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Em nome do pai e do filho

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rui ochôa/presidência da republica

O filho do governador voltou a Moçambique como Presidente da República. Uma viagem “sem nostalgia” mas com o passado bem presente

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

em Maputo

Jornalista da secção Política

Marcelo era sempre o último a ser servido. Às vezes, quando a comida lhe aterrava no prato, já ele estava obrigado a pousar os talheres. Nos jantares de cerimónia do Palácio da Ponta Vermelha, a sede do poder em Moçambique, a etiqueta era para levar a sério: o primeiro a ser servido era o anfitrião, o último estava na ponta da mesa. Quando o governador-geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa, dava a primeira garfada, estava aberto o jantar; quando pousava os talheres, parava tudo. “Acontece que o meu pai comia pouco. Portanto, acontecia muitas vezes que eu era servido quando o meu pai já estava a acabar”, recorda Marcelo Rebelo de Sousa. Ou comia à pressa ou “nem comia”.

O rapaz nem se importava muito com isso. Sabia que, quando o palácio se esvaziasse, podia ir à cozinha servir-se do que houvesse num dos dois frigoríficos da casa (atenção: só podia servir-se do frigorífico da família, nunca do frigorífico do Estado, que o pai-governador era rigorosíssimo com os dinheiros públicos). Depois, porque Marcelo, que fica satisfeito com um pão com queijo, trocava sem esforço os prazeres gourmet pelo prazer da conversa nesses jantares com intelectuais, artistas e demais elite moçambicana. Com 20 anos, preferia o privilégio da presença ao privilégio da precedência. E conhecia bem o seu lugar. Não estava ali por direito, mas por matemática e conveniência: fosse porque o número de comensais precisava de ser arredondado, fosse porque a presença de um dos filhos do governador podia facilitar a conversa e animar o repasto. “Estávamos sempre preparados para descer do primeiro andar, de fato ou de smoking (usava-se muito o smoking), para ir fazer as despesas da conversa, se o protocolo achasse que assim a mesa ficava mais composta”, recorda Pedro, o caçula dos irmãos Rebelo de Sousa.

Se acontecia o mais velho estar em Moçambique, era ele a compor a mesa. Em rigor, isso não acontecia muitas vezes: no ano e meio que a família viveu na “cidade das acácias”, entre a tomada de posse de Baltazar como governador-geral, em julho de 1968, e o regresso a Lisboa, em janeiro de 1970, Marcelo passou meia dúzia de meses com os pais e os irmãos. Estes, ainda no liceu, continuaram os estudos em Lourenço Marques; Marcelo, no segundo ano do curso de Direito, ficou em Lisboa, sob a vaga supervisão da avó Joaquina e de um amigo do pai — Marcello Caetano. Por junto, o filho mais velho de Rebelo de Sousa fez quatro deslocações a Moçambique, nas férias de verão e de Natal. Mas foram suficientes para ficar com uma ligação para a vida e jurar-se filho da terra. “A minha segunda pátria”, repetiu, nos quatro dias que passou em Maputo, no início do mês, na sua primeira visita de Estado enquanto Presidente da República. Primeira, sublinhe-se, porque nestas coisas de Estado a ordem dos fatores não é aleatória.

CLÁSSICO. 
Marcelo na varanda 
do Hotel Polana, onde fica sempre que visita Maputo, com vista para a piscina 
e para o oceano Índico

CLÁSSICO. 
Marcelo na varanda 
do Hotel Polana, onde fica sempre que visita Maputo, com vista para a piscina 
e para o oceano Índico

rui ochôa/presidência da república

Há pouco mais de uma semana, na noite de 4 de maio, Marcelo voltou ao Palácio da Ponta Vermelha para um banquete oficial. O filho do governador já não estava na cauda do protocolo, mas na mesa de honra; já não em nome do pai, mas em nome próprio. “Marcelo de Sousa, Excelência, Presidente da República”. Foi o primeiro a ser servido, a par do anfitrião, Filipe Nyusi, o seu homólogo moçambicano. Nenhum teve de comer à pressa.

Antes do jantar, o “amigo” Nyusi fez, em privado, as honras de uma casa que foi a segunda morada do seu convidado. Quando, em janeiro de 1970, Marcelo saiu do quarto de hóspedes onde sempre ficava nas férias moçambicanas, contava voltar no verão — mas outro Marcello trocou-lhe as voltas, chamando o pai para ministro. Só 46 anos e quatro meses depois Marcelo regressou à casa. “Nunca mais tinha voltado, mas tudo correspondia à minha memória”, conta ao Expresso. “Muitos dos quadros são os mesmos, nomeadamente uma Sagrada Ceia na sala de jantar. E reconheci muitos móveis, embora muita coisa tenha mudado.”

O piso de cima (a área residencial), pareceu-lhe “na mesma, embora não tenha visto em pormenor” — e só o pormenor permitiria verificar se o ar condicionado é o mesmo que bufava uma brisazinha à custa de um barulho de motor de avião que não deixava pregar olho de noite. Por outro lado, Marcelo confirmou que a grande sala de jantar do piso térreo continua a ter essa função agora que o palácio é residência oficial do Presidente. Porém, não foi aí o banquete em honra do chefe de Estado português, mas numa estrutura anexa, mais recente, que compensa em tamanho o que lhe falta em carácter.

Foi aí que Marcelo renovou os votos com Moçambique, “país que amo profundamente”. Acompanhou baixinho o coro de jovens que cantou o hino moçambicano (“Ó Pátria amada, vamos vencer!”...), emocionou-se, hirto e em silêncio, durante o hino de Portugal, que nunca tinha ouvido cantar dentro daquela casa. No discurso, de papel passado, falou do futuro que quer para os dois países (a cooperação, o investimento, a paz...) e asseverou que “a nostalgia não é a razão fundamental desta visita”. Mas reconheceu que o que tem de ser tem muita força: “O passado nunca morre em nós. Fica sempre presente.”

Com açúcar, com afeto

Pedro Chissano sabe sobre isso do passado nunca se ir embora. É escritor de renome em Moçambique e nessa qualidade foi convidado para o encontro do PR português com figuras da cultura. Uma memória não lhe saía da cabeça: “Em 1968, quando o doutor Baltazar Rebelo de Sousa chegou a Lourenço Marques, eu estava na Mocidade Portuguesa. Eu e os meus colegas da 4ª classe fomos mobilizados para ir ao aeroporto dar as boas-vindas ao governador. Ele vinha com a família, lembro-me que reparei no filho mais velho [Marcelo], porque ele ria-se para tudo o que via. O governador vem, abraça-me e afaga-me a cabeça. Nunca ninguém tinha visto aquilo. Eu não sabia nada de colonialismo, nem de fascismo, e entendi que ele me estava a dizer ‘estamos juntos’. Nunca esqueci.” O escritor, sobrinho do ex-presidente Joaquim Chissano, não hesita em afirmar ao Expresso que Marcelo “é um continuador dos afetos do pai”.

Se um abraço, um afago ou um beijo forem capazes de deixar um rasto tão impressivo, Marcelo será lembrado por muitos e longos anos por uma multidão de moçambicanos. Durante quatro dias o Presidente beijocou, afagou, tocou e abraçou sem olhar a quem. As mulheres ouviram piropos e levaram ósculos convictos, os homens receberam bacalhaus à maneira, os rapazes deram mais cinco e deram mais dez, as raparigas sentiram chochos repenicados, as crianças tiveram mimos variados. Ao contrário de Pedro Chissano, boa parte dos contemplados não ficou com o momento registado apenas na memória: muito do afeto presidencial ficou a posteridade em incontáveis fotografias. Na maioria dos casos, era Marcelo quem sugeria. “Vamos tirar uma selfie” foi uma das frases da viagem.

ARQUIVO PESSOAL DE MARCELO REBELO DE SOUSA, PUBLICADO NO LIVRO “MARCELO REBELO DE SOUSA”, DE VÍTOR MATOS, ESFERA DOS LIVROS

ARQUIVO PESSOAL DE MARCELO REBELO DE SOUSA, PUBLICADO NO LIVRO “MARCELO REBELO DE SOUSA”, DE VÍTOR MATOS, ESFERA DOS LIVROS

Album de família. Marcelo com os pais e os irmãos em três momentos do ano e meio que passaram em Moçambique, incluindo o réveillon de 1968/69 em Montepuez

Album de família. Marcelo com os pais e os irmãos em três momentos do ano e meio que passaram em Moçambique, incluindo o réveillon de 1968/69 em Montepuez

ARQUIVO PESSOAL DE MARCELO REBELO DE SOUSA, PUBLICADO NO LIVRO “MARCELO REBELO DE SOUSA”, DE VÍTOR MATOS, ESFERA DOS LIVROS

O PR demorou o seu tempo, falou com todos, teve sempre tempo para mais uma pergunta, uma piada, um piropo. No primeiro dia de viagem, passeou por uma escola de formação profissional de metalomecânica, parando a cada dois passos, a ver cada máquina, a falar com cada aluno. “Então, Glória, isto é fácil ou é difícil? E depois disto o que é que queres fazer?...” — e quando Marcelo já ia duas bancadas à frente, Glória ainda permanecia em êxtase, com a mão sobre o coração e um sorriso que lhe enchia a cara. O programa, naturalmente, derrapou, perante a impotência do diretor da escola. “O problema é que eu não consigo controlá-lo!...”, justificava-se o homem. Não seria o último a ter esse problema. Ninguém controla Marcelo e o programa haveria de derrapar todos os dias nalgum momento. Nem o embaixador de Portugal em Maputo, José Augusto Duarte, com a importância de estar no seu território e a autoridade de ser o novo assessor diplomático do PR, conseguia discipliná-lo. Quando, noutra escola, Marcelo decidiu escapulir-se escadas acima para visitar uma exposição, o embaixador deixou escapar um incrédulo “não, não, não!...”, enquanto corria atrás dele, para o avisar, com o tato de quem sabe e a ousadia de quem precisa:

— Senhor Presidente, estamos com quarenta minutos de atraso!

— Quarenta minutos? O que é isso na vida?

O ziguezague do método

Parecendo que não, Marcelo tenta ser metódico, para não discriminar ninguém na sementeira de afetos. Na escola secundária Estrela Vermelha, no bairro popular de Mafalala, tinha centenas de alunos em histeria à sua espera. Uns com bandeirinhas, todos de farda, uns a cantar “A nossa escola lhe saúda, Presidente de Portugal”, outros a bradar, com um ritmo que não se aprende, “woza!”, espécie de grito de guerra que significa “viva!”. Nem a quantidade de gente nem o exagero de decibéis dissuadiram Marcelo, que passou pelos alunos um a um — aqueles a quem não apertou a mão nem beijou, pelo menos olhou nos olhos ou cumprimentou com um aceno de cabeça. Como havia gente dos dois lados do caminho, fazia uns metros de um lado, depois recuava numa diagonal e percorria os metros equivalentes do lado oposto. O método quase não falhava. No meio dos ziguezagues presidenciais, Arsénia, uma rapariga de 15 anos, com trancinhas finas, baton vermelho e pastilha cor de rosa na boca, foi duas vezes beijada por Marcelo. Perante tão incrível sorte, informou as amigas, aos gritinhos, que nunca tinha sido beijada por um Presidente, como se fosse uma princesa duplamente encantada.

É possível que isto de estar próximo do povo venha nos genes. As crónicas dos tempos do pai Baltazar como governador contam que foi perto de revolucionária a forma como este se aproximou das populações indígenas, abrindo as portas do palácio à população negra, convivendo com intelectuais e artistas moçambicanos, incluindo opositores políticos. A proximidade também se exercia fora de portas: o governador-geral passeava na cidade e fazia milhares de quilómetros por toda a província. O atual Presidente da República, numa fotobiografia que publicou em 1999 sobre o pai, descrevia assim essa insólita química que se gerou entre o governante da metrópole e o povo da colónia: “Francamente bom foi o acolhimento de muitas das classes médias-baixas e da maioria mais pobre — africanas — que, nele [Baltazar] e na sua mulher, viram sinais de humanidade, preocupação social e contacto pessoal como, porventura, nunca tinham encontrado e não voltariam a encontrar até 1974”.“Havia de facto uma proximidade grande do meu pai com as pessoas”, comenta o agora PR em conversa com o Expresso. “Ele gostava disso, correu Moçambique, gostava de conhecer local a local, pessoa a pessoa, tanto quanto era possível. Ele cultivava essa relação e eu admito que essa política de proximidade também me define bastante e definiu esta visita.” Houve quem fizesse o mesmo paralelismo ao testemunhar o entusiasmo com que Marcelo foi recebido no Mercado Municipal de Maputo, na manhã de sexta-feira. “O pai também era assim”, comentava um homem para outro; o segundo anuiu e jurou-lhe que “não via uma coisa destas deste o tempo do Samora [Machel]”.

Um espetáculo

Não é impossível que também o sentido de espetáculo do PR lhe venha inscrito no ADN. É o próprio Marcelo quem escreve que o pai “à sua maneira, prezava alguma política-espetáculo”. O sintoma mais evidente era a farda que Baltazar usava. Há três décadas que não havia um governador civil em Moçambique e ninguém se espantava ao ver um militar fardado. Mais insólito foi um civil fardado — mas Baltazar Rebelo de Sousa descobriu que até 1939 essa era uma prática comum, e recuperou a fatiota, com a qual visitava o interior do território. Segundo Marcelo, “os meios políticos (e não só) não apreciavam ou até depreciavam ostensivamente” a novidade, que “suscitou reparos, críticas e ironias” nas elites. Mas “em termos populares, e sobretudo africanos, foi um apreciável sucesso”.

Quando Marcelo aponta na atitude do pai uma “componente de política espetáculo avant la lettre”, saberá do que fala. O irmão Pedro também. “Acho que alguns paralelismos entre o meu irmão e meu pai são óbvios”, concede. Por um lado, uma curiosa simetria na agenda de um e outro: a abertura e a tolerância, o convívio com a intelectualidade de várias matizes, a busca de pontes com outros sectores políticos, a aposta no trabalho social — “linhas de força” que Pedro Rebelo de Sousa identifica na ação do pai e do irmão. Mas também paralelismos de atitude. “Não só na ideia de que a liderança se exerce com uma política de proximidade, com o contacto direto, como numa certa ideia de política espetáculo.”O big show Marcelo passou nas televisões todas — lá e cá — e não carece de grandes descrições: ele dança a marrabenta, ele meneia a anca, ele amassa o pão, ele faz o cimento, ele pega nas criancinhas, ele pega num pargo, ele pega nuns caranguejos. Faz a festa, solta os foguetes, apanha as canas e no fim faz o comentário. Quando o programa é mais cinzento, Marcelo tem o sentido de espetáculo à flor da pele e a noção de soundbite na ponta da língua: basta uma piada ou faz uma declaração provocatória, de sentido equívoco, que possa ser lida à luz do que se passa em Lisboa, e está ganho o momento. É outra forma de política espetáculo, que não permite tempos mortos. Numa aborrecida audiência na Assembleia da República de Moçambique, Marcelo recebeu como recordação uma escultura de um guerreiro em pau-preto. Levantou-a como se fosse uma arma feroz e anunciou uma utilidade para o artefacto: “Vou levar para o meu gabinete e faço assim sempre que me aparecer um diploma do Governo ou da Assembleia da República.” Numa missão católica, enquanto amassava pão, inventou uma metáfora política, como se a imagem do presidente-padeiro não bastasse: “Em tempo de crise o pão tem de esticar. Esticar para a esquerda e para a direita, que é o que eu tenho andado a fazer. A esticar para que se entendam... a esquerda e a direita... Nem sempre é fácil...”

Na cadeira do pai

O Presidente da República bem insistiu que aquela não era uma viagem de nostalgia — até porque a nostalgia podia deixá-lo demasiado próximo da memória politicamente incorreta do colonialismo. Mas, lá está, ninguém foge ao passado. No mercado, o passado saltou-lhe ao caminho: um homem ofereceu a Marcelo cajus com chocolate, como se “fazia nos tempos da outra senhora”; outro entregou-lhe uma encomenda enviada pela mãe: o mesmo chá que a mãe de Marcelo ali comprava. Mas foi nos Passos do Município que o passado ia atropelando Marcelo. O momento era solene, a cena era dejá vu. Pelo menos para o PR, que já a tinha visto à distância e agora a vivia na primeira pessoa. A 6 de maio de 2016, um dia antes de voltar para Lisboa, Marcelo recebeu as chaves da cidade de Maputo; a 23 de junho de 1968, um dia depois de chegar de Lisboa, Baltazar recebeu as chaves da cidade de Maputo. No mesmo Salão Nobre, com os dois Rebelo de Sousa sentados exatamente na mesma cadeira de madeira escura, espaldar alto e ar pesadão. O presidente do Conselho Municipal sublinhou a coincidência. “Foi neste mesmo espaço, cujas paredes projetam anos de história comum entre Portugal e Moçambique que (...) vosso pai, doutor Baltazar Rebelo de Sousa, recebeu a chave da cidade”; passados 48 anos, a mesma distinção era entregue a “sua Excelência, o Presidente da República Portuguesa, professor doutor Marcelo Rebelo de Sousa, por sinal, seu filho”. Por sinal, o filho lembrava-se de assistir à cerimónia do pai. Por sinal, “não poderia imaginar que voltaria, quase 50 anos depois, para receber as mesmas chaves”.

d.r.

HISTÓRICO. 
O Presidente da República recebeu a chave 
de Maputo, tal como o pai recebeu a de Lourenço Marques. Na mesma sala, na mesma cadeira

HISTÓRICO. 
O Presidente da República recebeu a chave 
de Maputo, tal como o pai recebeu a de Lourenço Marques. Na mesma sala, na mesma cadeira

rui ochôa/presidência da república

“Houve ali um instante em que vagamente tenho a noção de que me emocionei”, confessa ao Expresso, já no avião de regresso a Lisboa. E é mesmo verdade que nunca lhe ocorreu que um dia receberia a chave da cidade? “Não, nunca me passou minimamente pela cabeça. Quer dizer... como é que podia passar?...” Pois... para isso, Marcelo teria de ter desde jovem o sonho de ser Presidente. Seria um sonho estranho, não? Talvez não, tratando-se de Marcelo. Segundo os seus amigos de infância, era mesmo isso que ele queria ser quando fosse grande. Até se falou disso na viagem. Na mesma escola de Mafalala, houve uma sessão de perguntas e respostas e alguém lhe perguntou se sonhava um dia ser PR. “Não, não sonhava”, respondeu. “Há uns amigos meus que dizem isso nos jornais, que quando eu era pequenino queria ser Presidente, mas eu não me lembro nada, nada, nada dessa ideia maluca. Aconteceu. Pode acontecer a qualquer um. Pode acontecer a vocês.”

A pé até ao Polana

A genealogia desse “acontecimento” até pode começar em Lourenço Marques. É Marcelo quem chama a atenção para a coincidência. “Sabe que a primeira conferência mais política que eu fiz foi aqui?”, pergunta-me, conforme caminhamos pela Avenida Julius Nyerere. São quase onze da noite de terça-feira, 5 de maio, o primeiro dia da viagem a Moçambique. O Presidente da República jantou na residência do embaixador com funcionários da embaixada e, no final, decide caminhar até ao Hotel Polana, onde está hospedado. “Vamos a pé, para apanhar ar.”

Sigo com ele e com o embaixador José Augusto Duarte, o assessor de imprensa, Paulo Magalhães, e uma mão-cheia de seguranças portugueses e moçambicanos. Os homens da segurança portugueses, já habituados ao estilo do PR, estão atentos mas não impõem a sua presença; os moçambicanos estão à beira de um ataque de nervos, perante a descontração com que um chefe de Estado estrangeiro se aventura pelas ruas interpelando quem passa. Ainda na semana anterior, Maputo tivera tanques e militares nas ruas, para controlar protestos convocados pelas redes sociais. A crise económica é um sorvedouro, a inflação é galopante, o país perdeu o financiamento internacional por ter escondido dois mil milhões de dólares de défice, há guerra com a Renamo nas províncias do centro — tudo temas que ocuparam a agenda de Marcelo, tudo razões para a segurança não querer um Presidente a saltitar pela cidade.

Os passeios estão sujos e esburacados, há prédios novos em construção, mas a maioria são velhos e descuidados, aqui e ali vislumbram-se vestígios da velha Lourenço Marques e o PR mostra-se um guia sabedor: “Onde é a residência do embaixador era a casa do homem mais poderoso desse tempo em Moçambique, o governador do Banco Nacional Ultramarino. Passavam os governadores e ele ficava...” Conta quem vivia onde, quem ficou e quem voltou para Portugal, vai apontando à roda, apesar da pouca luz: “Isto numa primeira fase era só vivendas apalaçadas, depois na década de 70 fizeram estes prédios. Mas imagine isto a ser concebido no início do século XX com esta amplitude de avenidas… Já viu o que é a quadrícula desta cidade? Olá jovens bonitas! Tem que se dar um beijinho a estas jovens, é um desperdício muito grande não dar beijinhos…”

A caminhada é pontuada por beijinhos e histórias. Percebe-se aquilo que Marcelo diria dois dias depois, na tal sessão de perguntas e respostas na escola, quando uma aluna lhe pergunta o que o marcou mais na visita. “A melhor coisa de Moçambique é sentir-me em casa”, responderia. “Chego e conheço as ruas, os edifícios, os cantos. Sabem que cheguei a pensar passar metade de minha vida entre Portugal e Moçambique?”

Ao fim de uns vinte minutos, chegamos ao Polana com Marcelo a falar da cidade “vibrante e cosmopolita” que conheceu no verão de 1968 e das diferenças para Portugal. “Era como o dia e a noite. Portugal era conservador, as senhoras vestiam-se à antiga, e aqui, por influência sul-africana, a liberdade sexual era imensa, as mulheres faziam desporto…” Baltazar, sempre preocupado em transmitir uma imagem de sobriedade e rigor, não autorizava os filhos a convidar amigos para a piscina nem para os courts de ténis do palácio (em cuja manutenção não aplicava um centavo), pelo que o Polana era o principal centro da vida social dos Rebelo de Sousa.

rui ochôa/presidência da república

POPULAR. 
Nos quatro dias que passou em Maputo, Marcelo procurou o contacto com o povo e foi sempre recebido com entusiasmo

POPULAR. 
Nos quatro dias que passou em Maputo, Marcelo procurou o contacto com o povo e foi sempre recebido com entusiasmo

rui ochôa/presidência da república

“Nunca deixou de ser um sítio especial, mesmo na fase mais decadente”, comenta Marcelo conforme entramos no imponente hotel construído com a famosa varanda virada para a piscina e para o Índico. Depois de quase uma década sem pôr pés na cidade, Marcelo voltou no final dos anos 70 e começou uma relação sem traições com o Polana. Quando a viagem era por razões académicas, para dar aulas, e a faculdade não podia pagar o hotel, o professor pagava o remanescente. “Continua a ser um hotel desses tempos coloniais, há pessoas que eu encontro sempre aqui, algumas sempre na mesma mesa. Sinto-me como se estivesse em Casablanca ou em Lisboa nos tempos de guerra, com aquelas figuras que nos perguntamos o que estarão ali a fazer…”, fantasia, ao atravessar o lobby dominado por mármores. “Havia o five o’clock tea, por influência dos ingleses, e à noite tinha sempre música ao vivo e a elite vinha para aqui dançar as danças de salão. Eu era um miúdo, por isso nessa altura as danças de salão eram uma chatice. Dançava com a minha mãe, mas preferia ritmos mais modernos.”

Muda de assunto de repente. “Sabe que a primeira conferência assim mais política que eu fiz foi aqui? No Clube Rotário de Lourenço Marques. Eu tinha 19 anos” — foi no verão em que surpreendeu os pais com uma barbinha mefistofélica que seria a sua imagem de marca. “Fiz uma coisa sobre ‘direito e desenvolvimento económico e social em África’. Uma coisa altamente avançada para a época.” Foi o início da carreira de comunicador, juntando num cocktail as leis que estudava na faculdade e o conhecimento de África que acumulara a viajar com o pai.

“Naquela altura percorri o território todo. Sentia que estávamos a viver o fim do Império, o drama é que muita gente na elite não percebia isso. Olhando para o que se passava em Lisboa e no mundo, com o processo das independências africanas imparável, a sensação que eu tinha era que o que existia aqui não existiria por muito mais tempo.”

Não existiu, de facto. Mas Marcelo, esse, voltou sempre. “Não é por acaso que os afetos mais profundos são normalmente os afetos mais antigos”, diz. E não é verdade isso de que não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 14 maio 2016