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“Seria estranho, e até danoso, Passos tornar-se um agitador”

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Alberto Frias

Entrevista a Miguel Morgado, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Alberto Frias

Fotojornalista

Depois de quatro anos a aconselhar o primeiro-ministro em São Bento, deixou a bancada e passou a jogar em campo. Refuta a ideia de que Passos Coelho ainda não vestiu a pele de líder da oposição e garante que, nas circunstâncias em que assumiu o poder nos últimos quatro anos e meio, estar do outro lado do hemiciclo não é mais difícil.

É mais fácil estar no poder ou na oposição?
Não deverá ser mais difícil estar na oposição do que ter governado um país em bancarrota, sob um programa de assistência externa muito duro.

Mesmo quando estar na oposição significa não conseguir concretizar nenhuma das suas propostas?
A vida democrática não termina no dia de hoje. Queremos estar prontos para que, quando houver eleições, os portugueses confiem em nós pelos méritos do projeto. No último mês apresentámos mais de 220 propostas concretas, mais do que aquelas que o Governo apresentou no seu pretenso Programa Nacional de Reformas que não contém reformas nenhumas. Mas a conduta do PSD na oposição não será certamente a que o PS teve na oposição. O nosso caminho é de responsabilidade, de recusa da demagogia e do populismo.

Quase como se continuassem no Governo, com o mesmo pensamento, as mesmas propostas...
Os problemas estruturais da economia portuguesa foram identificados por nós há muito e ainda há muito para fazer. Seria absurdo optar por um caminho completamente novo quando o diagnóstico dos problemas está feito e permanece válido.

Dizer que Pedro Passos Coelho ainda não despiu o fato de primeiro-ministro não é, portanto, uma crítica, é uma constatação?
As pessoas foram surpreendidas pelo extraordinário exemplo democrático que ele deu, pela primeira vez, depois de ter sido primeiro-ministro, ao assumir o papel de líder da oposição. Ele considera, e bem, que um líder da oposição tem de agir com a mesma dignidade que um primeiro-ministro. A mim parecer-me-ia estranho que um ex-PM, uma vez na oposição, se tornasse um agitador. Estranho e até danoso para a democracia.

Mas o que se ouve é que o PSD está amorfo, que Passos está a “fazer de morto”...
Não me revejo nada nesse retrato. Se se estava à espera que o PSD se tornasse um partido de agitação política, isso é não conhecer nem a história do PSD nem a figura de Passos Coelho. Não faremos oposição como o PS fez no mandato anterior, em que havia uma tentativa, por vezes desesperada, de dizer tudo e o seu contrário. Queremos mostrar a nossa consistência política, com serenidade e respeito pelos adversários — o nível de violência verbal da maioria das esquerdas tem degradado acentuadamente o debate político.

A popularidade de Passos está aquém da de Assunção Cristas. O PSD está a conviver bem com o CDS, seu ex-parceiro de coligação?
São dois estilos muito diferentes. Cristas e o CDS têm de fazer o seu caminho, é sempre muito difícil substituir alguém tão marcante como Paulo Portas e tendo ao lado, na sua área política, um estadista, ex-primeiro-ministro. Mas olhe que a mesma sondagem dá um número idêntico de opiniões favoráveis a Passos Coelho e a António Costa (ambos com 42%).

O CDS quer crescer. Se o fizer não será à custa do eleitorado do PSD?
Isso corresponde ao receio histórico do CDS que o PSD condicione as suas hipóteses de crescimento ou, até, de sobrevivência. As últimas eleições demonstraram que não há fronteiras estanques, eleitores cativos. Onde existe o risco de um partido tradicionalmente mais pequeno devorar a base eleitoral do partido tradicionalmente maior, é com o BE e o PS. É o que explica o resultado objetivamente mau do PS a 4 de outubro. E o que explica porque assistimos a uma consumação da radicalização à esquerda do PS, ao arrepio da sua tradição histórica: é a resposta da atual liderança perante o pânico do crescimento do BE. A novidade de deriva ideológica é a que sucedeu ao PS nestes dois anos.

Está surpreendido com a resistência, a durabilidade do acordo das esquerdas?
Esta transformação política do PS torna a coligação, sobretudo com o BE, um projeto com essa consistência. Claro que depois há impasses. A contradição mais irónica ficou patenteada no último relatório da UTAO sobre o Orçamento do Estado: critica o OE por ter subjacente a tese da austeridade expansionista, quando esta foi a base da crítica do atual primeiro-ministro ao Governo anterior!

Costa reafirmou que vamos cumprir os 2,2% do défice previstos para este ano. Acredita nisso?
O cenário macro não é realista, como se comprovou pelo primeiro trimestre; o Governo não explicita quais são as medidas, do lado da receita e do lado da despesa, que irá aplicar para alcançar estas metas e o Governo não tem uma estratégia económica para o país. É por isso que estamos a verificar a inversão da tendência de crescimento do emprego dos últimos três anos, a queda das exportações e o desaparecimento do excedente externo que tínhamos alcançado em 2012. Diagnóstico que devia servir de alerta ao Governo para corrigir o caminho.

Não teme os efeitos desta “síndroma Ferreira Leite”, isto é, o PSD ser visto como o arauto constante das más notícias?
Isto não são más notícias. São indicadores objetivos de que estamos a seguir um caminho errado e que devemos corrigi-lo. É um pouco absurdo fechar os olhos a isso. Queremos pagar tudo outra vez com uma bancarrota? Se fecharmos os olhos à realidade, a realidade encarrega-se de nos abrir os olhos à força quando já é demasiado tarde.

Não se trata de pessimismo militante?
Realismo não é pessimismo. Nós somos é contra que se desfaçam todas as coisas positivas que os portugueses conseguiram obter, com muito sacrifício. Devemos estar calados?!

O Presidente da República, ao contrário do PSD, tem estado bastante alinhado com o Governo e otimista em relação ao desempenho económico.
Os papéis institucionais da oposição e do PR são diferentes. O Presidente, parece-me, quer ter uma conduta ao longo de todo o seu mandato de apoiar que um Governo seja bem-sucedido em objetivos que são partilhados também por ele (e por todos), neste caso o cumprimento dos compromissos europeus. O PR está a tentar dar conforto ao Governo para ele fazer o que é necessário para atingir esses objetivos. Ao maior partido da oposição cabe o papel de fazer propostas alternativas.