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Azeredo Lopes obriga Marcelo a voar baixinho

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Nuno Botelho

O ministro da Defesa anunciou esta quarta-feira a aguardada modernização dos C-130 através comunicado enviado aos jornalistas por email, no preciso momento em que Marcelo Rebelo de Sousa começava a sua primeira visita à Força Aérea. E quando o Expresso quis saber se o Presidente também pensava que os meios que este ramo das Forças Armadas tem para cumprir as suas missões são insuficientes, Marcelo já não foi tão contundente como na visita à Marinha

Carlos Abreu

(texto)

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

(fotos)

Fotojornalista

Será desta? Três anos depois de Aguiar-Branco, então ministro da Defesa de um Governo PSD-CDS ter tentado criar condições para a modernização dos C-130, os aviões cargueiros que estão ao serviço da Força Aérea desde os anos 70 do século passado, o atual responsável pela pasta do Governo PS (apoiado por bloquistas e comunistas) autorizou esta quarta-feira o início do procedimento para a modernização de cinco destas aeronaves. A FAP tem seis, mas uma delas está na base do Montijo sem motores e não será modernizada.

A boa notícia chegou por email, em jeito de comunicado, no preciso momento em que Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado por Azeredo Lopes, chegava à Base Aérea de Sintra, onde o comandante supremo cumpriu a sua primeira visita à Força Aérea, colocando um ponto final no ciclo de deslocações aos três ramos das Forças Armadas.

Durante a sua visita inaugural à Marinha, a 5 de maio, Marcelo disse aos jornalistas, já sem Azeredo Lopes por perto (fonte do gabinete informou na altura que o governante teve de sair mais cedo para estar presente numa reunião com o primeiro-ministro, seguida de almoço), que este ramo não dispunha dos meios suficientes para levar a cabo todas as missões que tinha a seu cargo.

Esta quarta-feira, e com o ministro por perto, quando o Expresso quis saber se a Força Aérea tinha os meios necessários para cumprir as suas missões, Marcelo foi bem menos contundente e respondeu assim: “Na Marinha foi apresentado um conjunto de necessidades que espero que venham a ser satisfeitas no futuro. Depois, estive no Exército e também houve a análise do que é preciso fazer para reforçar os equipamentos. Na Força Aérea direi que já estão programadas uma série de ações para reforço dos equipamentos mas algumas das aeronaves que estão a ser utilizadas serão descontinuadas a partir de 2018 e outras entre 2020 e 2025. Portanto, também haverá que planear nesse prazo o que é necessário vir a adquirir para substituir o que vai ser descontinuado.” Fica por saber, entre outras coisas, a que aeronaves se referia Marcelo.

Nuno Botelho

O Expresso sabe que o comunicado do Ministério da Defesa apanhou de surpresa o Estado-Maior da Força Aérea que terá agora de assinar a Letter of Request e formalizar o início do procedimento junto da Defense Security Cooperation Agency, uma entidade do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que serve de intermediário entre a dona das aeronaves e a empresa que as construiu, a também norte-americana Lockheed Martin.

Quando em novembro de 2012, o anterior ministro da Defesa lançou o concurso público para a “modernização de seis aeronaves Lockheed C-130H Hércules da Força Aérea Portuguesa”, Aguiar-Branco pretendia fazê-lo para todos os aparelhos e gastar, no máximo, 12 milhões de euros. Mas o concurso ficou às moscas. O processo agora relançado por Azeredo Lopes deverá estar concluído em 2023 mas deixa uma aeronave de fora. Na modernização das cinco será investido, no máximo 29 milhões de euros.

Enquanto não forem modernizadas, estas aeronaves continuam impedidas de cumprir os requisitos impostos pela regulamentação do chamado Céu Único Europeu, um programa formalmente lançado em 2004 que tem como principal objetivo melhorar a segurança de voo nesta zona do mundo. Dito de uma forma mais simples, só aeronaves com determinados equipamentos a bordo é que poderão utilizar as rotas mais diretas onde o tráfego intenso requer tecnologia mais recente. O primeiro C-130, número de cauda 16801, chegou a Portugal a 15 de setembro de 1977, há mais de 38 anos. Sem esses equipamentos, estas aeronaves não estão impedidas de sobrevoar o velho continente mas têm de fazê-lo com grandes limitações e por rotas alternativas.

Nuno Botelho

Mas regressemos à visita de Marcelo Rebelo de Sousa à Força Aérea onde haveria de recordar a viagem que realizou em 1978, na companhia do então primeiro-ministro, Mário Soares, precisamente num C-130, entre a capital norte-americana, Washington, e Lisboa, com o imprescindível reabastecimento nas Lajes.

O chefe de Estado chegou pelas 17 horas à Base Aérea n.º 1, na Granja do Marquês, em Sintra, e cumprindo à risca o protocolo, escutou o hino nacional, passou revista à guarda de honra, para logo a seguir, assistir ao desfile das forças em parada, algumas dezenas de cadetes da Academia da Força Aérea, uma esquadrilha da Polícia Aérea e demais pessoas da unidade. Pouco depois, seguiu para o habitual briefing sobre a Força Aérea apresentado pelo próprio chefe do Estado-Maior do ramo, general piloto-aviador Manuel Teixeira Rolo, ao qual a comunicação social não pode assistir.

Pelas 18 horas, Marcelo já visitava a esquadra 101 “Roncos”, que tem como principal missão ministrar instrução elementar e básica de pilotagem. Opera para esse efeito, 14 aeronaves de fabrico francês Épsilon TB 30 que durante o ano de 2015 efetuaram 3170 horas de voo. Aqui, o Presidente da República viu o simulador de voo onde os pilotos em formação realizam cerca de um terço das 134 missões que têm de cumprir com sucesso para conquistar o brevet. O chefe de Estado esteve ainda no hangar onde é feita a manutenção integral destas aeronaves ao serviço de Portugal desde 1989.

Já na placa, Marcelo Rebelo de Sousa visitou demoradamente todas as aeronaves aí parqueadas (uma de cada frota operada pela Força Aérea), do pequeno Chipmunk, onde os candidatos a piloto, os tais cadetes da Academia realizam o primeiro estágio de adaptação de voo, ao Alpha-Jet, passando pelo caça F-16, pelo helicóptero EH-101, configurado para missões de fiscalização das pescas, pelo C-295, preparado para busca e salvamento marítimo, e, claro, pelo C-130.

Mas a visita do Presidente não haveria de terminar sem uma passagem pelo Museu do Ar e por uma aula prática, depois do jantar. Marcelo descolou de Sintra com destino ao Porto a bordo de um P-3C Orion, uma aeronave quadrimotor de grande raio de ação (3830 quilómetros) equipada com uma panóplia de sensores que lhe conferem especiais capacidades em missões de luta antissubmarina mas também de busca e salvamento. A 10 de junho, o comandante supremo voltará a estar com as suas tropas. Desta feita no Terreiro do Paço, em Lisboa.

Nuno Botelho