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Costa rumo à reconfirmação da “geringonça”

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VOTEM EM MIM. António Costa na sessão de esclarecimento de António Costa desta quarta-feira

marcos borga

Socialistas vão às urnas esta sexta-feira e sábado para eleger os delegados e o secretário-geral, tendo em vista o congresso do partido, que se realiza entre 3 e 5 de junho na FIL, em Lisboa, e que vai servir para reconfirmar a estratégia da “geringonça”. Há duas moções e dois candidatos a secretário-geral, mas só um é que conta. Vozes discordantes também há duas, pelo menos

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

“Votem em mim”, apelou na quarta-feira o secretário-geral do PS António Costa, numa sessão de esclarecimento para os militantes da região de Lisboa. As diretas em Lisboa são já esta sexta-feira e o primeiro-ministro será reeleito de forma (quase) incontestada.

A moção de António Costa – “Cumprir a alternativa, consolidar a esperança” – confunde-se com o próprio tema deste XXI Congresso: “Afirmar a alternativa à política de austeridade”, tal como afirma a secretária-geral adjunta Ana Catarina Mendes.

Há um outro candidato a secretário-geral – Daniel Adrião – mas, a bem dizer, apenas por imposição estatutária. Este militante de 48 anos, duas vezes candidato à liderança do JS, jornalista e líder da concelhia do PS de Alcobaça (onde costuma organizar o seu Carnaval) quis apresentar uma moção – e fê-lo (“Resgatar a democracia”) – sendo assim obrigado pelo regulamento interno a candidatar-se em simultâneo a secretário-geral.

O facto não lhe provoca qualquer incómodo, até porque não pretende disputar o cargo ao atual líder. “A liderança do PS está bem entregue a António Costa”, afirmou, considerando que o que pretende é suscitar a discussão em torno de um objetivo que considera central, a abertura do sistema político.

Adrião defende uma reforma do sistema de representação política, através de uma nova lei eleitoral para a Assembleia da República com criação de círculos uninominais. Um objetivo condenado à partida, já que se sabe que nesta legislatura não haverá nenhuma reforma da lei eleitoral.

O Congresso elegerá também a nova presidente do Departamento das Mulheres Socialistas, que já se sabe de antemão ser Elza Pais, a antiga secretária de Estado da Igualdade de José Sócrates e atual deputada. É ela a única candidata, com uma moção sobre as “Novas Lideranças”.

Contestação focada

CRÍTICO. Francisco Assis

CRÍTICO. Francisco Assis

ALBERTO FRIAS

O facto de não haver sessão noturna vai evitar que ocorra aquilo que levou Francisco Assis, uma das poucas vozes críticas da atual orientação do partido, a abandonar o Congresso. Relegado para discursar a altas horas da noite, preferiu ir-se embora. O atual eurodeputado já afirmou que pretende estar presente e apresentar as suas ideias.

Outro dos críticos da orientação de Costa de fazer acordos à esquerda é Sérgio Sousa Pinto, que também irá ao Congresso. O antigo secretário nacional bateu com a porta e abandonou o cargo, depois de, após as eleições, ver confirmada a decisão da liderança de realizar os acordos com os partidos de esquerda, contra os quais se manifestou, para além de ter questionado que a solução governativa fosse encabeçada por um partido que perdeu as eleições. “O líder do partido mais votado deve ser primeiro-ministro”, disse na altura.

Na sua moção, António Costa não se esqueceu destas críticas e, ao elencar os êxitos (“provas superadas”, chama-lhe) já conseguidos pelo Governo, refere que elas “desmentem de forma categórica a visão catastrofista dos que punham em causa a solidez da atual solução governativa”. E, depois, a alfinetada: “para os tradicionais adeptos do pessimismo militante, que tanto desdenharam da solução encontrada a ponto de questionar até a sua legitimidade democrática, a confirmação da viabilidade política da solução governativa apoiada pela esquerda e esta sucessão de “provas superadas” pelo Governo constituem uma evidente derrota (...). A estabilidade alcançada é um sinal de pacificação democrática que deve reconfortar os portugueses”.

PRESENTE. Sérgio Sousa Pinto com João Galamba, no XX Congresso do PS

PRESENTE. Sérgio Sousa Pinto com João Galamba, no XX Congresso do PS

luís barra

As críticas de uma excessiva a viragem à esquerda do PS são também rebatidas pelo secretária-geral adjunta, que ao Expresso afirmou que o partido “sempre foi de esquerda e continua fiel aos seus princípios e valores”. Segundo Ana Catarina Mendes, “a declaração de princípios assume uma defesa radical da democracia, estamos como sempre estivemos disponíveis para encontrar compromissos com todas as forças partidárias que vão ao encontro de uma política com mais emprego, mais igualdade e mais coesão“. O Congresso – disse – será o momento de “afirmação do grande partido da esquerda democrática”.

Ana Catarina anunciou ainda que se pretende dar mais espaço dentro do partido a “pessoas normais”, uma formulação polémica que tem como objetivo integrar nos órgãos nacionais um terço de militantes que não dependa do partido ou de nomeações políticas.

Trata-se de uma proposta em linha com o que afirma a própria moção de António Costa, onde se propõe que se “inicie um processo de remodelação da estrutura partidária e do modelo de vinculação ao partido – os modelos tradicionais, assentes na contribuição financeira, pagamento de quotas e disponibilidade para exercício de funções partidárias geraram efeitos perversos que importa contrariar”.

Costa quer um partido mais aberto, até porque – reconhece – “assumimos com modéstia que a nossa base militante é estreita para a nossa representatividade real na sociedade portuguesa”. Por essa razão quer combinar o reforço da base militante com outras formas de participação.

As quatro tarefas

OS CHEFES. António Costa e Marcos Perestrello na sessão de quarta-feira

OS CHEFES. António Costa e Marcos Perestrello na sessão de quarta-feira

marcos borga

Esta quarta-feira, na sessão de esclarecimento, foram quatro as tarefas enumeradas por António Costa: cumprir os compromissos com o eleitorado, com os parceiros e a União Europeia; cumprir os compromissos no âmbito parlamentar “para dar estabilidade ao país”; responder ao desafio das próximas eleições autárquicas; e a derradeira “e básica tarefa” – “não fechar o partido para obras”, porque “o Governo só pode existir com um sólido apoio na sociedade”.

Para Costa, a tarefa de manter o partido vivo “é fundamental para que ele exista para além do Governo”. E acrescentou: “temos muito orgulho nos acordos com os nossos parceiros, mas o principal acordo é com o PS”.

As novidades

De um ponto de vista organizativo, o Congresso tem algumas novidades: é aberto a simpatizantes, mas delegados só os militantes com as quotas em dia. São esses, num total de 1764, que serão eleitos este fim de semana. A este total somam-se depois os que são delegados por inerência, elevando o número global par pouco mais de 2000.

O Porto é a Federação que mais delegados elege (311), a que menos levará ao Congresso é a Regional Oeste, a mais pequena (apenas 16). E haverá ainda 22 que virão dos círculos da Europa e fora da Europa. Convidados estrangeiros também haverá, embora por enquanto não tenham ainda sido divulgados.

O primeiro dia (sexta-feira) será reservado à discussão de temas setoriais, aberto a todos, que se focarão na política cultural, educação para todos, o que mudou no sistema político e os quatro défices da sociedade portuguesa. O Congresso, em si, iniciar-se-á no sábado de manhã e já está garantido que não haverá sessão noturna. O encerramento será por volta da hora de almoço de domingo.

[Texto publicado no Expresso Diário de 189 de maio de 2016]

  • António Costa: “Votem em mim”

    Numa sessão de esclarecimento sobre a moção que apresenta ao Congresso de Junho, o secretário-geral do Partido Socialista pediu especial mobilização nas autárquicas e no partido, e apelou para que o PS “não feche para obras”