Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

A geografia das amizades na política

  • 333

Sabe onde CDS e PCP se unem e onde a esquerda mais se divide?

Ver o PCP levantar-se para votar ao lado do PSD e do CDS, convenhamos, é coisa rara no Parlamento. Afinal, à partida, é mais o que os separa do que o que os une. Mais estranho ainda quando o assunto mete outros Estados e “amizades” políticas.

Mas, pode crer, isso acontece, embora estes partidos se aproximem por motivos (bem) diferentes. PCP e CDS já votaram lado a lado sobre Angola e os partidos de esquerda dividiram-se, por exemplo, sobre a situação do Brasil ou da Palestina.

Em março, tanto o PS como o BE apresentaram votos de condenação pela punição dos 17 jovens ativistas angolanos, sendo ambos rejeitados, com os votos contra do PSD, CDS-PP e PCP. Todos justificaram o seu voto com a defesa do “princípio do respeito pelas decisões judiciais” e pela “separação de poderes”, embora os comunistas juntem a isso o facto de serem um partido irmão do MPLA, como sublinhou o líder parlamentar João Oliveira.

O voto e a justificação dos comunistas mereceu reação imediata e irónica da líder do BE, Catarina Martins: “Se um dia formos chamados a defender 17 jovens comunistas presos na Hungria ou Ucrânia por lerem um livro, também não ficaremos em silêncio”. Já agora, o Voto de Condenação da situação na Ucrânia e de solidariedade com o povo ucraniano teve os votos contra do PSD, PS, CDS-PP.

A Coreia do Norte é outro caso bicudo. Na legislatura anterior, o PCP ficou isolado no voto contra uma deliberação do PSD, PS e CDS-PP a condenar os “crimes contra a humanidade perpetrados pelo regime da Coreia do Norte”. Já este ano, votou contra a condenação do ensaio nuclear realizado pela Coreia do Norte (apresentado pelo CDS) aproveitando para defender um texto contra a escalada de tensão na Península da Coreia, que mereceu o apoio do BE, PEV e PAN, a abstenção do PS e os votos contra do PSD e CDS.

Na semana passada, o foco de divergência chamou-se Brasil. O PCP apresentou um voto de solidariedade com os povos da América Latina e Caraíbas em que repudia o processo que procurou levar à destituição da Presidente Dilma Rousseff. Este ponto contou também com o voto contra do PS e da direita — apesar de nove deputados do PS terem votado contra a maioria do partido.

No conflito israelo-palestiniano, as posições há muito que são conhecidas. BE e PCP colocam-se ao lado do povo palestiniano, enquanto PSD e CDS raramente escondem o seu apoio a Israel.

Já o PS, balança entre a abstenção e o voto contra as proclamações da Palestina. Mas este conflito é o que mais divisão provoca entre os deputados socialistas. Em 2014, quando o Parlamento aprovou uma resolução que recomendava ao Governo o reconhecimento da Palestina como Estado, num texto escrito a seis mãos, num acordo entre PS, PSD e CDS, cinco deputados do PSD, dois do PS e dois do CDS votaram contra.

De volta à Europa, a Ucrânia também divide a esquerda. Um texto apresentado pela comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros onde se afirmava que “a União Europeia deve exercer a sua influência no sentido de travar os extremismos de todos os matizes e fortalecer aqueles que na Ucrânia se batem genuinamente para que prevaleçam no seu país os valores universais da democracia, da liberdade, da tolerância e da paz” mereceu os votos favoráveis do PS, PSD e CDS-PP, contra do PCP e PEV e a abstenção do BE.