Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

“Espero poder intervir tanto quanto Pacheco Pereira”

  • 333

Assis acha que a moção de Costa ao congresso traduz “má consciência” e defende um entendimento com a direita em questões fundamentais, sobretudo na Europa

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Neste congresso vai fazer-se uma discussão entre a esquerda e a direita?
Essa discussão já se fez e a maior parte das pessoas alinhou com a posição mais à esquerda. Hoje falando com as pessoas, sinto que há mais dúvidas, reservas. Um dia a questão vai voltar a colocar-se.

Vai participar no debate sobre o futuro do socialismo democrático?
Tenciono fazer uma intervenção à tarde e espero ter tanta possibilidade de participação no congresso do meu partido como o dr. Pacheco Pereira. Ficaria muito desiludido se o meu partido estivesse mais disponível para o ouvir do que a mim, seria sinal de uma doença muito grave.

Continua a defender o entendimento ao centro?
Devíamos ter uma relação diferente com os partidos da direita. A moção ao congresso apresentada por António Costa celebra entusiasticamente um novo tempo, supostamente marcado com um entendimento com os partidos da extrema-esquerda e demoniza completamente a direita, mesmo a europeia.

E não concorda.
Em Portugal há uma direita com quem fizemos um percurso comum com entendimentos em questões fundamentais de regime, que permitiram a nossa integração no espaço europeu, a modernização da nossa economia, a construção do estado social. Está a criar-se uma cisão histórica, que substituiu a ideia do arco constitucional por uma ideia de cisão franca entre esquerda e direita que me parece muito negativa. Há entendimentos de fundo necessários com estes partidos neste momento em que a Europa está em grande transformação.

Em que sentido?
Vai haver mudanças depois do referendo britânico, seja qual for o resultado, e sobretudo para o ano, depois das eleições francesas e alemãs. Está a chegar-se à conclusão de que a Europa pós-alargamento perdeu energia e capacidade integradora, há personalidades que defendem o avanço para um núcleo duro europeu, sejam os da zona euro ou mais pequeno, de certos países fundadores, mais Portugal e a Espanha, o que significará o reforço da integração, maior intervenção na esfera de decisão europeia. Vai obrigar a repensar tudo isto.

E a falar com a direita?
Portugal deve integrar esse núcleo e ter uma visão clara do que deve ser a Europa e o nosso papel. Por isso, até pelos desafios que aí vêm a nível do projeto europeu, vai ser muito importante que o PS fale com sectores à direita que são também europeístas. Com maior integração e federalização, vamos ter a extrema-esquerda contra, mas também podemos assistir ao ressurgimento da corrente nacionalista na direita. É um problema central. Vejo mais virtualidade nesse diálogo que no entendimento com os partidos à esquerda.

Em que áreas?
As da Europa, do modelo económico, social, continuo a achar, malgrado o ambiente não ser muito propício a estas teses, que o caminho que temos de seguir é o de promover o diálogo e alguns entendimentos com os partidos de sempre, de centro-direita e não de extrema-esquerda.

O Governo não está a funcionar bem no plano europeu?
Não sou a favor de uma frente de países do sul face aos do norte, temos de manter diálogo permanente e exigente mas nunca numa lógica de alianças rígidas. Mesmo esta moção é muito radical na maneira como fala da direita, é uma visão reduzida ao neoliberalismo como grande adversário do socialismo democrático e da esquerda europeia. Não concordo nem é isso que se passa no espaço europeu.

As áreas de consenso?
As da Europa, do modelo económico e social, acho que o ambiente não é muito propício a estas teses, mas o caminho que temos de seguir.

Como vê a ameaça das sanções?
Um erro. Não vejo em que é que a sua aplicação tenha qualquer efeito útil. Revelaria que a Europa estava numa situação de incapacidade de decisão política inteligente, mas de aplicação cega e dogmática de um conjunto de regras, seria uma leitura rígida, estúpida e automática do pacto de estabilidade.

E a reestruturação da dívida?
Há quem defenda que se faça uma espécie de denúncia unilateral, que seria uma enorme irresponsabilidade própria dos partidos tribunícios e não de poder, como o PS que admite que isso possa ocorrer um dia no contexto europeu. Não é assunto tabu. O que se está a passar com a Grécia revela isso. Gostava que alguma extrema-esquerda tivesse o pragmatismo de Tsipras!

É possível mudar a Europa?
Sim, já se está a fazer e há esforços sérios dos dirigentes socialistas nesse sentido. Acho bem que António Costa tanto se desloque a Atenas como a Berlim, reforça a nossa capacidade de intervenção. Ele tem um pensamento sobre Europa, mas está manietado por esta solução governativa que é castradora até da energia do PS.

A estratégia desta moção para o futuro é o do caminho já trilhado?
Esta moção é muito prisioneira do presente e com pouca capacidade de se projetar no futuro, muito preocupada em justificar-se e em legitimar as opções do presentes e esta solução governativa. Nesse sentido parecem-me razoáveis as críticas de algum sectarismo excessivo. Há tanta necessidade de enfatizar os méritos da solução que até parece traduzir alguma má consciência.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 maio 2016