absolutismo" era o cenário, o cavaquismo era a inspiração. Portas, que em 1987 dera ao homem do PSD o benefício da dúvida, por falta de alternativa (recusava-se a votar no CDS de Adriano, que continuava a zurzir), não tinha já dúvidas nenhumas: Cavaco não respondia a nada do que Portugal precisava.

Não garantia o "choque liberal" exigido em "O Independente". Não defendia Portugal do "superestado" europeu. Não respeitava as elites, nem a tradição, nem a história - antes se apresentava com um exército de homens novos, sem nome, nem biografia, nem mundo, munidos apenas de peúgas brancas, unhas compridas no dedo mindinho e alegria em agradar ao "chefe". Para Portas, Cavaco não era, sequer, de direita, apesar de ter sido eleito com os votos desta. "Ninguém gosta de ser útil no voto e inútil na política", escrevia Portas, exortando à "revolta da direita". Foi esse o seu combate pelos anos seguintes, demolindo o cavaquismo com golpes certeiros nos seus generais (Cadilhe, Beleza, Braga de Macedo, Duarte Lima) e desconstruindo Cavaco: a competência era sorte, a autoridade era arrogância, o poder era corrupção, o projeto para o país era esbanjamento de dinheiro. Ao mesmo tempo, "O Independente" foi abrindo espaço a uma nova direita, sem as meias tintas do centrismo equidistante de Freitas do Amaral. Primeiro, através da candidatura presidencial de Basílio Horta; depois, alcatifando a subida de Manuel Monteiro ao poder no CDS. Nobre Guedes, que chegou ao CDS bastante antes de Portas (filiou-se em 1987, no dia a seguir à maioria absoluta de Cavaco que deixou o CDS com 4%), identificou em Monteiro e nos seus rapazes da jota a aposta certa para o futuro do partido.

Com Portas, deu-lhes visibilidade, contactos, estratégia e soundbites. A dupla Portas/Monteiro era uma realidade e dava resultados, mas ambos se empenhavam em negá-la. Até ao momento em que Portas já não tinha razão para continuar à frente de "O Independente" nem atrás da cortina no CDS - quando Cavaco anunciou a saída do Governo em 1995, a sua Némesis do jornalismo pôde dedicar-se à política. Deixou o jornalismo sem nunca cumprir o objetivo de vender mais um exemplar do que o Expresso, mas vendia muito. As manchetes do "Indy" eram sinónimo de terror para os políticos à sexta-feira e tinham rendido muito dinheiro aos investidores do jornal.

"Alistou-se" no CDS, entretanto rebatizado CDS-PP, iniciais de Partido Popular, mas também de Paulo Portas. No "Indy", tinha deixado o guião para um novo CDS "Como Devia Ser": de direita e sem centrismos; inimigo da esquerda e adversário do PSD; sem coligações enquanto não tivesse dimensão para negociar; "profissional, coerente e imaginativo" a fazer oposição; deixando para trás os velhos "professores" e fazendo uma "revolução de dirigentes"; acrescentando à democracia-cristã um programa "mais liberal, mais radical e mais moderno"; com novas bandeiras. Com o salto, Portas ficava em posição de aplicar o seu programa para o partido. Bastava que não o atrapalhassem.

Luis Barra


2005, O ANO DO ATÉ JÁ

"Terminou o ciclo político em que presidi ao CDS/ PP", anunciou Portas na noite de 20 de fevereiro de 2005. Disse outras frases parecidas com as que se lhe ouviram há dias. Como esta: "O CDS teve presidentes que o abandonaram. Esta é a minha casa e eu jamais a abandonarei." Ou a promessa de "isenção" na escolha do seu sucessor. Portas já levava dez anos de CDS, dos quais quase sete como presidente do partido e três como membro de dois governos de coligação com o PSD. Foi uma década que valeu por duas. Começou, sem surpresa, com a rutura com Monteiro. A dupla não resistiu a dois protagonistas em palco. Um ano depois de se candidatar a deputado, Portas candidatou-se a líder do grupo parlamentar. Torpedeado pelo ex-amigo, teve mais votos brancos do que a favor. Num ambiente que já era irrespirável, bateu com a porta. "Mete dó", disse sobre o partido.

"Este CDS não tem emenda", garantiu. Saiu do Parlamento, mas não do CDS. Durante um ano e meio, preparou o regresso com a cumplicidade de sempre de Nobre Guedes e de um punhado de jovens turcos - voltou a apostar na renovação do partido, tendo ao seu lado desde a primeira hora gente como Teresa Caeiro, João Rebelo ou João Almeida.

Em março de 1998, em Braga, fez-se líder do CDS, contra Maria José Nogueira Pinto. Deixando para trás os tempos de guerrilheiro, propôs-se repor o partido no arco da governabilidade, moderando, para isso, os excessos ideológicos e de linguagem da fase em que ditara a agenda do CDS nas páginas de "O Independente". Preparar o CDS para voltar ao governo implicava deixar cair o antieuropeísmo (de "eurocético" virou "eurocalmo") e, em geral, descafeinar e recentrar o discurso.

"O que me sucedeu é bastante frequente nas vidas políticas", resume hoje. "Fui bastante ideológico na juventude e razoavelmente pragmático na maturidade." E rotula como uma qualidade aquilo que os adversários lhe apontam como um defeito: "É verdade que penso à direita e governo ao centro.

Isso é uma homenagem ao realismo, que é o princípio elementar da política de Estado". Pôde pôr essas regras em prática a partir de 2002, quando se entendeu com Durão Barroso para ser governo.

Mas para lá chegar teve um caminho rochoso. Tentou, antes dessa, outra AD, em 1999. Com Marcelo Rebelo de Sousa, então líder do PSD. Logo quem: o homem que fora o fazedor de factos políticos que Portas gostava de emular, o homem que fundara o "Semanário" onde Portas se projetou, o homem que era uma inesgotável fonte de notícias e de intriga nos primeiros anos do "Indy". Mas também aquele a quem Portas assassinou o carácter em público, ao contar na televisão a forma como o professor uma vez o terá tentado enganar com informação falsa sobre um jantar em Belém que (não) incluía vichysoise. A AD com esse Marcelo, de quem Portas disse que é "filho de Deus e do Diabo", não podia resultar. A coligação coincidiu com suspeitas sobre o passado de Portas, desenterradas pela investigação à Universidade Moderna, à qual o ex-jornalista estivera ligado como professor e diretor do Centro de Sondagens. Uma história rocambolesca que fez muitas vítimas, entre elas, Marcelo: quando a coligação se desfez pela pressão das suspeitas da Moderna, o professor viu-se forçado a deixar a liderança do PSD. Seguiu-se-lhe Durão Barroso, que em tempos dissera que, com ele, Portas teria de "comer o pão que o diabo amassou" antes de conseguir uma coligação. Não foi preciso tanto. Bastaram umas autárquicas que correram muito mal ao PS, ao ponto de António Guterres se demitir de primeiro-ministro, e umas legislativas em que, somando 40% do PSD e quase 9% do CDS, houve maioria de direita. Fácil? Menos do que parece. Pelo meio, Portas esteve a segundos de anunciar a sua demissão.

Nessas autárquicas de 2001, o líder do CDS jogava (mais uma vez) a sua sobrevivência e punha (outra vez) a cabeça no cepo. Em 1999 fora o cabeça de lista às eleições europeias, dois anos depois era o candidato do partido à Câmara de Lisboa. Com Santana Lopes e João Soares na frente da corrida, esperava ter votos para ser o fiel da balança. Mas Santana limpou o assunto com maioria absoluta.

Portas estava desfeito: o CDS fora dizimado e ele próprio falhara o único trunfo que podia jogar.

Apesar de ter sido eleito vereador em Lisboa com o slogan "Eu fico!", decidiu demitir-se de líder do CDS e comunicou-o à sua direção. Quando Portas descia do gabinete para a sala de conferências de imprensa, com o discurso de demissão na mão, entrou Guterres nos diretos das TV. para anunciar que se demitia. Portas subiu as escadas, rasgou o discurso e obviamente não se demitiu.

Dois meses depois era ministro da Defesa, com pose de estadista e programa reformista: cumprimento da promessa partidária de criar uma pensão para os antigos combatentes; profissionalização das Forças Armadas, com o fim do serviço militar obrigatório; privatização das indústrias de Defesa; reequipamento de todos os ramos - tarefa que o haveria de perseguir pelos anos seguintes, tantas foram as suspeitas de corrupção envolvendo os vários negócios, acima de todos a compra de dois submarinos.

TIAGO MIRANDA

João Carlos Santos


2015, O ANO DO ADEUS

"Não tenham medo, confiem, o CDS vai ser capaz", foram as últimas palavras da comunicação de Portas na noite em que disse, pela segunda vez na vida, que fechava o ciclo de líder do CDS. Invocou argumentos objetivos e quantificáveis, o maior dos quais os quase 16 anos que já leva à frente do partido. E argumentos políticos, como a vantagem do CDS ser o primeiro partido a dar o salto em frente, mudar de geração e preparar-se para o novo quadro político.

Desde que percebeu que a coligação PSD-CDS, apesar da vitória nas legislativas, não seria governo, afastada pela "geringonça" de António Costa (e percebeu-o, contaria depois, na sede do PS, numa dessas cimeiras em que era suposto negociar a viabilização do PS ao governo da direita), Portas começou a pensar cada pormenor da saída.

Detalhista e obsessivo com as tarefas que tem em mãos, preparou até as citações que havia de fazer no anúncio da decisão. "Não tenham medo" é uma citação de João Paulo II, o Papa de Leste que combateu o comunismo e que o fascinou na transição para a idade adulta.

Portas sai de cena com 18 anos de protagonismo político e um total de sete anos de governo: muito mais do que o CDS teve antes dele. Desde o regresso em 2007 confirmou a sua eficácia no Parlamento, no combate a Sócrates, a mestria para o soundbite e a intuição política. Conseguiu em 2009 e 2011 os melhores resultados do CDS em muitos anos. E recolocou-o no centro do poder, como número dois de Pedro Passos Coelho, num Governo onde, mais uma vez, teve de fazer concessões, engolir sapos e quebrar promessas. A demissão "irrevogável" de 2013 resume isso tudo num exemplo só - daí saiu como vice-primeiro-ministro de um Governo mais funcional e equilibrado. O espartilho da troika e do memorando de entendimento foi uma justificação para boa parte da governação. O pragmatismo e a realidade foram as outras.

"Governar é quase sempre uma escolha entre opções imperfeitas. Não é a imposição de uma ideologia, é a administração das possibilidades concretas que no momento concreto servem o interesse nacional. Qualquer semelhança entre governação e utopia ou é totalitária ou acaba em desastre", filosofa agora, em hora de balanços. As utopias - ou ideologias -, admite que as foi adaptando às circunstâncias, do ponto de vista de um moderado, o rótulo que agora reclama para si. "Nenhum moderado é ideologicamente ortodoxo. Sinto-me liberal quando há excesso de socialismo; conservador quando há excesso de desordem; democrata-cristão quando há excesso de tecnocracia; até acidentalmente progressista quando os fortes pisam os fracos. Radical, só mesmo no patriotismo." Fica traçado o mapa dos zigues e dos zagues do passado.

Como se fosse um manifesto. Para quê? No futuro se verá. Se o futuro fosse já, podia escrever-se em meados de 2025 o texto que se segue.

2025, O ANO DO INÍCIO ( OUTRA VEZ)

Que Paulo Portas teria de tomar esta decisão, estava escrito nas estrelas. Qual seria, não estava.

Afastado da primeira linha da política desde que anunciou em 2015 a sua saída da presidência do CDS, era certo como o destino que ao fim de uma década o calendário político se havia de atravessar na sua vida. 2025, o ano para se alinharem as candidaturas às presidenciais de janeiro de 2026.

O antigo líder do CDS estava, há anos, entre os nomes mais falados à direita. Também previsivelmente, não era o único: Pedro Passos Coelho, que chefiou o último governo de que Portas fez parte, alinhou na pole position de presidenciáveis, ao lado de mais três antigos líderes do PSD - Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e Rui Rio.

Portas, com passado feito num partido mais pequeno, soube compensar esse handicap: foi o que melhor geriu os anos de pousio. Resistiu aos convites das televisões para ser comentador dos domingos à noite e deu poucas entrevistas. Também não caiu na tentação de lançar uma revista-tipo-"Spectator"-à-portuguesa - entrar em projetos editoriais só se fosse para administrar massa falida, comentou a certa altura, quando começaram as especulações sobre o seu eventual regresso ao jornalismo. Em vez disso, desenferrujou a escrita em ensaios históricos e biográficos publicados na imprensa (continuou apaixonado por jornais em papel, apesar da oferta cada vez mais exígua), em particular no Expresso - o "Espesso", como continuou a chamar-lhe.

O livro com a recolha desses textos, editado em 2024, foi um sucesso de vendas e deu-lhe exposição mediática como não acontecia desde que deixou o Governo e a chefia do CDS. Confirmou-lhe também o estatuto de senador da direita, quase livre de rótulos partidários. Porém, esse foi o seu único opus literário - a escrita de ficção continuou na gaveta. O seu grande romance, história de fôlego, atravessando décadas, que começou a escrever em Alexandria, quando tinha pouco mais que 20 anos, tornou-se na mais famosa obra não acabada e nunca lida da literatura portuguesa. Os seus guiões para cinema também não viram a luz do dia. Consta que ainda não desistiu nem de um nem dos outros. O tempo para escrever, contudo, não foi tanto como o próprio Portas chegou a supor quando deixou a ribalta política. Pôde cumprir o seu desejo de continuar a viver em Portugal passando o máximo de tempo a viajar, mas as viagens constantes traíram-lhe o fôlego literário. Por um lado, com uma agenda cheia de conferências sobre política externa e internacional, em think tanks de todas as geografias e feitios. Por outro, e sobretudo, com a sua nova vida empresarial. Cumpriu o que disse à edição de 9 de janeiro de 2016 do Expresso, quando anunciou como "provável que venha a fazer empresas e que trabalhe com empresas"."Como sempre, focado em resultados", rentabilizou a experiência de quatro anos no Governo à frente da diplomacia económica. Tinha os contactos que interessavam: cá dentro, conhecia todos os empresários que valia a pena, ao fim de quase 80 missões empresariais e inúmeras reuniões semanais com a AICEP; lá fora, tratava pelo primeiro nome os governantes que contavam nos destinos para onde Portugal podia crescer - sobretudo economias dirigistas, onde o Estado tinha mais mão na economia, da Ásia ao Golfo, de África à América Latina.

O Portas caixeiro-viajante, que vendia Portugal como um Oliveira da Figueira (o português vendedor de banha da cobra dos livros do Tintim) passou a ser vendedor em proveito próprio. Resta saber se conseguirá vender-se como candidato a Presidente da República. Que toda a vida tenha sido monárquico é só um pormenor que não o atrapalha. Também não atrapalhou Marcelo.


*Autor com Liliana Valente do livro "O Independente - A Máquina de Triturar Políticos", editado pela Matéria-Prima Edições

(Texto publicado na edição do Expresso de 9 de janeiro de 2016)